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São Cristóvão voltará a brilhar após reforma

domingo, 18/08/2013, 11:44 - Atualizado em 18/08/2013, 11:44 - Autor:


Três horas da manhã e o público lotava a sala do Teatro São Cristóvão para a próxima apresentação dos Pássaros Juninos. Entre os anos 1960 e 1970, a antiga sede da União Beneficente dos Chauffeurs do Pará, no bairro de São Brás, em Belém, não parava durante o mês de junho, com sessões diárias disputadíssimas. O folguedo era tão popular, que não se resumia ao São Cristóvão, contava com casas de espetáculos como Poeira, em Nazaré, Imperial, no Jurunas, Onze Bandeirinhas, no Guamá, Brasilândia, na Sacramenta, e Paraíso e Estrela Dalva, na Pedreira. 


“Não existia computador, nem internet. Até a televisão era luxo na época. Então as pessoas adoravam frequentar teatro, quermesse. A cidade fervia durante a quadra junina”, lembra Iracema Oliveira, guardiã do Pássaro Tucano.


Atualmente, o prédio em art déco fundado em 1913, vizinho da sede da Secretaria de Cultura do Estado, sofre com o descaso. Apenas a fachada restou da edificação original, o mato alto encobre o terreno abandonado. Até as tábuas do piso, frisos de janelas e telhas foram saqueados. 


O Teatro São Cristóvão foi inaugurado pela União dos Chauffeurs em 1958, anexo à sede, como um espaço para confraternização dos associados. Na década de 1980, o espaço já era conhecido pelo apelido de “Teatro dos Pássaros”. Tendo se tornado referência na cidade, serviu de palco também para shows de Roberto Carlos e Vinícius de Moraes.


O Ministério da Cultura aprovou recentemente projeto que libera recursos no valor de R$ 4 milhões para a restauração da antiga sede da União Beneficente dos Chauffeurs do Pará e reconstrução do Teatro São Cristóvão. A obra é uma parceria entre governo federal e estadual, por meio da diretoria de patrimônio da Secretária de Cultura do Estado (Secult). A pasta afirma que já iniciou os procedimentos necessários para a execução do projeto. 


Espaço abrigará orquestra 


Procurado pela reportagem, Paulo Chaves, titular da Secretaria de Cultura do Pará, não aceitou conceder entrevista. Em nota, a assessoria afirma que o processo de desapropriação do imóvel já está em curso na Secretaria de Obras Públicas do Estado, que deverá realizar uma avaliação do local para que o processo de desapropriação seja consolidado. O espaço, de acordo com a nota, abrigará a sede da Orquestra Sinfônica do Theatro Da Paz e Amazônia Jazz Band, além do Memorial dos Pássaros e o teatro, com mais de cem lugares.


“Só em Belém são 22 grupos de Pássaros Juninos. A gente só precisa de espaço pra voar”, garante a paraense de 76 anos, que há 33 anos se dedica ao Tucano. 


Memória e Resistência


 Expressão típica da capital paraense, os Pássaros Juninos misturam teatro, balé e canto. “É uma opereta, um teatro popular musicado”, define a brincante. Os temas giram em torno de histórias de amor, lendas das encantarias amazônicas, protagonizando reis e rainhas, bruxas e fadas, vaqueiros e caboclos. 


“Dizem que os Pássaros começaram com as óperas vinda da Europa na época Belle Époque. Os empregados do Theatro da Paz, as damas de companhia que acompanhavam seus patrões, por exemplo, observavam aquele espetáculo todo e depois tentavam imitar o que viam”, afirma Iracema Oliveira.


Projeto prevê ‘Memorial dos Pássaros’


A luta pela restauração do teatro é antiga e já movimentou artistas em manifestações e protestos desde meados de 2009. A partir de então, nomes como Wlad Lima, Waldete Brito, Olinda e Zê Charone, Paes Loureiro e Iracema Oliveira já clamavam pela retomada do espaço. Outros, como o escritor e dramaturgo Edyr Proença e o cineasta Adriano Barroso, continuam enfatizando a luta e levantaram a bandeira em defesa do espaço na pauta de reivindicações do “Movimento Chega!”.


Com o anúncio, lampejos de esperança reacendem no coração dos mais otimistas, que compreendem o espaço enquanto santuário dos Pássaros Juninos. “O Teatro São Cristóvão é sagrado por ser o local de uma de nossas manifestações mais puras, únicas. É a ópera popular, que veio do povo impedido de entrar no Teatro da Paz e assistir as companhias de Paris”, argumenta Edyr Proença.


Ainda assim, críticas a respeito do tempo em que o espaço esteve fora do cerne de discussão sobre políticas culturais por parte do poder público são naturais e vêm à tona no discurso do dramaturgo. “O descaso para com o Teatro, de maneira geral, tem sido terrível. Uma geração inteira foi prejudicada ao longo desse tempo, tanto de atores, produtores, técnicos, mas principalmente, o povo. A agressão, com a transformação da residência governamental no tal parque, diante das ruínas do Teatro, é emblemática”, defende o escritor.


No teatro Cuíra, espaço mantido pela companhia cênica homônima da qual Edyr faz parte, existem projetos que se propõem a perpetuar o teatro de Pássaro Junino. “Temos um projeto que se chama Pássaro Shakespeare, que prevê oficinas, apresentações e um espetáculo a ser levado a todo o Brasil, com texto das obras de Shakespeare. Mas ainda precisamos de incentivos que garantam a execução dele”, comenta. 


Por outro lado, o ator Adriano Barroso recorda que frequentava o São Cristóvão ainda muito pequeno e guarda nas lembranças da infância lugar cativo para o teatro. “Fui atleta da Federação Educacional Infanto Juvenil que fica ao lado do teatro. Foi lá no que vi as primeiras manifestações populares, vi o pássaro cheio de brilhos, cores, sorrisos. Lembro perfeitamente do meu encantamento. No teatro também vi alguns dos principais artistas nacionais se apresentando, vi o Vinicius ainda pequeno, o Roberto Carlos passou por lá, vi minhas primeiras bandas de rock lá dentro. Enfim, para os que têm mais de 40 anos é impossível o teatro não estar em suas memórias”, comenta Adriano, que é autor do documentário “Ópera Cabocla”. A reconstrução do teatro é uma “redenção”, nas palavras dele. “O teatro é emblemático, assim como os cinemas de rua que desapareceram de nosso dia a dia. O teatro, para os grupos de pássaros e bois, e para suas comunidades, significaria um retorno para casa, como um filho é abraçado novamente pela mãe depois de anos rodando o mundo”, conclui. 


Saiba mais


> O Ministério da Cultura aprovou recentemente projeto que libera recursos no valor de R$ 4 milhões para a restauração da antiga sede da União Beneficente dos Chauffeurs do Pará e reconstrução do Teatro São Cristóvão. 


> A obra é uma parceria entre governo federal e estadual, por meio da diretoria de patrimônio da Secretária de Cultura do Estado (Secult). A pasta afirma que já iniciou os procedimentos necessários para a execução do projeto.


> A Secult afirma, por meio de nota, que o processo de desapropriação do imóvel já está em curso na Secretaria de Obras Públicas do Estado, que deverá realizar uma avaliação do local para que o processo seja consolidado. 


> O espaço, de acordo com a Secult, abrigará a sede da Orquestra Sinfônica do Theatro Da Paz e Amazônia Jazz Band, além do Memorial dos Pássaros e o teatro, com mais de cem lugares.


(Diário do Pará)

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