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Paraense que vive em Portugal explica plano do país para voltar 'ao normal'

sexta-feira, 15/05/2020, 10:58 - Atualizado em 15/05/2020, 12:36 - Autor: Andreza Alves (especial para o DOL)


| Divulgação

Na última semana, Portugal amanheceu diferente e com sentimento parcial de liberdade, após um confinamento que iniciou em 13 de março e durou até 3 de maio. O país decidiu finalizar o estado de emergência e entrar em situação de calamidade pública.

Os portugueses e moradores do território podem sair de casa, mas com muitos cuidados e restrições. No dia 31 de abril, o Estado português apresentou um plano de desconfinamento, válido a partir de 4 maio. Esse planejamento pode ser revisto e alterado a cada 15 dias. A proposta possui a função de combater a pandemia da Covid-19. Para o Governo, "a declaração da situação de calamidade visa reconhecer a necessidade de adotar medidas de caráter excepcional destinadas a prevenir, reagir ou repor a normalidade das condições de vida".

Os mercados estão disponibilizando máscaras e gel desinfetante, além de garantir a higienização regular dos espaços, a redução da lotação máxima, a higiene das mãos, etiqueta respiratória e um distanciamento físico de dois metros.A medida é uma flexibilização para as atividades cotidianas. No entanto, durante o estado de calamidade, algumas regras continuarão em vigor:

- Confinamento obrigatório para pessoas doentes e vigilância ativa;

- Cumprimento do dever cívico do recolhimento domiciliário;

- Proibição de eventos com mais de 10 pessoas;

- Funerais acontecerão somente com presença de familiares.

Veja o plano na íntegra:

Governo de Portugal
 

Ao contrário do Brasil, que não possui um planejamento claro e eficaz no combate ao novo coronavírus, o desconfinamento em território português será dividido em 3 fases:

Na primeira etapa (desde 4 de maio), foram abertos comércios locais com área de até 200m², livraria e comércio automóvel, serviços de higiene pessoal (cabeleireiros, barbeiros, manicures, pedicures e similares) somente por marcação prévia. Já estão abertos também bibliotecas e arquivos, permitidas as práticas de esportes individuais ao ar livre, praias e o mar para esportes náuticos. Os transportes públicos podem ser utilizados com lotação máxima em 2/3 da sua capacidade e os trabalhos home office permanecem, desde que as funções o permitam.

Já em um segundo momento (a partir de 18 de maio), é possível ir até lojas com área máxima de 400m² ou partes de lojas com até 400m², museus, monumentos, palácios, galerias de arte e salas de exposições. Os alunos de 2° e 3° anos, creches e equipamentos sociais na área da deficiência retornam. Quem quiser ir, vai poder frequentar restaurantes, cafés e padarias, com lotação a 50%. Portugal é o primeiro país entre Itália, Espanha e França a permitir essa opção.

Na terceira e última fase, no dia 1 de junho, os cidadãos poderão frequentar lojas com áreas superiores a 400m², cinemas, teatro, salas de espetáculos, auditórios (com lugares marcados), reabertura de serviços públicos e home office parcial. Visivelmente, os portugueses respeitaram de forma responsável o confinamento, sobretudo, por ser uma sociedade com grande quantidade de cidadãos idosos e fumantes (categorizados como grupos de risco).

O Estado e a sociedade não hesitaram em paralisar todas as atividades, exceto supermercados, postos de gasolina, farmácias e hospitais, para que não ocorressem tamanhas fatalidades como nos países vizinhos como Espanha e Itália, inclusive, bloqueando fronteiras com esses territórios. O objetivo principal e lema consideravelmente nacionalista durante o estado de emergência foi: “Temos de ficar em casa para salvar Portugal”. Bem diferente do preconizado pelo Governo Federal no Brasil, não é mesmo?!

No entanto, para que a normalidade seja conquistada, é necessário que o dever cívico seja consciente e executado, para que assim, todos os âmbitos da sociedade alcancem um equilíbrio, uma parcial normalidade. Por outro lado, muitos são os questionamentos do que virá a partir do confinamento: é possível se infectar mais de uma vez com a doença? Essa medida é precipitada? Economia vale mais do que poupar vidas? Algumas perguntas seguem sem respostas, por isso, somente o tempo e os próximos acontecimentos dirão.

O mal e as mudanças estão em todo lado

Um triste fenômeno comum entre Brasil e Portugal é a subnotificação. O termo, reforçado com a expansão do coronavírus, remete à prática de notificar menos do que seria esperado ou devido.

Em terras lusitanas, por exemplo, vivem e passeavam diversos imigrantes que não realizaram o teste, seja por ilegalidade, informalidade trabalhista ou pelo medo de serem menosprezados pela xenofobia, que é sentimento marcante dessa cultura, comprovado pelos acampamentos de brasileiros nas portas de aeroportos, em tempos de pandemia.

O desemprego e a redução dos salários também foi uma atitude aplicadas nos dois territórios. No entanto, durante esse tempo de crise, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) de Portugal disponibiliza a autorização de residência temporária, a medida é um dever da sociedade solidária em tempos difíceis.

Várias partes do mundo e áreas de atuação se viram adaptando-se e aprendendo conhecimentos completamente distantes e novos para viver com o confinamento e instabilidade que a doença causou ao mundo. Desde educadores que precisaram aderir às novas Tecnologias da Comunicação e Informação para propagar conhecimento, até autoridades e sociedades, inicialmente, pareciam resistentes e indiferentes com o impacto da pandemia, por acreditarem que era uma realidade distante ou um mal que atingiria somente grupos de risco, sobretudo, os idosos. Ledo engano.

Arnaldo Augusto, profissional de estúdio de TV, foi diagnosticado com coronavírus em Belém do Pará e internado por 16 dias. Fora do grupo de risco, os primeiros sintomas que ele sentiu foi febre e cansaço. Apesar de agora se sentir bem fisicamente, sente-se como a maioria das pessoas em algum dos momentos nesses tempos de pandemia: ansioso para sair. No caso dele, ainda tem o bônus: o que as pessoas vão falar e perguntar, justamente por ser um sobrevivente.

Na opinião do paraense, após sobreviver a doença e ter um excelente atendimento em um hospital privado da capital, é necessário que o Brasil tenha maior comprometimento com a saúde e o valor dos cidadãos brasileiros. Ele completa: "lockdown é necessário, pois existem muitas pessoas que ainda não tem ou não querem ter noção da força dessa doença".

Para Arnaldo, o lockdown é uma medida fundamental para evitar maior contaminação por coronavírus
Para Arnaldo, o lockdown é uma medida fundamental para evitar maior contaminação por coronavírus Arquivo pessoal
 

Sabe-se que o isolamento social é o privilégio de alguns, no Brasil, em Portugal e outras partes do mundo. Embora o território português seja considerado um caso de sucesso no tratamento de coronavírus. Estar em casa, em qualquer parte do mundo, é um privilégio. Percebo que em Portugal, muitos trabalhadores não puderam parar suas atividades. A pandemia, a nível Brasil, veio reforçar que os direitos sociais do Brasil não são realmente visados, tais como: direito à saúde, educação e moradia.

É complicado comparar as medidas adotadas por Brasil e Portugal, afinal, estamos falando de países que são muito diferentes e diversos em leis e cultura. No entanto, uma medida que poderia ser adotada por ambos é: isento de água, energia, assim, já ajudaria vários trabalhadores e famílias.

As flores da primavera podem ser menos coloridas, ainda mais em tempos de coronavírus. O confinamento ao espaço privado pode aumentar um mal que assola a sociedade há séculos: o feminicídio. Também em Portugal, essa violência é uma das mais expressivas no país. Para muitas meninas ou raparigas, viver com os seus opressores tem sido o pior dos males.

O cinismo, a chamada falta de fé para alguns, a indiferença e o “e daí?” continuam sendo um dos principais vírus que os cidadãos em todos os sistemas políticos ainda precisam combater, fatalidades que os ditos privilegiados e elitistas (verdadeiros ou imaginários) talvez não percebam. A dura realidade é que os impactos sociais, econômicos e psicológicos dessa pandemia são irreparáveis e necessários de longa e árdua atenção e vigilância. Há quem ouvindo e se sensibilizando, há quem aprenda somente quando vive ou vê.

Texto especial para o DOL de Andreza Alves, que é paraense, jornalista e cursa o Mestrado em Ciências da Comunicação na Universidade do Minho, em Braga, Portugal.

Edição de Enderson Oliveira, um dos coordenadores de conteúdo no DOL.

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