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Violência obstétrica: cicatrizes e traumas da agressão física e psicológica na gestação

quinta-feira, 28/02/2019, 11:23 - Atualizado em 28/02/2019, 13:36 - Autor:


“Tive atonia uterina (perda de tônus muscular do útero, caracterizada pela incapacidade do órgão de se contrair após o parto). Passei por uma limpeza manual depois de ter levado vários pontos devido a laceração. Muito sofrido. E injetaram ocitocina para ajudar”. O desabafo de Giullyanne Galvão de Lima, durante o nascimento da filha Isabella de Lima Souza, é um dos milhões estampados na pele de mulheres que sofreram algum tipo de violência no atendimento ao parto.



De acordo com Verena de Nazaré Batista Butzke Pacheco, ginecologista e obstetrícia do Hapvida Saúde, a violência obstétrica pode ocorrer nos partos normais, cesariana e até mesmo ao abortamento.



“A violência obstétrica é toda e qualquer agressão física, psicológica e verbal. Se trata de condutas tomadas pelas pessoas que assistem a gestante ou puérpera com condutas não adequadas, desnecessários e que a paciente não concorde com a realização da mesma”, explica.



Verena explica o que é considerado violência obstétrica e como a vítima deve proceder. (foto: Arquivo Pessoal)


Segundo a obstetrícia, pode ser considerado violência obstétrica todo procedimento realizado de forma desnecessária, inadequada para o quadro clínico da paciente e que não tenha embasamento científico para a indicação do mesmo.




“Lavagem intestinal; restrição alimentar; não permitir acompanhante no momento do parto; não promover o alívio da dor, através de analgesia de parto, quando solicitado pela paciente; gritos, insultos; piadas ("na hora de fazer não doeu", que escutávamos muito antigamente) e o não compartilhamento de decisões das condutas a serem tomadas, dentre outros”, ressalta.



No Brasil, uma em cada quatro mulheres sofre algum tipo de violência durante o parto, segundo pesquisa “Mulheres Brasileiras e gênero nos Espaços Público e Privado”, divulgada em agosto de 2010.



A pesquisa ressalta ainda, que muitas gestantes brasileiras foram submetidas a procedimentos indevidos, mal atendidas ou sofreram algum tipo de violência em instituição de saúde. Mas, a violência obstétrica causa não apenas danos físicos, mas psicológicos e emocionais.


Giullyanne Lima vivenciou essa experiência na gestação da filha, hoje com 10 meses. Sem plano de saúde, ela recorreu ao Sistema Único de Saúde (SUS).



“No dia que minha bolsa estourou, às 1h da manhã, ainda fiquei em casa por conselhos da enfermeira obstétrica que me acompanhava porque em muitos casos eles mandam de volta para casa quando estamos no início do trabalho de parto. Já sabendo disso, fiquei em casa até mais ou menos umas 6h da manhã. Quando cheguei no hospital, não tinha um médico na ala de obstetrícia, apenas enfermeiras, onde não fui bem atendida. Disseram que o médico só ia lá pelas 11h da manhã e se eu quisesse, era para esperar na recepção. Por conselho de um amigo do meu noivo, procuramos um outro lugar, se não a bebê nasceria na recepção mesmo”, conta.



Giullyanne sofreu violência obstétrica no nascimento da filha Isabella de Lima Souza. (Foto: Arquivo Pessoal)


A mãe relembra ainda, que teve que passar por mais uma espera no processo de triagem do outro hospital. “É péssimo. Eu estava perdendo muito líquido e estava sangrando. Meu noivo e meus pais estavam entrando em desespero, pois não sabiam o que fazer comigo. Meu noivo tentou falar com a médica da triagem, que tratou ele super mal. Mesmo me vendo sangrar, disse que ainda faltavam muitos centímetros e que eu teria que aguentar. Nem sequer me examinou ou viu se estava tudo bem com a minha filha”, relembra.



Giullyanne relata o descaso no atendimento após ser deixada sozinha com o noivo. “Várias vezes ele foi atrás das médicas e enfermeiras e, a única coisa que falavam é que devia esperar, sendo que elas ficavam conversando do lado de fora. Uma enfermeira entrou no quarto, fez pouco caso da minha dor e disse: ‘faz força aí, deixa eu ver se tá nascendo mesmo’. Ninguém estava lá comigo, mais um pouco minha filha teria nascido apenas comigo e com o meu noivo no quarto. Uma enfermeira entrou na sala quando minha filha estava com a cabeça aparecendo e gritou chamando os outros, mas quem fez o meu parto foi ela mesma. Só depois de muito tempo que apareceu a médica e o pediatra”, relembra.



A experiência fez com que Giullyanne temesse uma nova gestação. “Não penso em ter outro filho. Fica aquele medo de passar por algo parecido de novo. Queria ter recebido mais carinho das pessoas, depois que o bebê nasce as pessoas esquecem da mãe, isso é triste”, lamenta.


A ginecologista e obstetrícia Verena destaca a importância de procurar atendimento imediato. “Você precisa desconstruir esse aspecto ruim da experiência pela qual a paciente passou. Ela deve procurar atendimento psicológico de imediato, de preferência ainda na internação”, recomenda.



Mulher agredida por obstetra no parto


Na semana passada, o vídeo de uma mulher agredida na hora do parto após discussão com o médico viralizou e gerou revolta nas redes sociais. Nas imagens é possível ver o médico discutindo com a mãe da vítima, que pede a outro médico para que a filha seja encaminhada para o centro cirurgico, e que caso não acontecesse, iria chamar a imprensa.





De acordo com informações da polícia do Amazonas, o caso aconteceu no Instituto da Mulher e Maternidade Dona Lindu, no bairro Adrianópolis, em Manaus. 



Sofri violência obstétrica: o que devo fazer?


De acordo com o Ministério da Saúde (MS), a vítima pode denunciar no próprio estabelecimento de saúde, seja público ou privado ou na Secretaria Municipal, Estadual ou Distrital e ainda nos Conselhos de Classe (Conselho Regional de Medicina quando por parte de profissional médico e Conselho Regional de Enfermagem quando por enfermeiros ou técnicos de enfermagem) e pelo 180 ou Disque Saúde 136.



Projetos de apoio e conscientização


Na luta contra a violência obstétrica, projetos e grupos têm sido criados para promover o debate e a troca de informações para que as mulheres possam alcançar a autonomia de suas gestação. É o caso do projeto "1:4: Retratos da Violência Obstétrica", criado pela fotógrafa Carla Raiter, que decidiu criar uma série fotográfica par ajudar a romper o silêncio de vítimas que sofrem com os protocolos médicos nas maternidades brasileiras.


Veja algumas fotos:



(Foto: Carla Raiter/Reprodução)



(Foto: Carla Raiter/Reprodução)



(Foto: Carla Raiter/Reprodução)



(Foto: Carla Raiter/Reprodução)


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Coordenação: Gustavo Dutra/DOL


Multimídia: Gabriel Caldas/DOL


(DOL)

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