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COLONIZAÇÃO

Aniversário da cidade: as raízes indígenas estão na história de Belém

Os Tupinambás já ocupavam o território que hoje corresponde a Belém antes mesmo da chegada dos navios portugueses, em 1616. Vários vestígios dos primeiros habitantes da capital ainda podem ser encontrados

terça-feira, 12/01/2021, 08:21 - Atualizado em 12/01/2021, 09:40 - Autor: Cintia Magno


Museu do Encontro guarda vários registros da época em que apenas os índios ocupavam o território
Museu do Encontro guarda vários registros da época em que apenas os índios ocupavam o território | Ricardo Amanajás

No momento em que os colonizadores portugueses aportaram na área que hoje compreende Belém do Pará, ainda em 12 de janeiro de 1616, o que encontraram estava muito longe de uma área despovoada. Como se repetia ao longo de toda a costa do que hoje é o Brasil, na área onde foi edificado o Forte do Presépio já se encontravam grupos indígenas da língua Tupi, chamados de Tupinambás a partir do Pará até a região Nordeste do país. Ainda que a existência dos chamados povos originários na Amazônia date de até 15 mil anos antes da colonização portuguesa, até hoje é possível conferir vestígios da presença desses que foram os primeiros habitantes do território que posteriormente viria a ser identificado como o da cidade de Belém.

Se a elevação e a boa visibilidade proporcionada pela área do Forte do Presépio chamaram a atenção dos portugueses que pretendiam assegurar o território e impedir a invasão por outros colonizadores europeus, a utilização do espaço enquanto área estratégica também já era observada na organização dos grupos indígenas Tupinambás que lá habitavam originariamente. Não é à toa que as escavações realizadas na região resultaram no achado de um enorme quantitativo de cultura material indígena.

No Museu do Encontro, instalado dentro do Forte do Presépio, é possível ver um corte estratigráfico que mostra a sequência de ocupações daquele solo, até que se chegasse a um nível que atesta a ocupação pelos povos originários. “A sequência de ocupação desse corte mostra que ele chegou no nível do solo indígena e, ao chegar lá, em qualquer parte do solo, a gente encontra cachimbos, vestígios de fogueiras, vestígios de alimentação. É a prova material dessa ocupação aqui na Amazônia. Essa não era uma área desabitada, essa área era densamente ocupada por esses grupos e se hoje não é mais, foi por conta da dizimação”, aponta a pesquisadora do Sistema Integrado de Museus e Memoriais da Secretaria de Estado de Cultura (Secult) e professora do curso de História da Unama, Dayseane Ferraz. “Topograficamente, aqui no Forte estamos na área mais alta da cidade, tanto que se vê o Ver-o-Peso lá embaixo. É um ponto que foi estratégico para os portugueses ocuparem e que já era estratégico para os grupos nativos também”.

Somente na sala do Museu do Encontro, Dayseane aponta que estão registrados vestígios de pelo menos 12 mil anos de ocupação da Amazônia. “Todo esse lado da exposição traz exatamente essa ocupação por esses grupos anteriores ao contato que, de certa forma, já haviam domesticado as áreas onde os portugueses puderam se assentar”, considera. “Quando a gente remonta a ocupação da Amazônia, estamos falando de praticamente 15 mil anos de ocupação. De grupos que construíram aquedutos, comunidades, que mantinham comércios inter-regionais, tinham cacicados. É uma complexidade social muito grande e que de certa forma foi apagada por essa historiografia escrita pelos europeus e que hoje a gente recupera a partir desses testemunhos materiais”.

Diante do domínio português sobre as letras, toda a complexidade social que envolve a história dos povos originários acaba sendo contada por tais vestígios recuperados pela arqueologia. No que se refere ao contexto da formação da cidade de Belém, esses vestígios são encontrados não apenas na área do Forte do Presépio, mas também em outros elementos que compõem o núcleo colonial que foi o ponto de partida para a Belém como se conhece hoje. “Quando se fala, por exemplo, da Igreja de Santo Alexandre, se ouve muito que ela é um expoente da arquitetura barroca, um expoente dessa cultura europeia que se ressignificou aqui na Amazônia. Mas quem ajudou nos entalhamentos dos púlpitos foram os indígenas e tudo o que você produz fica um pouco da sua cultura também. Tanto que tem figuras barrocas que são mais atarracadas, que são de mão de obra indígena”.

Com toda a complexidade que envolvia a organização dos povos que já habitavam o que viria a se tornar Belém, o encontro com os colonizadores portugueses não foi necessariamente harmonioso, ao contrário. Ainda que tenha havido certa negociação entre portugueses e grupos indígenas em determinados momentos, também houve muita resistência. Exemplo disso é que, em 7 de janeiro de 1619, portanto cerca de três anos após a chegada dos portugueses, os Tupinambás tentaram retomar o território do Forte do Presépio que já era ocupado por eles anteriormente, porém foram derrotados. A historiadora Dayseane conta que, ao atacar o forte, o líder indígena Tupinambá Guaimiaba acabou morto com um tiro. “O Guaimiaba foi um líder indígena Tupinambá que em 1619 liderou a tentativa de retomar a área desse assentamento. Nesse confronto, o ‘cabelo de velha’, como os portugueses o chamavam, foi morto aqui com um tiro pelo Gaspar Cardoso”, detalha.

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