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PERSONAGENS DE BELÉM

Conheça a história de Manoel Melo, o "Toquinho" da avenida Presidente Vargas

segunda-feira, 13/01/2020, 12:45 - Atualizado em 13/01/2020, 12:44 - Autor: Ronald Sales


Quem tem lá seus trinta e poucos anos é capaz de lembrar do Manezinho, Gnomo, Toco, Toquinho... Tantos apelidos ele recebia de quem passava curioso ou com o olhar de pena, mas ele queria mesmo era ser reconhecido como “Boneco fofinho”. Manoel de Souza Melo era o nome real desse que foi um dos personagens mais icônicos da cultura urbana de Belém do Pará que completou 404 anos no último domingo (12). Nascido sem pernas e braços, resultado de uma má formação congênita, pouca gente conhece a história deste paraense marcante que até onde se tem informação faleceu cerca de pouco mais de uma década. 

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Manoel na avenida Presidente Vargas no final da década de 90. Um dos seus últimos registros em vida. Foto: Oswaldo Forte

Manoel era um sujeito que é descrito com temperamentos diferentes por quem já teve algum tipo de relação com o pedinte mais famoso da capital paraense. Alguns diziam que ele era mal-humorado, outros que tinha um comportamento amigável. Tinha até quem garantia que ele só ficava chateado quando recebia algum tipo de “carão” ou tropeçada, que considerava proposital e desrespeitosa. 

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Manoel na avenida Presidente Vargas, em 1974  - Frame do curta metragem Museu Goeldi (1974) 

Nascido em Bragança, nordeste paraense, Manoel sempre atraiu olhares curiosos de quem passava pela avenida Presidente Vargas, na esquina com a rua Riachuelo entre as décadas de 70 e 90. Sem os braços e as pernas, Manoel recebia o agrado financeiro e amarrava (de maneira acrobática) o dinheiro no toco dos seus membros superiores. Cédulas presas com elásticos que já eram consideradas a sua marca registrada. 

Em uma reportagem do DIÁRIO DO PARÁ de 26 de dezembro de 1999, Manoel falou sobre valorização da vida, desabafou sobre a política nacional chefiada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, sua fama de mulherengo e de família. Relembre: 

"Já vi muita gente saltar desses prédios em volta para a morte. Eu, que nasci assim, sem pernas e sem mãos não sei o que é tristeza na vida." E com a experiência de quem vive de pedir esmolas há 33 anos no mesmo local, na avenida Presidente Vargas esquina da Riachuelo, de segunda a sábado, num expediente que vai das oito da manhā as sete da noite, que Manuel de Souza Melo, um bragantino de 56 anos (a serem completados na véspera do Ano-Novo), se diz um homem feliz Casado, pai de seis filhos ("a maioria das pessoas não acredita"), Manezinho, ou "boneco fofinho" ("pode pôr aí, è assim que o pessoal me chama por aqui"), é, certamente, uma das caras de Belém. E difícil encontrar quem não tenha topado com ele (e "topar" no sentido de tropeçar ou esbarrar). Ele parece surgir da calçada, fazer parte dela, como um gnomo faz parte do jardim de uma casa. O Manezinho só tem queixa de Fernando Henrique Cardoso, "o pior governo que eu já vi". Antes, diz, nessa época natalina, havia pessoas que desciam do carro para lhe dar presentes, dinheiro, até relógio. "Agora só tem gente dizendo que está desempregada, ou então com muitas dívidas para pagar." Este ano, de Natal, só as castanhas e as frutas que uma moradora de um prédio em frente Ihe deu. Os tempos, antes, eram mais tranquilos, garante, "sem essa pivetada toda de agora". Manezinho não pode sequer arriscar colocar um boné novo que logo lhe surrupiam. A exemplo de Dita, que amarra a bolsa no banco, "boneco fofinho" reúne as notas de 1 real que recebe sob uma liga que envolve seu toco de braço. Para evitar o acúmulo e a cobiça da malandragem da área, o porteiro do prédio defronte Ihe serve de "banco", onde vai depositando os trocados apurados. Diz não fazer a menor ideia de quanto fatura por dia ou por mês. "Não gosto de conferir dinheiro", afirma. Durante o "expediente", pausa só para o almoço, que uma das filhas Ihe traz de casa. Terminado o dia, um taxista amigo o leva para casa, o preço combinado para pagamento mensal com um bom desconto. De qualquer maneira, esses 33 anos como pedinte ("eu jamais peço, as pessoas é que passam e me dão") Ihe garantiram casa própria, no Guamá, "de madeira" que divide com a mulher, Graça, de 44 anos, e os filhos. Como deficiente físico, recebe ainda pensão de um salário mínimo. Dizem, quem o conhece há mais tempo, que Manezinho é mulherengo e bom de copo. Ele nega: "tomo só um conhaque com leite, às vezes, para combater a gripe". Quanto às mulheres, diz que as respeita, ainda mais quando acompanhadas. Se o Natal é passado com a mulher e os filhos, o Ano novo está reservado para a mãe, d. Coló, que vai fazer 99 anos. Como d. Coló mora em Bragança, depois de amanhã Manezinho segue para a cidade em que nasceu. Volta só em janeiro, com o ânimo de sempre, ao duro expediente na calçada, faça sol, faça chuva."

E você? Conhece ou já teve alguma história curiosa com o Toquinho da Presidente Vargas? Deixa um comentário e conta pra gente!

 

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