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CUIDADOS

Conheça um pouco da rotina dos profissionais que atuam em ambulâncias

domingo, 21/06/2020, 10:14 - Atualizado em 21/06/2020, 10:14 - Autor: Cintia Magno


Profissionais de saúde cumprem rígidos protocolos para reduzir o risco de contágio
Profissionais de saúde cumprem rígidos protocolos para reduzir o risco de contágio | Irene Almeida

No momento em que a central de regulação avisa sobre uma nova ocorrência, a preparação repleta de novos protocolos se inicia. Ainda no ponto de partida das ambulâncias que realizam o atendimento e a transferência de pacientes, a equipe formada por médico, enfermeiro e condutor rapidamente se dirige até o local onde ocorre a paramentação necessária para reduzir ao mínimo o risco de contágio pelo novo coronavírus.

Por cima do macacão normalmente utilizado, outro feito em material impermeável é vestido. Sobre o solado das botas emborrachadas, vão protetores que evitam o contato direto do calçado com o chão. Uma touca feita do mesmo material é colocada sobre os cabelos e, por cima dela, o capuz do macacão, deixando aparente apenas a parte central da face. Máscara, óculos e uma proteção em acrílico que encobre todo o rosto também são necessários.

Irene Almeida
 

Veja um pouco da rotina dos profissionais que atuam em ambulâncias, com toda a paramentação necessária para reduzir ao mínimo o risco de contágio pelo novo coronavírus
Veja um pouco da rotina dos profissionais que atuam em ambulâncias, com toda a paramentação necessária para reduzir ao mínimo o risco de contágio pelo novo coronavírus Irene Almeida
 

Nas mãos, a primeira luva vestida é encoberta pela manga do macacão, está presa através de um pequeno orifício ao polegar. Por cima, uma nova luva é colocada. Em se tratando do condutor da ambulância, mais duas luvas são acrescidas, uma por cima das outras, para que o profissional possa ir descartando-as a cada novo manuseio de maçanetas e portas.

Cumpridos todos os itens, um quarto profissional fica responsável por verificar cada detalhe da paramentação. Sobe o zíper do macacão até o limite, já na altura do pescoço dos colegas, encobre o fecho com uma tira de velcro, confirma o ajuste da proteção facial e se certifica da cobertura total das mãos. Liberada, a equipe entra na ambulância e segue para o atendimento. “Não pode haver erro”, destaca o médico coordenador da Unimed Urgente, José Guataçara.

ROTINA

Desde meados de março deste ano, quando a pandemia do novo coronavírus chegou ao Pará, essa tem sido a rotina vivenciada pelas equipes que atuam nos atendimentos de urgência nas ambulâncias da cooperativa médica. Diante do alto risco de contágio proporcionado pelo novo coronavírus, todo o procedimento é repetido a cada nova chamada, independentemente da causa do atendimento.

"O poder de resolução dos hospitais aumentou, mas o que nos preocupa agora é o comportamento da população, as pessoas saindo nas suas sem máscara”, José Guataçara, médico
"O poder de resolução dos hospitais aumentou, mas o que nos preocupa agora é o comportamento da população, as pessoas saindo nas suas sem máscara”, José Guataçara, médico Irene Almeida
 

“A equipe não tem como saber exatamente em que situação está o paciente que vai atender. O chamado pode ter sido por uma dor no peito, mas aquele paciente pode estar positivado para o coronavírus sem saber, então a equipe já tem que ir toda preparada”, considera Guataçara. “Ninguém no mundo todo estava preparado para o que estamos passando, então tivemos que nos adequar”.

A necessidade de adequação à nova realidade imposta pela pandemia se deu em meio ao momento mais crítico da doença na Região Metropolitana de Belém (RMB). Em meados de março e início de abril, Guataçara conta que a demanda de atendimento nas ambulâncias da cooperativa médica chegou a aumentar em mais de 100%. Atualmente o clima um pouco mais ameno encontrado na base de saída das ambulâncias é reflexo do maior controle da doença na grande Belém, mas o momento em nada sinaliza o relaxamento das medidas de segurança, tanto por parte dos serviços de saúde, quanto da própria população.

“Não dá para acreditar que as pessoas ainda não estão levando a sério a coisa. O poder de resolução dos hospitais aumentou, mas o que nos preocupa agora é o comportamento da população, as pessoas saindo nas suas sem máscara”, aponta José Guataçara. “A situação só vai melhorar verdadeiramente com a vacina. Até lá, qualquer um está suscetível a pegar”.

Para quem, muitas vezes, é o primeiro contato do paciente com o sistema de saúde, a realidade vivenciada nas ambulâncias também deixa o alerta. Médico cardiologista da unidade coronariana, ambulância que também atua como UTI móvel, Henrique Custódio da Silva, 55, conta que em 30 anos de profissão ainda não havia enfrentado uma situação de pandemia como a que vem sendo provocada pelo coronavírus.

“A realidade que a gente observou é de muito sofrimento de pacientes que atendemos, principalmente pela falta de ar”, considera. “Disso, o que fica para passar para a sociedade é o alerta de que ainda não acabou. Temos que manter todos os cuidados porque a virulência – a capacidade de contaminação causada pelo vírus - dessa doença é muito grande”.

Henrique Custódio
Henrique Custódio Irene Almeida
 

O grande poder de disseminação ressaltado por Henrique pode ser constatado não somente nos atendimentos, mas na experiência vivenciada por ele próprio. Mesmo com os protocolos de segurança seguidos à risca, ele conta que foi acometido pela Covid-19, apresentando sintomas leves. Recuperado, ele já está de volta aos atendimentos de emergência. “Estou há três meses sem ver meus pais, que têm 81 e 82 anos de idade. Vejo eles apenas de longe, pelo celular”, conta. “A esperança é a vacina”.

TEMPO

15 minutos - É o tempo médio que leva a paramentação da equipe até que esteja pronta para subir na ambulância e seguir o caminho traçado pela central.

Protocolos continuam após atendimento

Na volta do atendimento demandado, o retorno da ambulância para a base dá início a uma rotina de cuidados redobrados. Com a equipe ainda toda paramentada, o veículo segue para a área de desinfecção. A partir de uma substância própria, todo o interior da ambulância é esterilizado, e não apenas ela.

Para que possa retirar os Equipamentos de Proteção Individual (EPI) com segurança, a equipe que retorna do atendimento é aguardada por outro grupo de profissionais, responsáveis por fazer a higienização e retirada de cada um dos itens vestidos.

Edinaldo Francisco da Silva
Edinaldo Francisco da Silva Irene Almeida
 

“A meta é reduzir a praticamente zero o risco de contaminação. Por isso tem uma pessoa apenas para desparamentar a equipe”, aponta o condutor de ambulâncias que integrou a equipe que estudou e planejou os protocolos, Edinaldo Francisco da Silva, 38 anos. “Depois da desparamentação completa, o material retirado é encaminhado para a empresa que realiza a incineração e a equipe segue para a higienização pessoal”.

Apenas após todo o processo de retirada dos equipamentos e do banho, a equipe está pronta para atender a uma nova chamada, retomando todo o procedimento de vestimenta dos novos EPIs. Durante o período de demandas mais intensas em decorrência do coronavírus, uma única equipe de urgência que atua no atendimento nas ambulâncias da cooperativa chegava a fazer de 4 a 5 atendimentos em uma manhã, cada uma delas tendo que atender a todo o ciclo de preparação.

“Eu sei que estou no lugar certo”, diz enfermeiro Marcelo Quaresma

Para dar o suporte necessário aos pacientes que dependem do trabalho dos profissionais de saúde, o condutor de ambulâncias Marcelino Silva, 42, também precisou se manter distante de pessoas que ama. Durante o período mais crítico da pandemia, chegou a ficar 25 dias longe da filha, mantendo contato por vídeochamada. Ele acredita que, se não atuasse na linha de frente do atendimento aos pacientes, jamais teria a real noção da gravidade que a Covid-19 pode representar à saúde.

Marcelo Quaresma
Marcelo Quaresma Irene Almeida
 

“Cada ocorrência é uma experiência diferente porque cada paciente é único. Há situações em que a gente chega a se emocionar com a situação do paciente. Pessoas saudáveis e que, de um dia para o outro, tem uma piora grande”, relata. “Acredito que a maioria das pessoas, as pessoas que ainda não pegaram, não têm noção da gravidade dessa doença”.

Ainda que a atuação na linha de frente do atendimento aos pacientes ofereça uma maior exposição, o enfermeiro Marcelo Quaresma, 36, não tem dúvidas de onde gostaria de estar neste momento em que o mundo necessita tanto do conhecimento e preparo dos profissionais de saúde.

“São 12 anos de profissão e nunca passei por uma situação dessa. É uma experiência ímpar mesmo, em que a gente tem que buscar forças tanto no que se refere ao lado profissional, quanto pessoal e emocional”, considera. “Mas a motivação profissional de atuar no cuidado com as pessoas é muito maior. A gente se pega tanto nas habilidades e competências que nos preparamos para ter, mas também na proteção divina para que possamos atuar da melhor maneira possível, salvando vidas. Eu sei que estou no lugar certo”.

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