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Philippe Dubois reflete sobre as novas tecnologias

segunda-feira, 12/08/2013, 07:57 - Atualizado em 12/08/2013, 08:13 - Autor:


“O que se tornou a fotografia quando nos deparamos com imagens criadas ou manipuladas digitalmente? Isso ainda é fotografia? Em que sentido? Ou passou a ser outra coisa? E nesse caso, o que é? Não há mais uma distinção clara entre fotografia, cinema e vídeo. A gente ainda não compreende o regime de visualidade que o digital permite”, questiona Philippe Dubois. Em conferência ministrada na última quarta-feira (7) em Belém, o teórico belga refletiu sobre os rumos da imagem diante as mudanças impostas pelas novas tecnologias, fenômeno batizado por ele de “pós-fotografia”.


Destaque da programação do II Encontro de Análise do Discurso na Amazônia (EDIA) e do I Colóquio Internacional de Discurso e Mídia na Amazônia (DCIMA), realizado na semana passada na Universidade Federal do Pará (UFPA), o professor da Universidade de Paris III (Sorbonne Nouvelle) é autor de alguns dos mais importantes tratados teóricos do campo da imagem, como “O Ato Fotográfico e Outros Ensaios” (1983) e “Cinema, Vídeo, Godard” (2004).


Segundo o autor, na pós-fotografia a imagem perde seu caráter de cópia do real, espelho documento, para se tornar em uma peça de ficção, transformando a realidade. “O uso da tecnologia na imagem traz uma série de dúvidas: o que vemos é real ou imaginado? Criação ou registro? Infelizmente, eu não tenho respostas para estas questões, apenas hipóteses”, reiterou.


Para exemplificar sua teoria, Dubois apresentou uma série de artistas contemporâneos que vem expandindo a função da fotografia como suporte. Na obra “Mimic” (1982), de Jeff Wall, um grupo de pessoas caminha pelas ruas de Vancouver, no Canadá. Em primeiro plano um senhor asiático, seguido por um casal. O homem que puxa o braço da mulher com violência, puxa um de seus olhos com o dedo, ridicularizando o senhor ao seu lado. “A foto que parece um flagrante, na verdade, é um elaborado embuste. Todos na foto são atores e a imagem foi pensada pelo fotógrafo como uma cena de um filme. Nesse caso a foto é usada para produzir ficção, ela subverte o conceito da fotografia de rua, do instantâneo fotográfico, para criar uma realidade”, revela.


Em outro trabalho de Jeff Wall, “An Eviction”, a foto de 1988 apresenta panorâmica de um subúrbio. Percebe-se ao longe uma viatura, com um principio de discussão entre os moradores e o policial. Ainda faz parte da obra uma sucessão de slides, expostas no canto da foto. O recorte mostra em close-up as reações dos moradores durante a batida. “Nesse caso, a situação também é encenada. Pessoas foram inseridas posteriormente na imagem, sobrepondo duas fotos. Ele sustenta com a obra que não existe um acontecimento, imortalizado no tempo, sob um único ponto de vista. São várias as versões”, explica.


Imaterialidade


Outra característica da pós-fotografia são as fotos que se movimentam ou que duram. Como é o caso da foto “Carnac” (1983), de Didier Morin. O título do trabalho é uma referência ao sítio arqueológico na França, conhecido pelos seus monólitos, imensos blocos de pedra escavados pelo homem há milhares de anos. “Essas rochas imóveis por tanto tempo, vibram nas fotos de Didier. Ele segura o aparelho nas mãos, próximo ao peito. Quando respira, esse movimento fica impresso na imagem. O monólito, símbolo da imobilidade, ganha vida com a tremedeira”, afirma o professor.


Outra interessante característica possível com a tecnologia digital é a imaterialidade da imagem. Transformado em dados, a foto não precisa mais de uma plataforma física para existir. Na instalação “Amidst”, de 1994, Susan Tragmar montou uma floresta em uma galeria de arte com a ajuda de oito projetores de vídeo. 


Philippe Dubois conclui sua apresentação falando sobre composição, característica nomeada em sua teoria do pós fotográfico como fotografia de conjunto. Na obra “Mes Voeus”, de Annette Messager, um imensa mural é composta por 232 fotos de diferentes, cada uma representando uma parte da anatomia humana: lábios, seios, mãos, rostos. “A intenção da artista é representar a ideia do corpo fragmentando. Reagrupando cada pedacinho do corpo em novas conexões. Então o que acontece se a imagem não é mais um bloco, feita de uma imagem só? Representando um único ponto de vista, por exemplo? Existe ai uma ilusão de unidade, o que não deixa de ser paradoxal”.


(Diário do Pará)

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