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MODA

Pandemia deu status fashion às roupas de ficar em casa

"Loungewear" ou "comfy" foi uma das tendências da moda em 2020

quinta-feira, 24/12/2020, 18:36 - Atualizado em 24/12/2020, 22:44 - Autor: Pedro Diniz/Folhapress


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Se a moda já havia sido desafiada em 2019, que jogou na fogueira a elegância vinculada à nobreza espalhafatosa e os micos das marcas, em 2020 teve de lidar com o deserto das ruas, o mau humor das pessoas isoladas e a pergunta incômoda cuja resposta ainda tenta construir: para que ela serve mesmo?

O motor deste ano girou em torno dessa questão porque, de todas os produtos culturais, a moda é aquele que só faz sentido com a exposição pública, vetada pela pandemia - afinal, não nos arrumamos para a solitude e compramos novidades pela satisfação de algum dia as expor ao vento.

Foi pelas redes sociais que as tais tendências se mantiveram, requentadas por meio do passado festeiro dos anos 1980 e das estampas esfuziantes dos 1970, tudo misturado em doses homeopáticas de simplicidade noventista. É o velho repaginado, a segurança do que deu certo agora em embalagem bonitinha.

Ao espremer essa carga dramática da roupa dita fashion, o que sobrou foi funcionalidade, definidora dos lançamentos de êxito comercial e parte mais óbvia da resposta sobre a utilidade da moda.

Moletons, pijamas, calçados felpudos e a camisetinha confortável do dia dia guiaram o espírito novidadeiro. E ele foi ricamente adornado em nome gringo, o "loungewear", ou "comfy", para fashionistas já íntimos dessa "new trend" de cinco anos atrás e cuja validade permanecerá até quando as vacinas contra a Covid-19 surtirem efeito. Ainda que se tente manter o sorriso nos vídeos, com tie dye e algum sexy para ficar em casa, a moda conta com a imunização.

Isso não só porque brilhos, vestidos de festa, longos de casamentos e saltos altos geram mais lucros. Também depende da vacina a locomotiva de vendas das casas de costura poderosa com a sua máquina de apresentações.

O sumiço de turistas, principalmente os chineses, cortou o trânsito nos corredores europeus e americanos, levando as marcas a investir nos mercados domésticos. A Ásia virou destino de desfiles físicos logo após o afrouxamento das restrições de circulação.

Por aqui, uma nova leva de marcas internacionais veio para marcar território e depender menos dos aeroportos. Isabel Marant acaba de aportar em São Paulo, no CJ Shops, e a Balenciaga já tem tapumes anunciando sua chegada no JK Iguatemi, em março.

Mas a mítica dessa moda de cifras altas reside no hemisfério norte, mais uma vez fechado pela segunda onda do vírus e que correu para tentar mostrar relevância criativa. Atadas ao dilema de aglomerar ou não, as grifes fizeram desfiles concisos, como o da Chanel, ou filmes para semanas de moda criados por estetas.

A Dior chamou Matteo Garrone ("Gomorra") para filmar sua alta-costura, já a Gucci teve Gus Van Sant ("Garotos de Programa") por trás de sua série de curtas. Em São Paulo, a estreante Misci apostou alto num vídeo em cenário de destruição que reflete sobre a questão ambiental do país.

Aí reside um outro ponto crucial para entender a moda desenhada pelo ano. Fatores identitários entraram na pauta não como artifício marqueteiro, mas em atitudes práticas de inclusão.

Em decisão inédita e na esteira do movimento Black Lives Matter, a São Paulo Fashion Week cedeu ao coletivo de modelos Pretos Na Moda e instituiu que metade dos modelos de suas passarelas devem ser negros, indígenas, afrodescendentes ou asiáticos.

Tornou-se a primeira do mundo com um código racial definido em contrato, fruto de uma pressão social. A palavra-chave para definir os pilares da mudança é a sustentabilidade, a preocupação com as engrenagens ambiental, social e econômica do mundo que, a bem da verdade, vive mais por circunstância e cobrança de quem consome moda do que pela boa vontade dessa indústria.

O momento "upcycling" do mundo, aventado desde a década passada e agora vendido como revolução ao pôr na prateleira roupas feitas com estoques de matéria-prima ou peças de segunda mão, pode ser lido como preocupação sobre o descarte de lixo fashion.

Mas, à luz da crise global de insumos para a produção de roupas despertada pela pandemia, a tendência veio em boa hora, e esse outro lado da moeda não parece lá muito vinculado ao "propósito", ou ao "impacto positivo", para citar jargões difundidos.

Foram pílulas do paradoxo existencial duas despedidas emblemáticas. A de janeiro, quando Jean Paul Gaultier deixou as passarelas num desfile em Paris, fazendo a última festa opulenta da costura pré-pandemia, e a de outubro, de Kenzo Takada. Morto pela Covid-19, ele era o maior símbolo do ideal multiculturalista propagado pela indústria.

Ambos foram signos da irrealidade, da moda agarrada à fantasia, e a quem parte do público já acostumado ao fast fashion cobrava criações menos estapafúrdias –uma moda real. Sobre ela, a Saint Laurent encerrou o ano com o último desfile da safra 2020, transmitido online e filmado num deserto inominado.

Pelas dunas de areia, as modelos exibiram o sexy de boate da marca para o vazio, num embate na tela entre o que virou e o que a marca gostaria que virasse a moda em 2021.

Como se lembrasse o filósofo esloveno Slavoj Zizek e sua metáfora sobre o filme "Matrix", de 1999, usada em livro em que o autor destila a incongruência dos discursos ideológicos, a grife parece responder –e fazer mea culpa– a essa turma que vê a costura apenas sob o prisma capitalista. Gritou com eco: "Bem-vindo ao deserto do real".

Veja ideias de looks confortáveis para curtir o Natal em casa:

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