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Grandes Comparativos: a maratona de 30 horas em Interlagos

sexta-feira, 25/08/2017, 21:50 - Atualizado em 25/08/2017, 21:50 - Autor:


(arquivo/Quatro Rodas)

Interlagos sempre foi a meca do automobilismo nacional. Seu traçado original, com mais de 7.000 metros de curvas e retas, forjou grandes pilotos do automobilismo mundial e serviu de palco a vários campeões da Fórmula 1.

Muito seletiva, a pista também era o cenário adequado para os carros passarem por uma verdadeira prova de resistência. Completar volta após volta ao longo de horas de teste era a comprovação de que o automóvel estava pronto para o uso severo nas ruas e estradas brasileiras.

QUATRO RODAS nunca teve a pretensão de fabricar um carro, mas, como parte das comemorações de seu 30º aniversário, em setembro de 1989 ela submeteu nove modelos, entre os melhores produzidos no país, para um desafio e tanto: rodar 30 horas sem parar no autódromo de Interlagos.

Os pit stops foram úteis para dar uma geral em cada automóvel

Os pit stops foram úteis para dar uma geral em cada automóvel (arquivo/Quatro Rodas)

Para isso, convidou 18 pilotos – do nível de Ingo Hoffmann, Fábio Sotto Mayor e Silvio Zambello – para tocar as carros em intermináveis 24 horas. Nas 6 horas seguintes, foi a vez de os convidados dirigirem em um ritmo menos puxado.

“A ideia de se organizar um teste desse tipo foi uma maneira diferente de registrar e avaliar o salto de qualidade da nossa indústria automobilística nesses últimos 30 anos”, justificava a reportagem.

Os pilotos se revezaram em turnos de 1h15 ao volante e o mesmo tempo para descanso. O forte ritmo imposto por eles forçou a utilização de um lote extra de pneus. Para se ter ideia, logo nas primeiras 10 horas, os carros gastaram um total de 75 pneus, média de mais de oito unidades por automóvel.

Os pilotos impuseram um ritmo muito forte no traçado antigo de Interlagos

Os pilotos impuseram um ritmo muito forte no traçado antigo de Interlagos (arquivo/Quatro Rodas)

Mistura de carros

O teste rendeu observações curiosas dos pilotos. Edson Yoshikama, por exemplo, disse que seria interessante misturar a carroceria de um automóvel com o motor de outro: “Você vê como anda o Ford Escort XR3 1.8 e fica com vontade de pôr esse motor no Fiat Uno. Quem sabe assim as fábricas, vendo seu carro ganhar uma corrida com motor do concorrente, tratariam de melhorar seus produtos”.

O motor 1.8 da Volks deu nova vida ao Escort XR3

O motor 1.8 da Volks deu nova vida ao Escort XR3 (arquivo/Quatro Rodas)

O Escort XR3, elogiado por Yoshikama, fez parte de um consenso: melhorou muito depois de ganhar motor 1.8 da Volkswagen, fruto da parceria das duas marcas que criou a holding Autolatina. “O Escort ficou uma fera, um carro magnífico”, exaltou o piloto.

A precisão dos engates do câmbio também arrancou aplausos. No entanto, Fábio Sotto Mayor fez uma ressalva: “Ainda falta um pouco para ser um verdadeiro esportivo: mais torque e freios a disco nas quatro rodas”. Outra crítica: ele saía muito de traseira nas curvas.

TESTE DE PISTA Escort XR3 1.8
Consumo médio 4,40 km/l (álcool)
Velocidade média 127,15 km/h
FICHA TÉCNICA
Motor dianteiro, transversal, 4 cilindros em linha, 1.781 cm³, 81 x 86,4 mm, carburador, 97 cv a 6.000 rpm, 16 mkgf a 3.000 rpm
Câmbio manual de 5 marchas, tração dianteira
Dimensões comprimento, 406 cm; largura, 164 cm; altura, 132 cm; entre-eixos, 240 cm; peso, 998 kg

Um dos modelos mais regulares na rigorosa tocada dos pilotos foi o Volkswagen Gol GTS. Ele andou “redondo” e não teve problemas dignos de registro. Estabilidade, câmbio, suspensão, retomada e motor foram os itens mais elogiados.

Mais barato que o GTI, o Gol GTS foi mais veloz - e recebeu mais elogios

Mais barato que o GTI, o Gol GTS foi mais veloz – e recebeu mais elogios (arquivo/Quatro Rodas)

Mesmo assim, Walter “Tucano” Barchi apontou um pequeno pecado. “A direção encobre a leitura dos instrumentos e o freio faz o carro dançar”, afirmou o piloto. Alguns de seus colegas salientaram que, considerando a relação custo-benefício, o GTS valia mais a pena que o Gol GTi.

TESTE DE PISTA Gol GTS 1.8
Consumo médio 4,41 km/l (álcool)
Velocidade média 129,29 km/h
FICHA TÉCNICA
Motor dianteiro, longitudinal, 4 cilindros em linha, 1.781 cm³, 81 x 86,4 mm, carburador, 99 cv a 5.600 rpm, 14,9 mkgf a 3.600 rpm
Câmbio manual de 5 marchas, tração dianteira
Dimensões comprimento, 384 cm; largura, 160 cm; altura, 137 cm; entre-eixos, 235 cm; peso, 960 kg

Muito paparicado pela injeção eletrônica, o Gol GTi não ganhou tantos elogios quanto o GTS. Em primeiro lugar, por causa da cor vermelha no painel, que confundia e cansava o motorista.

Em segundo, faltava um banco que abraçasse mais o piloto. E, por fim, apresentou nível de ruído exagerado. Como pontos positivos, mereceram registro o câmbio, a velocidade final e as boas retomadas.

TESTE DE PISTA Gol GTI 2.0
Consumo médio 5,63 km/l (gasolina)
Velocidade média 127,43 km/h
FICHA TÉCNICA
Motor dianteiro, longitudinal, 4 cilindros em linha, 1.984 cm³, 82,5 x 92,8 mm, injeção eletrônica, 120 cv a 5.600 rpm, 18,3 mkgf a 3.200 rpm
Câmbio manual de 5 marchas, tração dianteira
Dimensões comprimento, 385 cm; largura, 160 cm; altura, 135 cm; entre-eixos, 236 cm; peso, 997 kg

O automóvel mais moderno da maratona era o Chevrolet Kadett GS. Seu estilo foi apontado como o mais atual entre os modelos que estavam na pista de Interlagos. Mais moderno, porém, não significava o melhor. O carro mostrou-se muito beberrão (3,80 km/l com etanol) e queimou muito pneu (houve 13 trocas).

Para um familiar, a Quantum agradou; já o Kadett GS sentiu falta de mais potência

Para um familiar, a Quantum agradou; já o Kadett GS sentiu falta de mais potência (arquivo/Quatro Rodas)

Sotto Mayor reclamou da potência: “Faltam uns 10 cv para ele ser esportivo de verdade”. Os pontos positivos foram elasticidade do motor, que proporcionou ótimas retomadas, e dirigibilidade. “Dirigi-lo é fácil, não cansa”, disse Roberto Manzini

TESTE DE PISTA Kadett GS 2.0
Consumo médio 3,80 km/l (álcool)
Velocidade média 123,52 km/h
FICHA TÉCNICA
Motor dianteiro, transversal, 4 cilindros em linha, 1.988 cm³, 86 x 86 mm, carburador, 99 cv a 5.600 rpm, 16,2 mkgf a 3.000 rpm
Câmbio manual de 5 marchas, tração dianteira
Dimensões comprimento, 400 cm; largura, 166 cm; altura, 139 cm; entre-eixos, 252 cm; peso, 1.040 kg

“Conjunto perfeito.” Essa expressão foi compartilhada por vários pilotos ao saírem do Monza Classic, que também apresentou invejável regularidade. Para Ingo Hoffmann, o carro tinha suspensão e freios excelentes e era muito silencioso. Só não gostou do câmbio, “muito longo e duro”.

Ao todo, os nove carros rodaram quase 20.000 em Interlagos

Ao todo, os nove carros rodaram quase 20.000 em Interlagos (arquivo/Quatro Rodas)

Outra falha: para um carro de luxo, a posição dos botões de abrir e fechar os vidros estava num local incômodo. Em compensação, a estabilidade do Monza superou a dos demais, na opinião de Silvio Zambello.

TESTE DE PISTA Monza Classic 2.0
Consumo médio 5,84 km/l (gasolina)
Velocidade média 118,83 km/h
FICHA TÉCNICA
Motor transversal, 4 cilindros em linha, 1.988 cm³, 86 x 86 mm, carburador, 99 cv a 5.600 rpm, 16,2 mkgf a 3.500 rpm
Câmbio manual de 5 marchas, tração dianteira
Dimensões comprimento, 436 cm; largura, 166 cm; altura, 135 cm; entre-eixos, 257 cm; peso, 1.090 kg

O Caravan Diplomata completou o trio da General Motors que colecionou elogios. Foi uma das maiores surpresas do teste, com a segunda melhor média de velocidade (só abaixo do Gol GTS). “É o carro que eu escolheria para rodar 24 horas nesse ritmo intenso”, revelou Fábio Greco.

Os responsáveis por tantos confetes foram a força do motor de seis cilindros, o conforto e a melhora da suspensão, que permitia aos pilotos fazer as curvas como se fosse um carro esportivo.

A Caravan Diplomata surpreendeu, andando na frente de quase todos os esportivos

A Caravan Diplomata surpreendeu, andando na frente de quase todos os esportivos (arquivo/Quatro Rodas)

Outra façanha: o Diplomata foi o único que não precisou trocar os pneus uma única vez. “Ele tem freios excepcionais, o meu preferido para viagens longas”, afirmou Alvino Pereira Júnior.

TESTE DE PISTA Caravan Diplomata 4.1
Consumo médio 3,23 km/l (álcool)
Velocidade média 128,01 km/h
FICHA TÉCNICA
Motor dianteiro, longitudinal, 6 cilindros em linha, 4.093 cm³, 98,4 x 89,7 mm, carburador, 135 cv a 4.000 rpm, 30 mkgf a 2.000 rpm
Câmbio manual de 4 marchas, tração traseira
Dimensões comprimento, 481 cm; largura, 176 cm; altura, 149 cm; entre-eixos, 266 cm; peso, 1.364 kg

Outra perua a entrar na pista, a Quantum CL 2000 mostrou grandes qualidades e pequenos defeitos. No geral, recebeu alto índice de aprovação.

Ricardo Serata, Dimas de Mello Pimenta e Roberto Manzini não viram um ponto negativo sequer. As restrições ficaram nos detalhes, a exemplo do “freio mole”, como ressaltou Sotto Mayor.

Estabilidade, motor e freios levaram nota máxima e, no julgamento geral, era um carro irrepreensível para a família nas viagens ou para quem precisa de um automóvel confiável no dia a dia.

TESTE DE PISTA Quantum CL 2000
Consumo médio 5,75 km/l (gasolina)
Velocidade média 121,91 km/h
FICHA TÉCNICA
Motor dianteiro, longitudinal, 4 cilindros em linha, 1.984 cm³, 82,5 x 92,8 mm, carburador, 112 cv a 5.200 rpm, 17,3 mkgf a 3.400 rpm
Câmbio manual de 5 marchas, tração dianteira
Dimensões comprimento, 454 cm; largura, 169 cm; altura, 144 cm; entre-eixos, 255 cm; peso, 1.160 kg

As maiores críticas do teste de resistência recaíram sobre o Fiat Uno 1.5R. Choveu reclamação na hora de tocar o pequeno carro da Fiat. Em suma, o compacto estava longe de ser um esportivo, ao contrário da sua proposta no mercado.

Um defeito apontado por Regina Calderoni era a traseira muito leve, “que chega a sair do chão nas freadas mais fortes”.

O Uno 1.5R decepcionou. Um das reclamações foi o câmbio curto

O Uno 1.5R decepcionou. Um das reclamações foi o câmbio curto (arquivo/Quatro Rodas)

A avaliação foi ingrata para o Uninho, uma vez que os pilotos tiveram à disposição modelos bem mais potentes. Outro problema relatado pelos 18 pilotos: o câmbio duro. O bombardeio só não foi maior porque aerodinâmica, freios e estabilidade entraram na lista das virtudes.

TESTE DE PISTA Uno 1.5R
Consumo médio 6,59 km/l (gasolina)
Velocidade média 117,83 km/h
FICHA TÉCNICA
Motor dianteiro, transversal, 4 cilindros em linha, 1.498 cm³, 86,4 x 63,9 mm, carburador, 85 cv a 6.000 rpm, 12,9 mkgf a 3.500 rpm
Câmbio manual de 5 marchas, tração dianteira
Dimensões comprimento, 364 cm; largura, 154 cm; altura, 144 cm; entre-eixos, 236 cm; peso, 920 kg

Parada nos boxes

Se o Uno decepcionou, o Prêmio foi uma boa surpresa. Não que tenha arrancado suspiros, mas ao menos comportou-se de maneira satisfatória.

Ele foi o automóvel mais econômico (6,66 km/l) e surpreendeu pelo motor e equilíbrio da boa suspensão. “O painel também é bastante completo”, observou Rogério dos Santos.

Houve muito desgates durante a maratona: média de um a cada 13 minutos

Houve muito desgates durante a maratona: média de um a cada 13 minutos (arquivo/Quatro Rodas)

Fábio Greco, que já havia se encantado com o Diplomata, repetiu o discurso com o Prêmio: “Sou forte candidato a comprar um carrinho desses. A dirigibilidade é ótima, você faz o que quer com ele”.

Pena que um defeito no câmbio o deixou quase 1 hora parado nos boxes para o conserto. As 29 horas em ação, porém, mostraram sua valentia.

TESTE DE PISTA Prêmio CSL 1.6
Consumo médio 6,66 km/l (gasolina)
Velocidade média 117,34 km/h
FICHA TÉCNICA
Motor dianteiro, transversal, 4 cilindros em linha, 1.580 cm³, 86,4 x 67,4 mm, carburador, 84 cv a 5.700 rpm, 13,2 mkgf a 3.250 rpm
Câmbio manual de 5 marchas, tração dianteira
Dimensões comprimento, 403 cm; largura, 155 cm; altura, 144 cm; entre-eixos, 236 cm; peso, 920 kg

Nós dissemos… setembro de 1989

“Durante as 24 horas, os pilotos trocaram de marcha 30.622 vezes, uma média de 3.402 trocas por carro. A Caravan Diplomata recebeu 2 litros de água no radiador ao longo da prova; o Kadett recebeu 0,5 litro de água e 1 litro de óleo no motor. O Gol GTi recebeu, assim como a Quantum, 0,5 litro de óleo. Os demais carros – Uno, Prêmio, Monza, GTS e Escort – não precisaram nem de óleo nem de água.”


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Fonte: Quatro Rodas Abril

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