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PREJUÍZO

Indefinição sobre o Círio de Nazaré afeta economia paraense

domingo, 02/08/2020, 08:32 - Atualizado em 02/08/2020, 08:35 - Autor: Luiz Flávio/Diário do Pará


O Círio chega a reunir dois milhões de fiéis na procissão de domingo, algo inimaginável com a pandemia.
O Círio chega a reunir dois milhões de fiéis na procissão de domingo, algo inimaginável com a pandemia. | Fernando Araújo/Diário do Pará

Os impactos devastadores da pandemia do novo Coronavírus não se refletiram apenas na saúde, economia, política e educação, mas também na religião. A quarentena forçada e o distanciamento social obrigatório cancelaram ou adiaram várias manifestações religiosas pelo país.

E o Círio de Nossa Senhora de Nazaré não ficará de fora. A menos de 3 meses da procissão do segundo domingo de outubro, a indefinição sobre a realização ou não da maior procissão mariana do mundo, que reúne cerca de 2 milhões de pessoas nas ruas de Belém, causa aflição e expectativas na igreja e em fiéis daqui e de fora.

A situação está sendo encarada como um golpe de misericórdia na economia que gira em torno das manifestações do Círio e que movimenta milhões de reais no período. Os setores de comércio e serviços já trabalham com o cancelamento da festa e já contabilizam o prejuízo.

Em termos econômicos os números são grandiosos: entre o início e o final do mês de outubro do ano passado, o Círio movimentou R$ 1 bilhão na cidade segundo cálculos do Dieese-PA. Em números absolutos, a festa inteira, segundo o departamento, custou R$ 4 milhões à organização. O turismo registrou alta de 3,3% em relação ao Círio de 2018, trazendo para Belém 83 mil visitantes que gastaram algo em torno de US$ 30 milhões ou R$ 165 milhões em valores atuais.

A Diretoria da Festa e a arquidiocese de Belém vêm debatendo o assunto há meses e informaram que só divulgarão um posicionamento após a manifestação oficial do Arcebispo de Belém, D. Alberto Taveira, que deverá ocorrer após parecer técnico-científico da Comissão Especial de Análise da Pandemia da Covid-19, criada para orientar a decisão sobre a realização ou não do Círio 2020. Esse posicionamento deveria ter sido divulgado no último dia 25, mas foi adiado para o dia 6 de agosto, conforme divulgou a assessoria de comunicação da Festa de Nazaré.

Rose Mary Larrat, presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens seção Pará (ABAV-PA) reconhece que questionar a realização de uma manifestação religiosa como o Círio em meio a uma pandemia é algo fora do contexto. “É uma questão de saúde pública. Ponto final. Não há como fazer uma aglomeração desse tipo, apesar das mortes e contaminações virem reduzindo”, coloca.

A grande verdade, segundo ela, é que não há como saber hoje como a situação estará daqui a 2, 3 meses. “As companhias aéreas todos os meses informam que vão retomar as atividades, mas isso nunca ocorre porque a situação muda a todo instante. E continuamos na mesma situação porque os hotéis, as companhias aéreas, os navios são o nosso produto de trabalho e está tudo parado”, lamenta.

Rose ironiza e afirma que o setor no Estado está “há 4 meses sem vender nenhum bombom...”. Segundo ela, o movimento caiu em 100% e todas as agências fecharam as portas. “O Círio é um produto consolidado e a não realização da festa mexe muito com o serviço de receptivo na cidade. Será mais um baque”.

A ABAV nacional vem fazendo lives com a participação do setor hoteleiro, incentivando viagens, mostrando e divulgando destinos. “O que podemos fazer nesse momento é fomentar o desejo do nosso cliente em retomar a sua rotina para que num futuro possamos voltar às nossas atividades. A Abav, em parceria com o Sebrae, está fazendo um estudo para medir o impacto da Covid-19 nas agências de viagem que deve ser divulgado nas próximas semanas”, revela.

PERDAS

Até o mês de junho o prejuízo do setor de hotéis, bares e restaurantes, nacionalmente, em razão da pandemia, já chegava a R$ 33 bi, montante que pode chegar a R$ 130 bi até o final desse ano, caso o cenário atual permaneça.

“Não temos números fechados do Pará por causa da dificuldade em nos comunicarmos com os estabelecimentos pelo interior, mas avaliamos que o prejuízo aqui possa chegar a R$ 5 bi durante o ano de 2020, com perda ou suspensão de 30 mil a 40 mil postos de trabalho”, calcula Fernando Soares, advogado do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares do Estado do Pará.

Segundo Soares, o setor já trabalhava com a possibilidade da não realização do Círio nos moldes atuais desde o começo da pandemia. “É inimaginável você levar 2 milhões de pessoas para as ruas numa procissão como a do Círio e outras centenas de milhares nas 13 procissões da festa. É totalmente fora de cogitação. Nem o poder público nem a igreja vão se arriscar a esse ponto”, avalia.

Soares lembra que a redenção do setor no segundo semestre sempre foi o Círio e a suspensão da festividade cai como uma bomba para os empresários. O prejuízo, que já é grande, se tornará monstruoso.

“A perda do turismo interno e externo nessa época que movimentava a cidade e aumentava muito o faturamento nessa época será desastrosa. O faturamento nessa época segurava as contas sempre por vários meses, até o início do ano seguinte. Muitos vão fechar as portas definitivamente. A única solução para o setor é uma vacina que ainda não há prazo para surgir. Nunca vivemos esse tipo de situação”, lamenta.

EM 1918

Procissão nas ruas até durante a gripe espanhola

OUTRA PANDEMIA

Em 2018 o pesquisador José Maria de Castro Abreu Junior apresentou ao Programa de Pós-Graduação em História Social da Amazônia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Pará (UFPA) a tese “O vírus e a cidade - Rastros da gripe espanhola no cotidiano da cidade de Belém (1918)”, para obtenção do título de Doutor em História Social.

Através de jornais, relatórios oficiais e de memorialistas e documentos médicos, a tese analisa o cotidiano da capital paraense durante a passagem da pandemia de gripe espanhola (Influenza) que atingiu a capital paraense entre outubro e dezembro de 1918 que, “além de morte e medo trouxe uma mudança na rotina da cidade”.

O capítulo III da tese trata sobre “Práticas culturais e estratégias no enfrentamento da epidemia e traz informações de como ficaram os rituais religiosos com a pandemia da gripe.

Segundo a tese, a pandemia iniciou nos primeiros dias de outubro, mas “não chegou a impedir a tradicional procissão do Círio de Nazaré, que naquele ano reuniu estimadamente 50 mil pessoas”.

José Maria afirma apesar da procissão ser considerada uma fonte de aglomeração e disseminação da infecção, a imprensa na época nem cogitou a hipótese de adiar a procissão, a qual ocorreu normalmente no segundo domingo de outubro.

“A única ressalva, do ponto de vista profilático, foi de que, na véspera, os bombeiros jogaram água no trajeto para que ‘as partículas” não ficassem flutuando, atitude bem de acordo com uma das teorias vigentes na época para explicar o contágio de diversas moléstias”.

Ele relata ainda que “tudo transcorria dentro de uma certa normalidade, até que as muito frequentadas barracas do arraial, pontos de venda de bebida e comidas típicas, começaram a fechar por falta de pessoal para ali trabalhar, pois muitos começaram a adoecer”.

Não havendo alternativa, “o tradicional arraial de Nazaré culminou com as suas atividades paralisadas, sendo estas retomadas somente em fins de dezembro, quando a epidemia já era declarada extinta. A expansão dos casos de Influenza pela cidade já era um fato mais do que concreto”.

Devotos demonstram tristeza, mas pregam que haja bom senso

Apesar da tristeza com a perspectiva da não realização da festa, os fiéis mostram cautela e, acima de tudo, bom senso. O DIÁRIO esteve na Basílica Santuário e o sentimento nos devotos é um só: a procissão deve ser suspensa para }evitar um mal maior.

O servidor público Fábio Assis, 46, diz que, como bom paraense, sempre celebrou o domingo do Círio, reunindo a família no domingo da procissão, mas apela para o bom senso dos fiéis que, assim como ele, vão se resguardar esse ano. “Por tudo que vivemos no primeiro semestre desse ano, o mais sensato seria suspender sim o Círio e as demais procissões. A pandemia ainda não está estabilizada, pessoas continuam morrendo e não há como aglomerar uma quantidade tão grande de pessoas durante toda a quadra nazarena. O risco éimenso”, pondera.

O pintor Ronaldo Borges Trindade, 40, compartilha da mesma opinião. Segundo ele, cancelar a procissão e toda as manifestações que envolvem a quadra nazarena é muito triste, mas ele diz que a vida da população vem em primeiro lugar. “Concordo que não ocorra o Círio esse ano, mas apenas por causa dessa pandemia que já vitimou muita gente. Não podemos correr esse risco. Vamos deixar para o outro ano. É melhor. Nossa vidavale mais”, avalia.

NEGACIONISMO

A pedagoga Dayse Mendes Jaccoud, 70, diz que caso o Círio seja cancelado, será a decisão mais acertada que será tomada. “Infelizmente muitas pessoas continuam incrédulas diante da pandemia e com uma atitude negacionista. Isso fez com que a contaminação e as mortes crescessem.

Se for o caso, ela sugere fazer uma procissão com a santa isolada num carro passando nas principais ruas da cidade, abençoando as famílias. “O que mais importa é a fé. Estando em casa ou andando nas ruas, o que vale é o que sentimos e desejamos. A virgem sabe disso”, pondera.

A expectativa agora fica para o anúncio do próximo dia 6, para finalmente se saber como será realizado o Círio de Nazaré.

Diário do Pará
 



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