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Cineasta compõe retrato afetivo da irmã

quinta-feira, 15/08/2013, 07:19 - Atualizado em 15/08/2013, 07:54 - Autor:


Quando Elena vai embora, uma parte de Petra escapa também. A vida se despedaça e ela sente, mesmo que ainda não saiba, precisar um dia buscar os fragmentos do outro e de si. Em ‘Elena’, documentário em cartaz no Cine Líbero Luxardo, a cineasta Petra Costa empreende uma jornada de encontros e despedidas. Anda pelas ruas de Nova York, refaz caminhos, cruza as fronteiras da memória e do tempo à procura de sentidos e da irmã que decidiu partir.


Com o filme, a diretora lida com a dor à própria maneira. Narra a trajetória da jovem Elena que se muda para a metrópole insone para se tornar atriz de cinema. Sem conseguir dar concretude ao sonho, Elena se frustra. Não suporta a espera pela grande guinada na carreira em uma fase marcada pela urgência do agora. Como não pode viver mais de arte, escolhe deixar de existir e se mata aos 20 anos de idade.


Petra ainda é criança quando isso acontece. Tem sete anos. Cresce com o medo e a angústia de seguir os passos da irmã e repetir outra tragédia. Em um mundo ideal, aprende que pode morar em qualquer lugar, menos Nova York. Pode se decidir por qualquer profissão, jamais a de atriz. “Queriam que eu te esquecesse, Elena”, diz. Mas se desatrelar do laço que as une é improvável. Em setembro de 2003, ela se matricula no curso de teatro.


Premiado no 45º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro como melhor direção, melhor montagem, melhor direção de arte e melhor filme pelo júri popular, todos na categoria documentário, o longa mistura lembranças, vídeos e imagens dos arquivos de família, e depoimentos de amigos. São 82 minutos em que realidade e ficção se entrelaçam. Elena e Petra dançam, cantam. Contracenam. Bailam na ciranda de uma vida.Em muitos momentos do filme quase sempre Petra caminha. Enquanto tenta achar Elena, depara-se com os próprios vestígios.


A despedida, angústia de quem vive


Para chegar até a irmã, Petra precisa antes redescobrir a mãe. Essa mulher que também queria ser atriz e partilha feridas. É dela, pela voz de Petra, umas das frases mais comoventes do documentário, dita quando a filha completa 21 anos. “Agora você já está mais velha que Elena”.


Mãe que transferiu para o sangue da filha os desejos sonhados um dia. Desde criança, Elena já sabia que queria se tornar estrela. Arte era tudo. Vida e alimento. Sem ela, parece despida. E sem Elena, a mãe ficou vazia. Guarda nos olhos tristes e distantes o abismo deixado pela ausência. Um pedaço dela também se foi com uma das filhas. Para a mais jovem, fica a difícil tarefa de costurar os retalhos do que sobrou.


A brutalidade da morte é compartilhada com delicadeza. Elena revive. Surge na tela em imagens quase líricas, impregnadas de carinho, poesia e saudade.


Pouco a pouco, a dor vai sendo expurgada. E finalmente Petra alcança Elena, depois de tantas chegadas e partidas. Mergulha na imensidão de um rio de emoções desse encontro. É também despedida. Liberta-se. Emerge das águas. Morre e renasce. Agora, Petra sabe que a irmã é sua ‘memória inconsolável’. Mais consciente, pode encarar o próprio luto.


De sentimentos e perdas muito particulares, a diretora transforma em arte aquilo que tanto a dilacerou. Seria egocêntrico demais tomar uma atitude assim? Talvez, se o filme não afetasse tanto o espectador. Se fosse compositora, Petra, certamente, teria feito uma canção. Ao virar cineasta, ela se expõe e comove de outra maneira. Usa palavra, som e imagem. Tem a capacidade de tocar mesmo quem nunca viveu uma perda. E consegue com ‘Elena’ uma emocionante tessitura de afetos.


ASSISTA


‘Elena’, de Petra Costa. Exibição: quarta a domingo, no Cine Líbero Luxardo (Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves (av. Gentil Bittencourt, 650, Nazaré). 


Datas e horários:
14 a 17 (quarta a sábado) – 19h


18 (domingo) – 17h e 19h


21 a 24 (quarta a sábado) – 19h


25 (domingo) – 17h e 19h


Ingressos: R$ 8 (com meia entrada para estudantes). Informações: 32024321


(Diário do Pará)

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