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Pipoqueiros resistem ao tempo e às mudanças no mercado em Belém

domingo, 10/03/2019, 08:02 - Atualizado em 10/03/2019, 08:20 - Autor:


Os tradicionais carrinhos coloridos já até fazem parte do cenário da Praça Batista Campos, em Belém. Em meio às belas árvores e coretos em ferro espalhados pelo espaço, há sempre uma pipoqueira do qual emana o perfume inconfundível de uma boa pipoca. Ainda que o mercado já disponha de versões para micro-ondas e gourmet, o que impera nas praças da capital ainda é a tradição das pipocas assadas nas panelas dos carrinhos de rua. 


Na família da autônoma Maura Cristina da Cruz, 44 anos, o legado da venda de pipocas já dura mais de 20 anos. A pipoqueira lembra que do trabalho desempenhado com a venda de pipocas na Praça Batista Campos, ela e o marido conseguiram criar as duas filhas e ainda construir a casa de três andares onde moram até hoje. “Sempre foi da venda de pipoca que a gente tirou o sustento, o leite das crianças”.


Maura Cristina lembra que quem começou no negócio foi o esposo, o pipoqueiro Emerson da Cruz, 46 anos. O casal se conheceu na igreja e, na época, Emerson já trabalhava com a venda de pipocas. Maura recorda que chegava a acompanhar o marido com as duas filhas pequenas e, em um desses domingos, percebeu a necessidade de ampliar o negócio. “Eu lembro que o carro que ele tinha já estava bem velhinho e, então, eu pensei: é daqui que tiramos todo o nosso sustento, então temos que melhorar”, recorda a esposa.A ideia inicial foi a de comprar um carrinho novo, mas Maura lembra que, na época, apenas a panela custava em torno de R$ 500. Filha de mecânico, Maura não demorou a ter a ideia de ela própria produzir os instrumentos que possibilitam a produção da pipoca. “Eu comprei uma panela grossa e comecei a furar. Aí saí andando por umas oficinas atrás das peças para fazer as engrenagens. Montei três panelas e reformei o carro”.


Hoje o casal já dispõe de três carrinhos, sendo que um fica guardado para o caso de um dos dois que são utilizados habitualmente ‘dar prego’. Com as filhas de 22 e 15 anos criadas a partir do trabalho com a venda de pipocas, o casal não esconde a satisfação pela profissão já tão tradicional das praças de Belém. “A pipoca na praça já faz parte do cotidiano da vida das pessoas”, avalia Emerson, na profissão já há 27 anos. “Quando acontece de eu faltar um dia, os clientes reclamam no dia seguinte: ‘eu vim na praça e não tinha pipoca’”.


A cada caminhada pela praça lotada em dias de domingo, é possível encontrar um carrinho diferente oferecendo a mesma opção de lanche: pipoca. Próximo a um dos lagos da Praça Batista Campos, o pipoqueiro Faustino Pereira, 75 anos, já dá continuidade à tradição há 19 anos. “Quando eu me aposentei, sabia que ia precisar fazer mais alguma coisa, então eu comecei a vender pipoca”.


A renda conquistada com a venda do lanche é o que garante a comida na mesa de Faustino. Já o valor do benefício vai para as contas de luz, água, medicamentos. “A pipoca é o sustento do dia a dia. De segunda a sexta eu fico na entrada do colégio e sábado e domingo na praça”, revela. “O produto aqui é bom. Você escolhe doce ou salgada”. 


Quem também faz questão de destacar a qualidade da pipoca quentinha é o pipoqueiro David Frazão, 52 anos. Ele está no ramo há um ano e meio, mas já percebeu a força do legado deixado pelos pipoqueiros de praça. “Antes eu vendia brinquedos, mas começou a ficar muito fraca a venda e eu resolvi vender pipoca”, contou, ao estimar que chega a vender cerca de 50 saquinhos de pipoca em um domingo. 


PROCURA


“A pipoca todo mundo procura: criança, adolescente, adulto. A pipoca feita no carrinho na praça é sempre mais gostosa”. A psicóloga Tatiana Kono, 41 anos, não tem dúvida disso. Mesmo com a possibilidade de fazer pipoca em casa, até mesmo no micro-ondas, ela destaca que a pipoca vendida nos carrinhos tem sempre um sabor especial. 


“Para mim o gosto é melhor ainda porque me remete à infância. Eu sempre passeava nas praças e comia uma pipoquinha com manteiga”, lembra, ao contar que, hoje, a tradição já é repassada às novas gerações da família. “As minhas sobrinhas também gostam muito porque essas pipocas são diferentes, mais gostosas”.


O lanche também é o preferido da família de Felícia, de dois anos e meio, durante os passeios na Praça da República. “A pipoca tradicional mesmo é essa vendida no carrinho”, considera a autônoma e mãe de Felícia, Ingrid Caroline, 23 anos. “Aqui, todos são viciados em pipoca”, reforça o engenheiro agrônomo e pai, Felipe André, 27.


(Cintia Magno/Diário do Pará)

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