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Antônio Moura lança o livro ‘Silence River’

quinta-feira, 22/08/2013, 07:34 - Atualizado em 22/08/2013, 07:36 - Autor:


Nove anos separam a publicação de “Rio Silêncio”, de Antônio Moura, de 2004, e a atual edição rebatizada de “Silence River”, lançada hoje pelo selo do Instituto de Artes do Pará (IAP). A nova versão do livro de poemas é uma edição bilíngue, traduzida para o inglês. Entretanto, a diferença entre as duas obras não se resume ao idioma, garante o autor. “Encaro como dois livros únicos. Eles têm uma conexão, mas não é a mesma coisa. Vai além da mera tradução”.


Publicada originalmente pela editora inglesa Arc Publications em 2012, “Silence River”, na verdade, não é a tradução de apenas um livro, mas de três. Além de “Rio Silêncio”, também é composto por trechos de “Hong Kong & outros poemas”, de 1999, e de “A sombra da Ausência”, seu mais recente trabalho, de 2009.


A reedição inglesa surgiu a convite do poeta e tradutor britânico Stefan Tobler, um entusiasta da literatura brasileira e latino-americana, autor da recente versão para o inglês do livro “Água Viva”, de Clarice Lispector. A tradução de “Silent River” surgiu como uma aposta do inglês: o livro foi elaborado para concorrer ao Prêmio John Dryden, competição literária voltada para o lançamento de autores estrangeiros no Reino Unido. Acabou o grande vencedor da competição. “O prêmio rendeu uma pequena turnê pela Inglaterra, viajando por nove cidades para a divulgação do trabalho. Eu e Stefan nos revezávamos na leitura dos poemas, em pequenas livrarias e universidades. Foi muito interessante ver a resposta do público, mesmo sem muitas vezes entender o que estava sendo falado, acompanhando a sonoridade das palavras. Isso dá outra dimensão ao que você escreve”, revela o autor paraense de 49 anos.


Já a outra característica que separa as duas obras é a própria natureza da tradução, ele explica. Autor de quatro livros e responsável por três trabalhos de tradução do francês e do espanhol para o português, Antônio Moura entende como ninguém o processo de transposição de um poema para outra língua.


Palavra Universal


“A poesia é praticamente impossível de traduzir. A versão traduzida cria apenas um eco do sentido original. Ouvir meus poemas em outra língua foi uma experiência estranha e, ao mesmo tempo, prazerosa. Eu e o Stefan tínhamos uma vantagem, ao contrário da maioria das traduções, o autor estava vivo para trocar notas. Eu sei da dificuldade do ofício: traduzir o trabalho de alguém é uma tarefa frustrante. Você está fadado a nunca alcançar seu objetivo. Nunca vai haver semelhança completa das duas línguas. Nunca vai haver proximidade entre o som, a imagem e o sentindo das palavras. Mas ao mesmo tempo, traduzir um texto é como conhecer uma nova terra, desbravar um lugar estranho. Você acaba se sentindo não um autor, mas um descobridor, um guia, de algo novo e maravilhoso”, descreve o poeta.


Terceiro livro de sua carreira, “Rio Silêncio” é definido por Antônio Moura como uma obra que dialoga com a filosofia, tratando de temas como o amor, a morte, a precariedade das coisas. A influência veio do amigo Benedito Nunes (1929-2011), filósofo e escritor paraense, que assinou o prefácio da primeira versão de 2004.


“Não existe um tema central nos poemas, mas eles remetem de uma forma ou outra ao passar do tempo, ao fluir de todas as coisas. A fala que desemboca no silêncio, a vida que desemboca no grande silêncio que é a morte. Daí o título do livro. Inclusive, eu me lembro de um puxada de orelha do Benedito por causa do título. Eu estava com o trabalho pronto, só faltava o nome. Ai, tomando um café na casa dele, falei da minha dificuldade e apresentei as ideias que ia mandar pra editora, que já pressionava pelo material. Ele me disse: ‘Não vai estragar o livro com nenhum desse nomes. Mesmo que demore mais um ano, pensa em outra coisa’. Fui pra casa arrasado, até que uns dias depois eu sonhei com o título ‘Rio Silêncio’”, conta.


Longe do Clichê


Quem assina a apresentação da edição inglesa de “Silence River” é David Treece, PhD em literatura brasileira pela Universidade de Liverpool, especialista na obra de João Cabral de Mello Neto e Guimarães Rosa. No texto, ele ressalta a universalidade da obra de Antônio Moura, que apesar de fruto das tensões da região, não parece preocupada em fazer referências geográficas. 


“Quando nos voltamos a poesia de Antônio Moura, referências temáticas ao seu estado natal do Pará ou a capital Belém, ou até mesmo ao vocabulário e imaginário cultural da Amazônia, parecem estar completamente ausentes. A exceção é que, no mundo de Moura, a natureza, distante de ser um território não mapeado, um Jardim do Éden virgem da mitologia amazônica pós colonial, é, ao invés disso, o habitat de nossa alienada condição humana”, afirma.


“Acho que o que chamou a atenção do pessoal lá de fora foi justamente o fato do meu trabalho fugir do óbvio. Na minha poesia, não falo em nome de árvore, de bicho. O que existe é o aspecto gigantesco da natureza, com um embate do homem que vive aqui e forças que ele não consegue lidar. Trata da pequenez do ser humano que habita aqui e grandeza da natureza”, conclui o escritor.


Mais sobre o autor


Antônio Moura nasceu em Belém, no Pará, viveu em cidades como São Paulo e Lisboa e atualmente em Belém. Poeta, tradutor e roteirista, tem quatro livros publicados: “Dez” (Super Cores – Belém, 1996); “Hong Kong & outros poemas” (Ateliê Editorial – São Paulo, 1999); “Rio Silêncio” (Lumme Editor – São Paulo, 2004), “A sombra da Ausência” (Lumme, Editor São Paulo, 2009). Traduziu “Quase-sonhos” (tradução de Presque-songes, de Jean-Joseph Rabearivelo – Lumme Editor – São Paulo, 2004); “Traduzido da noite” (tradução de Traduit de La nuit, de Jean-Joseph Rabearivelo – Lumme Editor, São Paulo 2007); e “Contra o segredo profissional” (tradução de Contra el secreto professional) de César Vallejo – Lumme Editor – São Paulo 2006).


Em 2012 “Rio Silêncio” foi publicado pela editora inglesa Arc Publications – Londres – Inglaterra. Está sendo traduzido para o alemão, por Niki Graça; para o catalão, por Joan Navarro; e para o espanhol, por Victor Sosa. Tem sido nacional e internacionalmente publicado em diversas antologias. Atualmente trabalha na tradução do poeta franco-belga Guy Goffette e na novela literária a “Voz da noite”.


(Diário do Pará)

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