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Poesia visual com gosto de mar

sexta-feira, 09/08/2013, 07:42 - Atualizado em 09/08/2013, 07:48 - Autor:


Das qualidades que cercam a escrita de Virginia Woolf, a maior delas talvez seja a habilidade de penetrar tão profundamente a existência humana a ponto de diluir a fronteira entre devaneio e realidade. 


Admiradora da obra da ensaísta inglesa, Danielle Fonseca também consegue essa estranha façanha com a fotografia. Diante de suas imagens, só nos resta tirar os sapatos e, como num transe, lá estamos com os pés na areia úmida, as ondas quebrando, a pele molhada de sal. 


“Sou apaixonada pela obra da Virginia, mas o que mais me chama atenção como artista visual é a capacidade dos seus textos me remeterem a ‘cenários’, mesmo que eu nunca tenha estado neles pessoalmente”, diz a artista. “Para Virginia, a paisagem é mais um estado de consciência”. 


Esse princípio também rege a primeira exposição individual de Danielle, “Contraia os olhos: subitamente o ar parece estar mais salgado”, lançada ontem e aberta à visitação a partir de hoje na Kamara Kó Galeria. A exposição reúne imagens e objetos tridimensionais – todos concebidos sob forte influência da literatura, conta a artista. Da narrativa introspectiva de Woolf à poesia concreta de Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos. 


Essa não é a primeira vez que Danielle incursiona pela escultura. Em 2005, ela concebeu três peças de grande porte como parte da pesquisa sobre o livro “Caminho de Marahú”, de Max Martins. Imensos objetos de ferro foram instalados em direção à cabana do poeta na praia do Marahú, em Mosqueiro. Ali, mais uma vez, o olhar margeando palavra e água. 


Nas esculturas que integram a mostra na Kamara Kó, a artista desenhou e construiu pranchas de surf ancestrais feitas de madeiras flutuantes, “Uma espécie de base mágica”, ela diz, referenciada na obra do italiano Piero Manzoni. Controverso como sempre, Manzoni apresentou ao público, em 1961, uma espécie de pedestal: no sarcástico jogo criado pelo artista, bastava subir ali para que qualquer espectador se tornasse também obra de arte. ‘Contraia os olhos...’ traz ainda uma placa fixada no poste em frente à sede da galeria, localizada numa rua estreita de casarões antigos, em pleno bairro da Campina.


“Na verdade, me apropriei da placa, ela existe em outro lugar. Está escrito: ‘Atenção! Entrada e saída de maré ao longo’. Fotografei porque achei diferente. Nesses locais, os moradores já sabem que não podem estacionar, porque o mar invade”, explica Danielle. 


Imagem e objetos bebem na fonte da literatura 


A frase que dá nome à exposição evoca a obra de Caio Fernando Abreu, mais uma leitura citada por ela como decisiva enquanto influência de seu processo artístico. Trata-se de uma referência ao conto ‘Marinheiro’. “Imagine alguém que quando vê um marinheiro passar garante que subitamente o ar fica mais salgado, chega até a arder os olhos. Acho esse trecho muito imagético, muito envolvente”, comenta. 


“Contraia os olhos: subitamente o ar parece estar mais salgado” também promete outras surpresas. A parede colorida num anil infinito, cenário para as pranchas criadas por Danielle, é mais que um convite ao mergulho. “Há ainda outra instalação mais sensorial, uma homenagem à praia que circunda o Hotel Farol”, ela antecipa. “Você já reparou que quando a maré seca aquele lugar vira um jardim? Essa vontade de jardim vai estar lá na Kamara Kó também”, antecipa, em tom de mistério. 


O filósofo Daniel Lins assina a curadoria da exposição – também ele uma forte influência literária para a criação visual de Danielle. Ela conta que depois de ler o texto ‘Deleuze: o surfista da imanência’, de autoria de Daniel, um grande universo de possibilidades se abriu para sua produção. Desse espasmo, nasceu o roteiro do filme ‘A Vaga’, realizado em 2011 por meio da Bolsa de Pesquisa e Experimentação do Instituto de Artes do Pará (IAP). Começava ali a pesquisa que cruza surf e filosofia. “O surf é muito mais que um desporto, é dança, performance, reflexão. Arte contemporânea em sua essência”, define Danielle.


Daniel exalta “o traço do humano na paisagem” como eixo central do trabalho fotográfico da artista. “Há ali uma narratividade ainda mais forte. É sempre pelo meio que as imagens de Danielle passam: como uma carta no correio: Palavra e água! A caixa de correio é bem mais que um objeto natural que nos revelaria seu ‘conto’, escrito com cânticos ou cicatrizes, ou que nos falaria do processo que a produziu: aqui o objeto não é o fruto de uma intenção, mas de uma vibração”, poetiza. 


A ARTISTA


Danielle nasceu e vive em Belém. Elementos da literatura, música e paisagem compõem a produção desta artista, que começou seus trabalhos em artes visuais em 2000. Recebeu o Grande Prêmio no Salão Unama de Pequenos Formatos (2011) e no Salão Arte Pará (2001 e 2003). Além do IAP, também foi contemplada com a Bolsa de Pesquisa em Artes Visuais da Fundação Ipiranga (2007). Entre as principais exposições e salões estão “Sobre Ilhas e Pontes” – Galeria Cândido Portinari (Rio de Janeiro-RJ/2010); “Fotorio 2009” – Espaço Oi Futuro; e “Faxinal das Artes” – Museu de Arte Contemporânea-MAC, resultado do projeto de residência artística “Faxinal das Artes”, em Curitiba (2002).


PRESTIGIE


Exposição “Contraia os olhos: subitamente o ar parece estar mais salgado”, da artista visual Danielle Fonseca. Visitação de hoje até o dia 21/09, de terça à sexta, das 15h às 19h, e aos sábados, das 10h às 14h, na Kamara Kó Galeria (travessa Frutuoso Guimarães, 611, Campina). Entrada franca. Informações: 3261-4809 / 3261-4240.


(Diário do Pará)

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