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Data chama atenção para completa inclusão dos autistas

domingo, 31/03/2019, 06:49 - Atualizado em 31/03/2019, 09:05 - Autor:


O Dia Mundial de Conscientização do Autismo, realizado neste dia 2 de abril, foi criado em 2007 com o objetivo de informar sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e, consequentemente, contribuir para o combate ao preconceito. Passados doze anos, o transtorno do desenvolvimento já é muito mais debatido, porém, a dificuldade de acesso ao acompanhamento adequado e o preconceito ainda são uma realidade.


Desde que foi diagnosticada com um grau leve de autismo, aos 4 anos de idade, Maria de Lourdes Sampaio dos Santos foi acompanhada por uma equipe multiprofissional que colaborou para que ela pudesse desenvolver as suas potencialidades. Hoje, com 22 anos, a jovem cursa o 7º semestre do curso de serviço social e, há uma semana, estagia na área na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae). 


“Eu trabalho acompanhando o acolhimento nos atendimentos”, conta, animada com a nova experiência. “Já atendemos pessoas com autismo e achei bem bacana. Elas se identificam”. O desempenho apresentado por Maria de Lourdes já rende elogios mesmo na primeira semana de estágio, o que enche de orgulho toda a família. 


Para a universitária, a mensagem que fica é a da necessidade de a sociedade acreditar mais no potencial dos autistas. “Eu diria para quem ainda acha que a pessoa com autismo não é capaz, que tenha paciência para lidar com as pessoas com autismo, que não tenha preconceito”.


Acompanhando cada passo do desenvolvimento da filha mais velha, a biomédica Andrea Santos, 43, não tem dúvidas de que o acompanhamento multiprofissional recebido por Maria de Lourdes desde os primeiros anos de vida foi fundamental. “Ela começou o acompanhamento muito cedo e hoje chegou à universidade”, diz. “Ela passou em 5 faculdades”, recorda, orgulhosa. “É gratificante ver que toda a nossa luta pela inclusão e o fato de sempre termos acreditado nela valeu a pena”.


O que Andrea lamenta, entretanto, é o fato do acesso ao acompanhamento necessário para o desenvolvimento dos autistas nem sempre ser tão facilitado. Infelizmente, ainda hoje, muitas famílias enfrentam fila de espera para conseguir acessar os serviços disponíveis, não apenas pela rede pública, mas também para quem conta com plano de saúde.


SERVIÇOS


Mãe de João Vinícius, de 7 anos, - diagnosticado com autismo em 2016 -a arquiteta Cylla Ribeiro destaca que em Belém até já existem alguns serviços de acompanhamento multiprofissional voltado para crianças autistas. Mas, a dificuldade está em conseguir acessá-los, já que a demanda é maior do que a capacidade de atendimento. 


“Há profissionais e até espaços específicos para atendimento, mas são bem poucos”, considera. “Devido a isso fica difícil conseguir vaga nas terapias. No nosso caso, estamos aguardando incluírem nosso filho nas terapias desde novembro”.


Aliado a insuficiência das vagas, o preconceito ainda é um entrave. Cylla, que também é mãe de Maria Eduarda, 11, conta que neste ano mesmo, ela e o esposo tentaram matricular o João em uma escola particular. No 1º momento, não foi indicado nenhum impasse para realizar a matrícula, mas a conversa mudou quando a escola teve conhecimento de que João é autista. 


“Fomos bem recebidos. As pessoas eram atenciosas e nos convenceram de que ali nosso filho estaria em boas mãos”, lembra. “Depois informamos que nosso filho tinha autismo e num passe de mágica as vagas acabaram, em fração de segundos. Disseram que já tinham ultrapassado uma suposta cota para alunos especiais”.




Preconceito prejudica também a interação


Professor titular do Núcleo de Teoria e Pesquisa do Comportamento da Universidade Federal do Pará (UFPA), Romariz Barros destaca que o preconceito pode ‘roubar’ as oportunidades de interação tão necessárias aos autistas. “Se os outros se afastam, é ainda mais difícil garantir à criança a riqueza de ambiente social que ela precisa pra se desenvolver”.


O professor também destaca que o acompanhamento multiprofissional precoce faz toda a diferença no desenvolvimento da criança. “Os estudos nessa área têm mostrado que o prognóstico é muito bom quando se começa a trabalhar bem cedo. Uma intervenção iniciada entre 2 e 4 anos de idade tem muitas chances de gerar resultados muito bons”, aponta. “Entretanto, é importante dizer que nunca é tarde para começar a trabalhar. Se o diagnóstico veio mais tarde, ninguém deve desanimar”.


O professor esclarece que, em geral, o primeiro profissional a perceber os sinais do TEA costuma ser o médico pediatra. A depender nas necessidades da criança, pode ser necessário acompanhamento com psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, além de educadores em geral.



João, ao lado da mãe Cylla e da irmã, Maria Eduarda


Caminhadas de conscientização em Belém e Ananindeua


Com o tema “Humanizar para incluir. Quando você ajuda, as peças se encaixam”, uma caminhada será realizada pelas ruas do município de Ananindeua no dia 2 de abril, Dia Mundial de Conscientização do Autismo. A ação é realizada pelo Centro de Atenção Psicossocial e Infanto Juvenil (Capsi) Ananindeua. 


Coordenadora do Capsi Ananindeua, Andréa Souza explica que o objetivo da caminhada é justamente o de tentar suscitar na sociedade o sentimento de inclusão para com o autista. “A concentração será às 7h e a saída às 8h, na Igreja Nossa Senhora do Amparo e segue até a Praça da Bíblia, onde uma jovem autista irá apresentar o livro que escreveu, além de outras apresentações”, explica. “A intenção é mostrar como é possível, com o acompanhamento necessário, a pessoa com autismo se desenvolver, ter uma profissão”. 


Também com o intuito de conscientizar a população a lutar contra o preconceito, várias entidades do Estado se reúnem neste domingo (31), em uma caminhada em alusão ao Dia Mundial de Conscientização do Autismo.


PROGRAMAÇÃO


A programação começa às 9h, na Praça Batista Campos, em Belém. Esse ano, o evento tem como tema “Juntos somos mais fortes”. “O objetivo é combater o preconceito, falar sobre a importância da inclusão”, explica Cleide Teles, presidente da Associação dos Pais e Amigos dos Autistas de Ananindeua (Apan).


“Queremos abrir para o público em geral para falar sobre inclusão”, ressalta, acrescentando que haverá apresentações, homenagens e vendas de materiais produzidos pelas associações. 


(Cintia Magno/Diário do Pará)

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