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Grifes despejam chapéus de bruxa e mulheres siliconadas na passarela da SPFW

terça-feira, 15/10/2019, 23:10 - Atualizado em 15/10/2019, 23:34 - Autor: Pedro Diniz/Folhapress


Entrada final do desfile da Modem
Entrada final do desfile da Modem | AGNEWS

Enquanto ninguém reinventa a roda, o que sobra é olhar para o que já foi feito com uma régua diferente que, em maior ou menor grau, carregue algum significado. Os estilistas André Boffano, das grifes Bobstore e Modem, e Reinaldo Lourenço flertaram com a ansiedade do século e com a busca por autoconhecimento no segundo dia de desfiles desta São Paulo Fashion Week.

O fetiche, o misticismo e alguma revolta contra o status quo definiram a interpretação de clássicos proposta nas passarelas desta terça (15) no Pavilhão das Culturas Brasileiras, no parque Ibirapuera, em São Paulo, para onde o evento voltou nesta sua 48ª edição.

Inspirado por uma série de obras abstratas da sueca Hilma af Klint, Boffano enveredou por geometria e estética boho na tentativa de imitar essa figura que por muito tempo ficou à sombra da arte por criar obras a partir de sessões espíritas e, supostamente, antever movimentos estéticos em suas telas –não por coincidência, um dos fundamentos da moda.

Não há invencionices no estudo do designer, e sim peças clássicas que foram revistas sob a luz da cartela da artista, das formas vistas em seus quadros e em detalhes pontuais colados em casacos, vestidos exuberantes que misturam luréx e raión, e capas de tricô cuja base imagética é a indumentária das bruxas.

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Bruxas estão na moda, aliás. Desde que a Dior, em março, explorou referências a essas mulheres –que, segundo algumas leituras, foram perseguidas por uma sociedade que não aceitava sua independência–, a imagem folclórica das feiticeiras vem tomando as vitrines, maquiada com uma elegância algo gótica.

No desfile, cabelos, chapéus gigantes, como aqueles usados pela bruxa de Beyoncé no clipe da música"Formation", e camadas de tecido sobrepostos em peças plissadas são o verniz desse guarda-roupa místico.

Por coincidência, a escultura "Musa Impassível", obra do artista modernista Victor Brecheret que homenageia a poeta paulista Francisca Júlia, acompanhava o vaivém de modelos como extensão do discurso de Boffano.

Júlia furou o ambiente masculino da literatura e, no poema que dá nome à escultura, celebra o orgulho feminino e prega força na adversidade.

É um discurso compatível com o de outro esteta, mais experiente, da moda brasileira. Reinaldo Lourenço levou referências de seu repertório ao desfile inspirado nas origens do punk inglês, com elementos brutos, como o couro, os zíperes e os ilhóses, se fundindo aos traços da indumentária clássica vitoriana.

Se o punk britânico se rebelava contra as tradições de um sistema excludente como o monárquico, em seu desfile, Lourenço tratou de criticar a opressão sofrida pelas mulheres, um tema recorrente de sua passarela, usando emblemas de sua sujeição aos homens ao longo da história.

Gargantilhas com tachas, argolas de bondage e estruturas de corset receberam tratamento luxuoso nas peças de viés clássico e com alto potencial de venda.

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A estampa de rosas em vermelho e preto sobre base branca era uma das poucas referências visuais ao romantismo, mas foi espertamente usada como contraponto aos itens de alfaiataria com verniz austero.

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Confortável em seus métodos de entregar uma feminilidade classuda com informação de moda atenta aos caminhos do que é contemporâneo, o estilista conseguiu a façanha de imitar códigos rebeldes para uma clientela nobre afeita ao botox, que, no desfile, bebeu água gaseificada das fontes de Vergèze, na França. Uma ironia fina.

A discussão da beleza e da busca dolorosa por ela também puderam ser notadas em uma das gratas surpresas deste calendário mais autoral da SPFW. A estilista Marina Dalgalarrondo, da grife Õ, levou peças que, a partir de um estudo de formas, ora amplas, ora repuxadas, tratavam de procedimentos estéticos para alterar o corpo.

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Bodybuilders, mulheres siliconadas e deformações auto-infligidas foram o norte para os looks de látex –dos em estado puro, que precisaram ser molhados antes da apresentação e que traziam bolhas brotando de sua superfície, aos industriais, aparentemente perfeitos, moldados pela ação humana.

Espécie de metáfora sobre o artificial, os tecidos que circularam pela passarela traziam pontos de cor em verde-limão e azul –dois tons que são alienígenas na natureza e que, na coleção, remetiam ao gosto humano pelo alterado.

 

Entrada final do desfile da Modem
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