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A PANDEMIA NÃO ACABOU!

Aumento de internações de jovens em UTIs acende alerta

Na faixa etária de 30-39 anos, em setembro de 2020 havia 16 pacientes internados, número que subiu para 71 em março deste ano (+ 343,75%). Os de 40-49 anos eram 14 e subiram para 133

domingo, 25/04/2021, 09:15 - Atualizado em 25/04/2021, 09:41 - Autor: Luiz Flávio


Professor Edgar Monteiro
Professor Edgar Monteiro | Divulgação

O número de pacientes mais jovens internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTI’s) e em leitos clínicos no Pará deu um salto considerável nos últimos seis meses. O DIÁRIO levantou junto a Secretaria de Estado de Saúde (Sespa) números de setembro de 2020 e de março deste ano para mostrar o perfil de ocupação nos dois tipos de leito nos últimos seis meses. Foram levantadas as internações em 5 faixas etárias. Em todas foi registrado o aumento de internações, mas o destaque fica em 3 faixas: 30-39, 40-49 e 50-64 anos.

Nas UTIs, na faixa etária de 30-39 anos, em setembro de 2020 havia 16 pacientes internados, número que subiu para 71 em março deste ano, o que representa um aumento de 343,75%. Os pacientes de 40-49 anos eram apenas 14 em setembro do ano passado e subiram para 133 em março, com aumento de 850%. Na faixa de 50 a 64 anos as internações passaram de 52 em setembro de 2020 para 387 em março último, com percentual e aumento na ordem de 644,23% nas internações.

Nos leitos clínicos a situação de crescimento se repete: na faixa etária de 30-39 anos em setembro de 2020 haviam 60 pacientes internados, número que subiu para 361 em março deste ano, o que representa um aumento de 501,66%. Já os pacientes de 40-49 anos eram 65 em setembro do ano passado e subiram para 505 em março, com incremento de 676,92%. Na faixa de 50 a 64 anos as internações passaram de 95 em setembro de 2020 para 906 em março último, com percentual de aumento na ordem de 853% nas internações, o maior entre todas as faixas apuradas.

Os números do Pará refletem o levantamento realizado pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira, confirmando o que os médicos já vinham observando no dia a dia: os mais jovens são maioria nas UTIs do país. Segundo a entidade, no mês passado, 52% das internações nas unidades de terapia intensiva foram de pessoas com até 40 anos.

É o maior percentual já registrado durante a pandemia. Entre setembro do ano passado e fevereiro deste ano, pacientes dessa faixa etária eram 44% dos internados nas UTIs. Se a internação dos mais jovens cresce, a de idosos vem caindo segundo os dados da associação: apenas 7% dos pacientes com Covid nas UTIs em março tinham mais de 80 anos. Uma queda de 42% na comparação com o acumulado dos três meses anteriores.

 

 


PACIENTE

O professor Edgar Monteiro Chagas Júnior, 43, não sabe quando e nem como pegou o vírus. A notícia da contaminação se tornou ainda mais angustiante porque ele garante que sempre tomou todas as precauções sanitárias e seguiu todas as recomendações da ciência em relação à doença. “Assim que tive os primeiros sintomas de febre, calafrios e dores no corpo no meio do mês passado procurei imediatamente atendimento. Fui medicado e a médica disse que poderia me tratar em casa”.

Ocorre que a doença evoluiu. Após os primeiros sintomas que duraram 3 dias, veio a perda de olfato e paladar, mesmo com a medicação. Depois de 3 dias os sentidos voltaram, mas o professor começou a perder a capacidade respiratória, com uma tosse seca e incessante e muita dor no pulmão. “Após uma semana em casa com o tratamento recomendado com antibiótico, antiinflamatório e anticoagulante, procurei novamente o hospital e tive que ser internado”.

Edgar foi colocado no oxigênio e, no dia seguinte, foi para o CTI para ser monitorado. “Passei 3 dias lá, mas não fui intubado. Fui melhorando e fui transferido para um leito clínico. Graças a Deus respondi bem aos medicamentos”, comemora.

No total o professor ficou 10 dias internado e teve sequelas leves. “Ainda faço exames, mas basicamente tenho cansaço, com respiração ofegante. Qualquer esforço me cansa”. Mas a sequela mais importante é a psicológica. “Num dia você está conversando com uma pessoa e, no dia seguinte, ela sai do seu lado dentro de um saco preto”.

O que uma pessoa presencia dentro de um hospital numa pandemia é muito impactante. “É chocante. Você sente um alívio e uma alegria por ter sido curado, mas, ao mesmo tempo, uma tristeza enorme pelos que morreram e pelos que ficaram internados. Tenho 43 anos e vi pessoas mais novas lutando pela vida e morrendo”.

Edgar está com pouco mais de 2 semanas de alta e permanece em casa fazendo fisioterapia respiratória e alguns exercícios físicos, sem medicação. “Está mais do que comprovado que essa doença não tem idade e a maneira mais inteligente dos jovens não a disseminarem é se auto proteger e ter isso como condição de vida e estabelecer uma forma de proteger o seu próximo respeitando os protocolos básicos recomendados pelas autoridades sanitárias, com uso de máscara e distanciamento social”.

Para o professor, que é geógrafo e doutor em Antropologia e Sociologia, quem foi curado da doença deve se engajar em campanhas via redes sociais e em outras mídias para convencer seus grupos de relação social dos perigos e consequências dessa doença, “relatando sua experiência com a doença e os danos orgânicos e psicológicos que ela causa”.

Mudanças na pandemia desde dezembro de 2019

A médica infectologista Helena Brígido ressalta que a pandemia da Covid-19 tem sido modificada desde dezembro de 2019. Segundo ela, os primeiros casos na China, Europa e Brasil estavam direcionados para pessoas idosas.

 

Médica infectologista Helena Brígido
Médica infectologista Helena Brígido Divulgação
 


“Observamos que além da faixa etária acima de 60 anos, havia maior concentração em pessoas com comorbidade: diabéticos, hipertensos, pessoas com doença pulmonar crônica, fumantes, obesos. Desde o início tivemos também mais casos no sexo masculino que no feminino. Alguns estudos mostram uma relação com algo androgênico, isto é, substâncias presentes no homem”.

A infectologista acredita que o aumento de casos nos mais jovens está relacionado principalmente ao comportamento desse segmento. Após a chegada das vacinas anti-Covid, com a proteção dos segmentos prioritários na campanha (idosos, profissionais de saúde, população confinada) a médica diz que houve um aumento de novas infecções nas pessoas que ainda não se vacinaram por não estarem no calendário de agendamento para aplicação dos produtos: os jovens e adultos jovens.

“Estes, no momento, estão mais expostos por provavelmente acharem que não são dos chamados grupos de risco e, por isso, saem para o lazer e serviços não essenciais. Há, então, uma dupla possibilidade de adquirirem o SARS-CoV2: pela exposição e pela ausência de formação de anticorpos por vacina”, detalha Helena Brígido, que possui mestrado e doutorado em Medicina Tropical.

Ela alerta para a necessidade de se manter as estratégias de prevenção com o uso de máscaras cobrindo nariz e boca, não aglomerar e higienizar as mãos. “E, em qualquer sinal ou sintoma de febre, tosse, dor no corpo, dor de cabeça, dor abdominal, diarreia ou, se tiver contato com alguém suspeito ou confirmado de Covid-19, mesmo sem sintomas, procurar atendimento médico urgente”.

“As pessoas precisam se convencer de que essa doença mata”

A jornalista Jéssica Santana, 26, acordou no dia 16 de março passado com muita dor na cabeça e no corpo. Como é praticante de Crossfit, achou que era por conta do treino pesado feito na noite anterior e uma noite com insônia. “Saí para resolver umas coisas, e quando cheguei em casa meu avô estava reclamando dos mesmos sintomas que eu”, lembra.

 

Jéssica Santana
Jéssica Santana Divulgação
 


Ela e o avô testaram positivo para Covid-19. “Nós nem desconfiávamos que quem contraiu primeiro o vírus foi a minha avó, só que ela já estava bem. Achávamos que era virose, pois ela só sentia dor no corpo e sono”, afirma.

Avô e neta iniciaram o tratamento no mesmo dia. “Já na noite do dia 16, comecei a sentir falta de ar. Achei estranho porque esses sintomas aparecem no 5º dia da doença. Não dormi a noite toda. Dois dias depois eu fui pra UPA de Icoaraci, muito ruim. Trocaram os medicamentos e voltei pra casa. Meu avô não sentiu nada. Minha avó já estava curada”, conta.

Mais de um mês depois de ter contraído a doença, Jéssica conta que ainda não voltou à sua rotina. “Sinto dores de cabeça e no peito diariamente. Confesso que estou com medo. Eu tinha uma rotina regrada com treinos, dieta, suplementação. Perdi 7 quilos nas últimas semanas”.

A jornalista passou 10 dias bem ruins. “Essa doença mata o corpo e a mente. Fiquei psicologicamente abalada. Fiquei isolada dos demais familiares 14 dias. Mas sigo em casa ainda e cumprindo todos os protocolos. As pessoas precisam se convencer de que essa doença mata. Não é brincadeira”.

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