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SOCIEDADE

Racismo ainda é uma realidade presente e dolorosa

A celebração desse dia surgiu da necessidade de se combater uma estrutura social que ainda persiste na nossa sociedade. E o DIÁRIO ouviu relatos de quem, no dia a dia, testemunha na própria pele esse mal

sexta-feira, 20/11/2020, 08:50 - Atualizado em 20/11/2020, 08:50 - Autor: Cintia Magno


A celebração do Dia da Consciência Negra surgiu da necessidade de se combater uma realidade que, infelizmente, toda pessoa negra conhece bem. O racismo está presente em todas as esferas sociais, todos os dias, ainda que a população negra venha resistindo e denunciando essas estruturas há séculos. Em mais um dia 20 de novembro, o DIÁRIO foi em busca dos relatos de quem vivencia o que é ser negro no Brasil cotidianamente e enfrentar o racismo todos os dias, mas também se impor e ocupar os espaços que são seus por direito, sobretudo em espaços de poder. Confira o que os entrevistados têm a dizer.

A data de 20 de novembro foi instituída como o Dia da Consciência Negra pela Lei nº 12.519/2011 e faz referência à morte de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, morto em combate ao lutar contra a escravidão no período colonial brasileiro.

Arielly Jorge
Arielly Jorge Acervo Pessoal
 

ARIELLY JORGE - 19 anos, estudante de Ciências Sociais e militante do Coletivo Juntos e do Coletivo Juntas.

“O Brasil é um país racista que mesmo de forma velada atua na exclusão e silenciamento de corpos negros, onde uma das suas principais faces é a desigualdade social encontrada em diversas cidades do território nacional. Belém não é diferente, um breve passeio pelos bairros do Umarizal e Tapanã explicitaria as diferenças de realidade, no que se refere ao acesso de condições básicas para a manutenção da vida, relações estas que se referem à raça, mas principalmente à classe.

Ser negra é difícil, mas ser negra, periférica e nortista é mais ainda. Será que as pessoas já se questionaram o porquê do melody ser tão criminalizado no Pará? Ou o porquê de atitudes tão similares acontecerem com o funk no Rio de Janeiro? A resposta vem facilmente quando analisamos o lugar de origem desses estilos musicais: a periferia, composta majoritariamente pela população preta. Esse resultado é oriundo do racismo estrutural que é o preconceito enraizado e entranhado na sociedade, de modo que todas as atitudes e discursos que humilham, diminuem, agridem e ofendem negros, apenas pelos traços étnicos — olhos, boca, cor da pele, cabelo e etnia — ou comportamentais sejam consideradas “normais”.

Quando negros são o estereótipo de criminosos e são os primeiros visados por policiais, é o racismo estrutural. Quando uma pessoa sente medo e fica na defensiva, ao avistar um negro na rua, é o racismo estrutural. Por esse e outros motivos, é necessário que a população não branca se una com a negritude em prol luta antirracista para que se combata com veemência esta e outras formas de opressão”.

Ellen Silva
Ellen Silva Acervo Pessoal
 

ELLEN SILVA - 33 anos, jornalista e produtora cultural.

“Eu, na verdade, nunca sofri um ato de racismo claro. Mas a gente sabe que existe o racismo velado, claro, e acho que é uma coisa que vai ficar enraizada ainda por muito tempo, infelizmente, principalmente aqui que foram mais de 300 anos de escravidão. Apesar de ter a pele escura eu fui me descobrindo negra com o passar do tempo, crescendo. Quando eu era criança sofria aqueles bullyings, mas para mim aquilo era coisa de colégio e nunca me afetou diretamente. A partir do momento em que eu entrei na faculdade, comecei a ter uma consciência racial mesmo e identidade também porque isso é um processo. Tu podes ter a pele preta, porém, tu te reconheceres é outra história.

Eu passei uma infância toda só vendo gente branca na televisão, eu não tinha essa identidade. Já na fase adulta foi que eu comecei a me identificar com algumas figuras e a partir daí comecei a estudar e me interessar mais. Tanto que depois da faculdade eu fiz uma especialização na área da educação, em cima da lei 10.639, então, isso me abriu muito mais a mente e eu me engajei mais na militância, mas não é uma militância de movimento, é uma militância minha. Eu procuro estudar, me informar mais e passar esse conhecimento para outras pessoas, principalmente os jovens.

Ano passado eu estive em uma atividade de uma escola e fui falar sobre a minha experiência de vida e um garoto me agradeceu por eu estar lá porque ele conseguiu se enxergar em mim, disse que ele sofria preconceito dentro da própria casa porque os pais não aceitavam que ele se assumisse negro, que usasse roupas, penteados porque achavam que ele ia enfrentar preconceito na rua. Ele também se achava limitado de querer ocupar profissões que as pessoas julgavam não ser para negros e isso não existe, a gente pode assumir todo e qualquer espaço. A nação tem, sim, uma dívida com o povo preto, então, o nosso espaço é nosso e ninguém tem o direito de dizer onde a gente deve estar.

A negritude me levou para lugares completamente opostos do que eu imaginava. Eu sou formada em jornalismo há pelo menos sete anos trabalho com política diretamente, então eu conheci muitas pessoas que me ajudaram a construir essa questão de ser negra no Brasil e de ser mulher preta no Brasil. A partir daí acabei indo para o lado cultural e acabei montando uma produtora que é formada por mulheres negras, então a gente está colocando a mulher preta também em um cenário de destaque e de protagonismo porque não é comum. O que poderia me levar para baixo, acabou nos erguendo ainda mais e nos dando mais força para combater essa coisa tão ‘pequena’ que é o racismo”.

Gean Tavares
Gean Tavares Mauro Ângelo
 

GEAN F. S. TAVARES - 32 anos, professor de Ciências da Religião.

“A nossa dor está vinculada nesse sistema desde antes do nascimento, ela vem de nossas mães. Você só existe nesse país porque nossos ancestrais lutaram pela liberdade dos africanos em diáspora. Vulgo negros, pretos e afrodescendentes. Então a pergunta que também surge é se ser negro é só “falar de racismo o tempo todo? ” Não necessariamente, mas precisamos preparar os nossos para o embate racial, a violência obstétrica, epistemicídio “morte antes da bala”.

E no nosso lazer entre os nossos lembramos que viemos de uma terra rica chamada África, que tem milhares e milhares de etnias únicas, que nutriu este país e ser africano em diáspora além de nutrir nossas almas para luta é também saber se amar, cuidar de si, se alimentar, contar histórias de antepassados, como no dia da consciência negra que comemoramos nós lembrando de nossos heróis, “é ser potência” e necessário, pois sem consumir nossas mídias, nossas literaturas ficamos no que a sociedade nos traz, não conseguimos amar e entender como aqueles que vieram antes de nós deixaram um legado, desde sistemas de crenças e espiritualidades à nossa ancestralidade lembrando passado para dar esperança no futuro em que fortalecemos a nossa gente”.

Jessica Oliveira
Jessica Oliveira Acervo Pessoal
 

JESSICA OLIVEIRA - 27 anos, estudante de administração.

“Eu nasci e cresci em uma vila no bairro do Umarizal e quando a gente é criança não tem muita noção de mundo, a gente não sente impactos sociais no geral, a gente só é feliz. O processo de tornar-se negro, que a Neusa Santos fala, é justamente a gente começar a ter noção das coisas que nos atingem e o quanto elas atingem o nosso psicológico. É sobre os micropoderes que nos atingem e o quanto que isso, ao decorrer da vida, afeta a nossa visão da vida e os nossos comportamentos.

Eu me dei conta de que era uma mulher negra quando eu comecei a perceber que existiam algumas coisas diferentes sobre mim e essas coisas não eram comuns. Sou aluna de faculdade particular, então eu convivo com muita gente branca e comecei a perceber que algumas coisas que me afetavam não eram coisas comuns e foi aí que eu comecei a perceber que, na verdade, o meu corpo fala antes de eu abrir a boca. Antes de eu apresentar os meus pontos de vista, o fato de eu estar em determinado local afetava alguns comportamentos e foi aí que eu fui começar a me perceber enquanto uma mulher negra, claro que com a ajuda de várias pessoas, de uma rede. A partir dessa percepção enquanto uma mulher negra fui buscando estratégias de me sobrepor, de me colocar, sim, enquanto uma mulher negra, já que o meu corpo falava e eu queria que ele falasse, mas que ele falasse principalmente o que eu queria que ele dissesse. Aí a gente, pessoas negras que se reconhecem enquanto tal e que percebem uma estrutura racial, começa a procurar estratégias por outros caminhos.

A gente começa a perceber que quando, em alguns lugares, não somos bem-vindos apenas por sermos quem somos, esses mesmos lugares, quando diante de um confronto, são obrigados a simular que não se importam com o nosso corpo e aí são estratégias de se impor, de estar nos espaços, ainda que a gente saiba que não somos bem-vindas. Eu sou uma mulher negra e sou uma mulher lésbica, o meu corpo, em qualquer espaço, fala que sou uma mulher negra. Mas o meu corpo não fala em qualquer espaço que eu sou uma mulher lésbica. Quando se trata de uma mulher preta e lésbica é um pouco diferente porque além da gente viver em uma estrutural racial, a gente vive em uma estrutura patriarcal. Eu sou uma mulher que para eu estar onde eu estou, preciso estar completa, tentando negociar o mínimo possível sobre quem eu sou, sobre as minhas questões, meus objetivos e as minhas demandas. É sobre ser eu por completa”.

Nassandra Lima
Nassandra Lima Acervo Pessoal
 

NASSANDRA LIMA - 36 anos, estudante.

“O racismo atravessa a mim e a todas as pessoas negras e indígenas neste país desde 1500. Hoje nesse dia da Consciência Negra em 2020 é importante falar sobre ação e atitude. Já falamos e vivemos muito a dor, os problemas, racismo e violência. Eu gostaria de falar sobre como mudar isso, esse movimento pela equidade só é real através de ações que possibilitem que nós negros possamos ocupar o nosso espaço como cidadãos, pessoas normais e capazes.

Precisamos de ações reais de apoio e incentivo aos estudos e ao mercado de trabalho. Ter acesso a saúde e qualidade de vida. Que possamos ser vistos além de pele. Respeito e dignidade. É isso”.

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