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Projetos propõem a revitalização de bairros

domingo, 25/08/2013, 10:17 - Atualizado em 25/08/2013, 10:19 - Autor:


Era apenas um muro sem graça. Não tem uma janela sequer ou porta. Não é ruína de um casarão antigo, nem nada. A única coisa notável sobre a parede na travessa Tiradentes, no bairro do Reduto, era a pilha de lixo que se acumulava na calçada, obrigando os pedestres a desviar o caminho. Agora, o cinza encardido foi substituído por um intrincado e colorido diagrama em forma de grafite. 


Misturando desenhos e texto, a obra retrata quadro a quadro as manifestações que aconteceram nos últimos dois meses no país. Da luta contra a alta das tarifas dos ônibus em São Paulo, passando pela repressão policial que culminou na agressão sofrida pela jornalista Giuliana Vallone, atingida por um tiro no olho durante uma passeata na capital paulista. Belo Monte, Facebook, Copa do Mundo, PEC 37, tudo está ‘linkado’ nessa espécie de mapa. “Meu trabalho reflete muito do que está acontecendo no momento. Uma manchete de jornal, uma conversa de bar, até um post no Facebook. Nada disso escapa, tudo tem sua importância. Não deixa de ser uma questão política, de posicionamento. Assim como o grafite. Grafitar é se posicionar, defender uma ideia. Trazer esse aspecto humano pra rua, que é cinza demais, impessoal demais”, define Sebastião Tapajós Júnior, o Sebá.


O trabalho integra o projeto #redutowalls, que marca a volta do artista paraense a Belém. A iniciativa culminará em um evento dedicado à arte urbana, previsto para o final de julho de 2014, reunindo artistas brasileiros como Anarquia, Binho e Hyper, e nomes internacionais, como o suíço Bean. Serão cinco dias de programação, com oficinas, palestras, shows, exposição de arte e intervenção urbana nas ruas da capital paraense.


Mas até lá, Sebá tem planos de decorar quantos muros forem possíveis no Reduto. Ao lado de grafiteiros como Daniel Silva e Dedéh Farias, o grupo já pintou 15 murais nos últimos dois meses como parte do projeto de transformar o bairro em uma galeria a céu aberto. Nas suas contas serão 50 até ano que vem. 


Bairro-galeria 


“Parede é o que não falta. Existe muita casa abandonada, terreno baldio. Se por um lado isso facilita pra gente, por outro mostra o abandono do Reduto. Uma parte da cidade que cada vez mais sofre com a ação do tempo, com a falta de cuidado”, atesta Sebá.


O antigo bairro operário se transformou no centro de lazer da cidade, com o surgimento de shopping centers, bares e restaurantes. Hoje, é classificado como uma área de entorno de bens tombados tanto na esfera federal, estadual e municipal.


“Sou morador do bairro, acompanho os problemas dele de perto”, afirma Daniel Silva, proprietário do estúdio e galeria de arte Gotazkaen, instalado no porão de sua residência na rua Ó de Almeida. “Nossos projetos - sejam as exposições, cursos - sempre tentam incluir o bairro de alguma maneira. Por isso pensamos o #redutowalls como um encontro de artistas. Queremos estimular mais pessoas a fazer grafite, melhorar técnica e a aceitação dessa cultura, dessa expressão artística. Mas o objetivo maior é tornar o Reduto em um ‘bairro galeria’. Ele merece isso”, defende o artista, que divide com Sebá Tapajós a coordenação do #redutowalls. 


As paredes da galeria e das casas vizinhas já estão tomadas por desenhos. Ícones da cultura pop como Batman e Mulher Gato dividem espaço com lendas típicas da região como o Boto. Não existe data fixa para o grafite, cada encontro depende da agenda dos artistas e, principalmente, do bolso. O projeto é independente, bancado pelos próprios grafiteiros.


Marginal


Apesar da trabalheira sob o sol a pino, o grupo ainda acha fôlego para desenvolver um documentário. Dirigido por Brunno Regis - conhecido por seu trabalho com videoclipes, como “Proposta Indecente”, da cantora Aíla, e “Velocidade do Eletro”, do grupo Gang do Eletro -, o filme toca no processo de criação dos grafiteiros e a relação da vizinhança com as obras, além de contar um pouco da história do grafite em Belém e do Reduto.


“É um filme sobre o processo criativo, sobre essa transformação do bairro. Mas também é um filme sobre essa relação de quem faz o grafite, de quem vê ele na rua. A arte de rua não é uma questão simples. Ela instiga uma série de questionamentos sobre o papel da arte, esbarra no preconceito, na lei. Belém tem uma história muito longa com a pichação, que remete desde as brigas de gangues da década de 80. Então, por causa dessa criminalização, a relação com o grafite, que é mais recente, ainda está se desenvolvendo”, explica Brunno.Cara branca, sorrisos amarelos e narizes vermelhos redondos como uma bola. O grafite dos rostos de três palhaços tristes feito por Sebá que decoram os muros da Casa dos Palhaços, sede do Palhaços Trovadores, no bairro do Reduto, em Belém, foi uma surpresa até mesmo para a trupe de clowns. 


“Não estava sabendo de nada até uma vizinha ligar avisando. No começo fiquei preocupado, a gente não tinha autorizado. Mas acabou que todos do grupo gostaram muito. A arte urbana tem esse ‘quê’ de rebeldia”, analisa o ator Marton Maués, diretor da companhia de teatro.


“Estamos conversando com alguns moradores também, para que possamos incluir a casa deles no projeto. No começo teve certa resistência, mas hoje eles até pedem pra gente grafitar a frente da casa, sugerem desenhos. Enquanto eu estava grafitando um dos muros, uma senhora veio brigar comigo. ‘Não faça isso. É horrível. Vai estragar a rua’, ela me disse. Depois de um tempo, a vejo voltando, observando o trabalho acabado. ‘Me desculpe, meu filho. Ficou ótimo o seu desenho. Pode continuar, pode continuar’, revela Sebá, em meio a risos. 


Um colorido bem diferente 


O estilo de Sebá Tapajós difere muito do seu pai, o violonista Sebastião Tapajós. O santareno é um dos principais nomes da música instrumental brasileira, com músicas gravadas por nomes como Billy Blanco e Antonio Carlos Maranhão. O primeiro trabalho conjunto dos dois, o CD “Tempo de Espera”, surgiu apenas em 2010, depois de muita resistência de Sebá, que fez a arte do disco. “Ele sempre me pedia pra que eu desenhasse pra ele. Essa parceria demorou porque eu achava que não tinha trabalho adequado à obra dele. Que o grafite não tinha a ver. Agora a gente já engatou outro projeto juntos, vou fazer a capa pra um disco de guitarrada. Ele apoia bastante minha arte, de eu ter tido personalidade, trilhado o meu próprio caminho em outro ramo. Ele diz que não entende muito o meu trabalho mas que acha lindo”, revela.Designer de profissão, o artista radicado há 14 anos no Rio de Janeiro começou com o grafite durante a adolescência. O que era um ato de rebeldia com a pichação virou carreira, depois se expandindo para a prática do desenho e das artes plásticas. A vontade de Sebá se impôs mesmo ante as diversidades: ele é daltônico.


“Já criei um sistema pra facilitar. Cada lápis de cor que eu uso tem o nome da cor, por exemplo. Com o spray é mais fácil porque as latas têm nome fantasia, como a Vampirella, que é o spray azul. Assim eu me viro. Vejo cores, mas não como você e os outros vêem. Mas no final das contas, tudo é uma questão de ponto de vista. Às vezes a vida tá mais colorida pra você, às vezes pra mim”, conclui. 


Muro, memória e tinta


No centro histórico de Belém, outra iniciativa modifica a paisagem por meio do grafite. O projeto Rota Urbana pela Arte (R.U.A.), coordenado pela artista Drika Chagas, prepara dez painéis espalhados pelas ruas da Cidade Velha. As ilustrações foram desenvolvidas a partir de entrevistas com moradores do bairro, como é o caso da colorida mulher ao piano que toma todo um muro na rua Doutor Malcher. O grafite homenageia Lenora de Menezes, que na década de 40 tocava de janelas abertas para deleite de toda a vizinhança.


“Quem me contou essa história foram as sobrinhas dela, a Marília e Belém de Menezes. Assim como elas, o projeto é recheado de memórias desses moradores, pedaços da vida dessas pessoas que acabam se perdendo”, diz grafiteira paraense.O cotidiano e imaginário do bairro ganham forma através dos grafites. Causos como o da monstruosa cobra que mora em um túnel entre as Igrejas do Carmo e da Sé.


Iniciados em julho, os grafites foram desenvolvidos com a ajuda de moradores do local e alunos de escolas públicas, capacitados pelo projeto. O R.U.A. tem patrocínio da Secretaria de Comunicação do Estado do Pará, através da Diretoria de Comunicação Popular e Comunitária, Biizu, apoio do Forúm Landi e autorização do Instituto do Patrimonio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), já que o bairro da Cidade Velha, datado de 1616, é tombado desde 2011 pelo Governo Federal.“Estamos propondo uma redescoberta do bairro . É uma área que sofre muito com a violência, a insegurança”, afirma Drika. Dona Anita é uma das entusiastas do projeto. Sua casa serviu de tela para o grafite “Estrada do Tempo Boi”, batizado em homenagem ao livro de Lindanor Celina. O desenho retrata uma menina coroada por azulejos, em referência ao relato de D. Irene Lumiére que se imaginava uma princesa quando ia brincar com as amiguinhas no luxuoso palacete Pinho.


“Eu adorei o desenho. Todo mundo vem me dizer o quanto a minha casa ficou linda. Está até tendo uma competição pra ver quem ficou com a casa mais bonita. A gente fica mais feliz vendo as ruas todas pintadas”, conta a moradora.


Projeto R.UA.: a abertura da exposição será no dia 31 de agosto, as 17h30, no Fórum Landi (Rua Siqueira Mendes, 60, Cidade Velha). Saiba mais em www.projetorua.com.br.


(Diário do Pará)

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