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EXPECTATIVA

O que a juventude espera dos seus representantes?

Cerca de 30% do eleitorado do Pará é formado por pessoas entre 16 e 29 anos, mas elas se sentem representadas? DIÁRIO ouviu algumas delas

domingo, 04/10/2020, 08:42 - Atualizado em 04/10/2020, 08:42 - Autor: Luiz Flávio


 De modo geral, boa parte ouvida pela reportagem não se sente efetivamente representada por quem elege.
De modo geral, boa parte ouvida pela reportagem não se sente efetivamente representada por quem elege. | Marcelo Camargo/Agência Brasil

“Muitos são os fatores que influenciam o jovem a pensar e decidir em quem votar, sendo um dos principais uma comunicação igualitária, ampla e verdadeira. Hoje vivemos numa era tecnológica, mas essa troca não se aplica de maneira eficiente sobretudo para a parcela mais carente da sociedade”. A percepção da estudante Rosane Araújo do Nascimento, 29, sobre a relação entre candidatos e eleitores revela como os jovens encaram o processo de escolha de seus representantes políticos. De modo geral, boa parte ouvida pela reportagem não se sente efetivamente representada por quem elege.

Cerca de 30% do eleitorado do Pará é formado por jovens. É perto de 1,7 milhão de eleitores, o que pode ser decisivo para a escolha dos 144 prefeitos e 770 vereadores nas eleições municipais deste ano. No Pará, os jovens entre 25 e 29 anos representam 12,12% do eleitorado; os de 21 a 24 anos, 10,17% e os de 16 a 20 anos são 7,10%. Mas será que essa parcela da população se vê representada na cena política?

Para Rosane, que cursa Publicidade e Propaganda, o distanciamento político entre os eleitores jovens e os candidatos se torna ainda mais visível quando se aproxima o período eleitoral, “gerando indignação e rancor naqueles que acreditaram nas promessas do candidato que elegeram e que nunca foram cumpridas”. Ela acredita que o jovem hoje é mais ativo, vigilante e crítico, tendo as mídias sociais como instrumento para se expressar. Mas ela alerta para que esse conteúdo massivo seja analisado criticamente para não se correr o risco de influenciar negativamente suas decisões.

“Esperamos dos representantes políticos que elegemos a ética que o cargo requer em suas ações, que devem ser exclusivamente pensadas sobre os anseios e necessidades do cidadão”, diz Rosane.

Clara Bandeira de Sousa, 18, cursa Ciências Sociais da Universidade Estadual do Pará (Uepa) e defende que o voto é uma das principais ferramentas na construção de um futuro melhor. “Não considero que o brasileiro não vote com inteligência e sim que somos ensinados a não nos importar com política, com o coletivo e com a ciência. É um problema que vem da nossa base: a educação”.

Clara vai priorizar os candidatos que invistam em educação. “Apenas com uma boa educação básica e universidades com excelência podemos melhorar de verdade. Além disso, em um país e numa cidade como a nossa, é necessário pensar em saneamento de qualidade, melhorias no transporte público (incluindo o preço e a lotação), acessibilidade para pessoas com deficiência, acesso a saúde, segurança, entre outras pautas sociais”.

RESISTÊNCIA

Para a professora Luiza Moreno Carvalho, 25, os jovens têm certa resistência à política. “Parece haver uma crença de que a política está separada da nossa vida cotidiana. Acredito que isso se deve muito ao fato de como somos criados e educados, pelas nossas famílias e escola: sem direito à voz e à participação ativa nos momentos de decisão”.

Os governantes entram na lista de autoridades que não ouvem esse segmento, diz. “Nos afastamos por não termos um espaço para debate. Por outro lado, a corrupção e os escândalos nos deixam ‘ressacados’ da política atual. O que espero dos governantes é que, de fato, ouçam a juventude antes de escrever suas propostas de governo. Como você pode dar aos jovens o que querem e o que precisam se você não os ouve?”.

O acadêmico de odontologia Vítor Segtowick D’Oliveira, 20, avalia que a politização entre os jovens atualmente é alta. “É um grupo muito crítico e sempre muito presente em manifestações e que não quer se acomodar com a velha política que se consolidou na história do Brasil”.

Entretanto, ele avalia que a geração atual, devido às novas tecnologias, possui um contato bem maior com os problemas da sociedade, chegando às vezes a receber uma sobrecarga de informações. “Só que muitos, através de soluções mais simples para problemas complexos, apontam soluções baseadas no extremismo ideológico, o que é muito ruim”.

Vítor opina que a tendência, com o passar da idade, é o comodismo com os problemas da cidade e do país. “Acredito ser essencial a ousadia dos jovens para o debate. Os atuais representantes não devem tentar restringir, mas sempre facilitar o aproveitamento das ideias e propostas da juventude, dando liberdade para o jovem criticar e se manifestar sobre suas propostas para a sociedade”.

Amanda Pinho tem 22 anos e está no sexto semestre do curso de Arquitetura de uma faculdade particular. Ela ressalta a importância do voto, que dá a chance de o cidadão interferir no futuro da sua cidade e do seu país. “Apesar de ser apenas um voto, meu voto vale como outro qualquer e, no final, todos juntos farão diferença”.

Ela defende que os jovens olhem com mais atenção os candidatos. “É triste ouvir de um jovem dizer que não gosta de discutir política, uma coisa que se debate e se vive todos os dias, ao sair de casa, ao tentar entrar no mercado de trabalho, ao utilizar o transporte público. O jovem precisa estar mais atento e compreender seu peso numa eleição. É fundamental usufruir de todos os meios de informação e, com sensatez, eleger quem realize seus anseios para a cidade em que você mora, faz parte e usufrui”.

ESPAÇO

O professor de inglês Rhuan Fernandes, 27, acredita que os jovens da sua faixa etária não se sentem representados na cena política. “A gente precisa ter mais espaço para participação e debates”. E o que cidadãos até 29 anos querem, diz o professor, “é oportunidade de emprego; melhoria na saúde, educação de qualidade, mas o que temos de contrapartida é o aumento da marginalidade e da violência”.

A prioridade para a classe política, diz Rhuan, deveria ser a educação. “É o início de tudo. Um jovem educado e acompanhado pela família não se perderá para as drogas, não será marginalizado...E isso tudo terá um reflexo no futuro do nosso país”. Para ele os jovens devem sempre sonhar num país melhor, com oportunidades para todos. “Somos um país rico em tudo, mas precisamos distribuir a renda e os alimentos corretamente, para que a gente não tenha um Brasil com distorções, quebrado, violento e tomado pela corrupção como vemos hoje em dia”.

O estudante de jornalismo Juan Pablo Barros Pereira, 18, opina que não há candidatos que façam os jovens se sentirem representados, principalmente os mais marginalizados. “A cada período eleitoral, há mais do mesmo. Mulheres, LGBTQIA+, negros e moradores de periferia precisam de pautas que sejam voltadas a eles com equidade. Não vejo uma alternativa que olhe para esses esquecidos”, critica.

Segundo ele, a tendência é que a população mais jovem cresça na exclusão, já que pautas básicas como educação e saúde são precárias. “Os candidatos sempre vêm com o mesmo discurso, na base da segurança pública, que se torna uma solução pela falta de outras pautas. Não há ninguém, hoje, na política, que seja o porta-voz da verdade que o jovem necessita”.

POLARIZAÇÃO

O cientista social Jefferson Alves Teixeira analisa que a polarização existente nos dias atuais, entre esquerda e direita, contribuiu para que os jovens manifestem suas visões de mundo sobre a política. “Essa polarização teria muito para contribuir com a formação de uma consciência política da juventude. Infelizmente, vemos um movimento contrário, onde muitos jovens apenas reproduzem o radicalismo de determinados segmentos e instituições políticas”, lamenta.

Alves pondera que os jovens, em sua maioria, esperam que os eleitos cumpram o que assumiram durante a campanha envolvendo questões básicas como saúde, educação, segurança, saneamento básico, asfaltamento da rua onde mora e, principalmente, que sejam honestos no gerenciamento do dinheiro público.

Em eleições municipais são justamente os mais jovens que acompanham os candidatos em suas caminhadas e comícios. “Isso nos dá uma parâmetro do quanto esses jovens participam ativamente do processo eleitoral, não apenas votando, mas contribuindo para a campanha dos que concorrem”, diz, lembrando que “nas cidades são justamente os mais jovens que sentem em seu cotidiano as respostas efetivas ou a omissão dos governantes sobre as demandas que estão postas em sua rua, em seu bairro, em sua escola, em seu município como um todo”.

FAIXA ETÁRIA

eleitorado paraense (%)

100 anos ou mais -3.738 (0,06%)

95 a 99 anos- 13.386 (0,23%)

90 a 94 anos- 23.458 (0,41%)

85 a 89 anos- 37.821 (0,66%)

80 a 84 anos- 67.523 (1,17%)

75 a 79 anos- 103.769 (1,80%)

70 a 74 anos- 154.887 (2,69%)

65 a 69 anos -220.222 (3,82%)

60 a 64 anos -284.077 (4,93%)

55 a 59 anos- 343.666 (5,97%)

50 a 54 anos -417.762 (7,26%)

45 a 49 anos -483.047 (8,39%)

40 a 44 anos- 580.512 (10,08%)

35 a 39 anos -663.768 (11,53%)

30 a 34 anos- 667.569 (11,59%)

25 a 29 anos -697.845 (12,12%)

21 a 24 anos- 585.625 (10,17%)

20 anos -138.333 (2,40%)

19 anos -119.304( 2,07%)

18 anos -90.225 (1,57%)

17 anos- 50.341 (0,87%)

16 anos - 11.148 (0,19%)

Total de eleitores na faixa etária de 16 a 29 anos: 1.692.821 (29,39%)

Fonte: Justiça Eleitoral

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