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Secretário de Cultura fecha as portas do diálogo

domingo, 04/08/2013, 12:51 - Atualizado em 04/08/2013, 13:48 - Autor:


Na entrevista coletiva realizada poucos dias antes da XVI Feira do Livro, em 2011, o secretário de Cultura Paulo Chaves diz que o evento daquele ano corresponderia à décima-primeira edição da feira, ignorando a gestão petista anterior. A deselegante frase de Chaves não espantou quem conhece minimamente a trajetória do arquiteto. Se há algo pelo qual Paulo Chaves sempre pareceu nutrir desprezo é a ‘esquerda’. Já a admiração pela ‘direita’ vem de longe.


Na véspera do Golpe Militar de 1964, Paulo Chaves era um dos integrantes da facção ‘lenços brancos’, integrada por jovens filhos da elite de Belém. Sob a batuta inspiradora do coronel Jarbas Passarinho, os ‘lenços brancos’ invadiram o auditório da União Acadêmica Paraense, onde ocorreria a abertura do Seminário Latinoamericano de Reforma do Ensino Superior. O cenário foi de pancadaria generalizada contra os estudantes de ‘esquerda’ presentes ao seminário.


Três dias depois do golpe de 64, enquanto a ditadura iniciava perseguições políticas e cassações, Paulo Chaves se congratulava com os militares no poder. É o que relata uma notícia publicada no jornal A Província do Pará do dia 03 de abril de 1964. 


Um grupo de 44 pessoas formado entre outros, por nomes como Ajax de Oliveira, Flexa Ribeiro, Aloisio Chaves, Ronaldo Passarinho, Osvaldo Melo, Oswaldo Mendes, Antonio Couceiro e Paulo Chaves Fernandes e liderado pelo professor Clóvis Moraes Rego, surpreendeu o general de Divisão Orlando Ramagem. Embevecido, o general ouviu a exaltação destacando a ‘magnífica atuação’ das forças armadas no episódio da implantação da ditadura. Ramagem era o Comandante da 8ª Região Militar. Passava das 17 horas quando o grupo exaltou o caráter cívico dos militares e ouviu em seguida a fala emocionada do general. Aplausos demorados quase abafaram as últimas palavras de Ramagem.


Anos depois, Paulo Chaves ainda parecia demorar a entender que a caça às bruxas comunistas tinham perdido a razão de ser. Durante as escavações para os trabalhos de restauração e implantação do complexo Feliz Lusitânia foram encontradas ossadas no Forte do Castelo. Há fortes suspeitas de que poderiam ser ossadas de militantes de organizações de esquerda dos anos 70, inclusive guerrilheiros do Araguaia. As ossadas foram retiradas e Chaves, secretário de Cultura, silenciou sobre o assunto.


Trajetória marcada por obras hiperbólicas


Silenciar já se tornou verbo incorporado à personalidade de Paulo Chaves. Durante as manifestações e atos do Movimento Chega!, outros interlocutores surgiram no cenário para dialogar com classe artística e produtores culturais que pedem, entre outras reivindicações a saída do titular da Secult. Chaves, até agora, não deu entrevistas sobre o assunto e, ao calar, se esquiva das acusações de uma gestão que falha ao deixar de promover uma política cultural consistente para o Estado.


Em 1994, Paulo Chaves assumiu pela primeira vez o posto de secretário estadual de Cultura. Vindo do Iphan, ele substituía Guilherme de La Penha que empreendia a reforma do Palácio dos Governadores, também conhecido como Palácio Lauro Sodré, para transformá-lo no que viria a ser Museu Histórico do Estado Pará. Espaço tombado desde 1974 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Patrimônio,


aliás, é uma seara na qual Paulo Chaves gosta de se inserir. Pertencem à gestão dele projetos de reforma e restauração de ícones da cidade como as do Theatro da Paz em 2000 ou mesmo as feitas com o projeto Feliz Lusitânia, como marca a reforma da Igreja de Santo Alexandre e a criação do Museu de Arte Sacra, por exemplo.


Mas, estranhamente, outros marcos importantes da história da capital paraense, passaram ao largo do olhar e atenção do arquiteto. O teatro São Cristóvão é um desses casos. Apesar de vizinho de bairro – quase em frente à sede da Secretaria de Estado de Cultura - segue em ruínas. No mais perfeito abandono, a antiga casa dos Pássaros Juninos, tombada pela Secult em 2010, desponta apenas com um projeto de restauração


pelo Departamento de Patrimônio da secretaria. Ao contrário das obras que levam a assinatura de Chaves, não parece haver pressa para tirá-lo do papel.


O gestor da cultura estadual também se tornou conhecido pelas cifras grandiosas dos projetos que tomou frente ou realizados sob a tutela da Secult. 


CIFRAS


Na revitalização dos armazéns das Docas do Pará e reconfigurados no Complexo Turístico e Gastronômico da Estação das Docas, o projeto começou em 1997 com orçamento de R$ 6 milhões. Os


números foram crescendo, crescendo até alcançarem a exorbitante quantia de R$ 37 milhões. O Festival de Ópera do Theatro da Paz deste ano também vai acumulando cifras milionárias. O orçamento já passa dos R$ 2 milhões.


Na mais recente edição Feira Pan-Amazônica do Livro – evento idealizado por ele – os números também foram altos. É preciso reconhecer. Os dados oficiais apontaram 400 mil visitantes e a expressiva movimentação de mais de R$ 15 milhões. Um fator que garante o êxito do evento é o Cred-Leitura, crédito especial dado a professores de ensino médio e superior do Pará. Sem ele, as vendas, provavelmente, cairiam consideravelmente.


Por outro lado, os dados encobrem bastidores bem mais complexos. Livreiros e editoras daqui não têm tratamento diferenciado. Concorrem, em iguais condições, com as grandes editoras e livrarias. Os pequenos tentam se equilibrar e se adequar ao sistema. Do valor da venda bruta de livros, devem ser deduzidas todas as despesas. Aluguel do metro quadrado, alimentação, transporte, manutenção do estande ao longo da feira. Porcentagem da venda de livros (30 a 50%), linha de internet, telefone, estacionamento, entre outros fatores.


Os números grandiosos que pairam sobre a trajetória de Chaves, para o bem e para o mal, acabam por reforçar as teorias de detratores, que o definem como megalomaníaco. Já os defensores, o classificam como mecenas. E numa comparação desproporcional, aquecem a vaidade ao colocar os feitos do secretário de Cultura no mesmo patamar dos


empreendidos pelo arquiteto Antônio Landi, responsável por grandes transformações na paisagem de Belém. É como se explicassem a busca quase obsessiva de Paulo Chaves em inscrever também o próprio nome na geografia e história da cidade.


‘A noção de cultura do secretário está errada’ 


O escritor e dramaturgo paraense Nazareno Tourinho afirma que pouca coisa o tira de casa. Porém, aos 78 anos, com a saúde debilitada e o peso da idade, ele saiu da reclusão e fez questão de discursar na manifestação do “Movimento Chega!”, ocorrida na manhã do dia 25 de julho em frente à sede da Secretaria de Cultura do Estado do Pará (Secult). No discurso, o tom de indignação de um homem que viveu desde muito jovem de e para o teatro. 


Nazareno recebeu a equipe do Você na sala de estar da casa onde mora desde a década 1980. Sentado na poltrona intencionalmente disposta para que as visitas visualizem os diplomas e títulos expostos na parede, recebidos por ele ao longo da carreira. Na ocasião, explicou o porquê da participação no protesto e opinou sobre o trabalho desenvolvido por Paulo Chaves à frente da pasta de cultura desde o governo de Almir Gabriel, com uma pausa durante os quatro anos do governo da petista Ana Júlia.


“Ouvi falar nele no tempo da ditadura militar. Quando diziam, e eu não posso confirmar se é verdade, que ele tinha apoiado o golpe militar de uma forma eticamente condenável. Houve uma reunião de estudantes contra o golpe e os direitistas que apoiavam a ditadura combinaram com a polícia para acabar com a reunião da seguinte maneira: a polícia chegaria batendo em todo mundo, mas não devia bater em quem tivesse com um lenço amarrado no pescoço, pois esses eram a favor e não contra. E o Paulo Chaves estaria lá com o tal lenço amarrado no pescoço. Isso é o que circulava na época”, conta Tourinho.


Segundo Nazareno, Paulo Chaves não ficou conhecido como um intelectual, mas como alguém que chegou ao poder pelo compadrio. “Eu sempre tive o Paulo Chaves como um filhote da ditadura, um cara de direita, reacionário”, diz. Depois do episódio, Tourinho conta que não teve mais notícias dele, até Chaves voltar ao cenário político como secretário de cultura em 1995. “Nessa época diziam que o Almir era padrinho dele, foi ele quem deu a secretaria pra ele. Diziam que era afilhado do governador”, recorda. 


‘visão elitista’


Nazareno argumenta que a insatisfação é legítima e que encontrou na postura “retrógrada e antidemocrática” assumida pelo secretário, um símbolo a ser derrubado. “Admito que ele é um arquiteto talentoso, que sabe fazer construções bonitas e que por isso deveria ser secretário de obras e não de cultura. Para administrar os interesses da cultura uma pessoa tem que ser de espírito democrático e o Paulo Chaves é por natureza, por formação, um aristocrata, ele tem uma visão elitista. A concepção que ele tem de cultura, de arte, é puramente hedonística”, aponta o dramaturgo.


“A arte é autotélica, só tem compromisso consigo mesma, é uma livre criação do espírito humano. A arte ou é livre ou não é arte, ou produz beleza ou não está se realizando, não está cumprindo seu papel. A arte existe para contemplação, não tem compromisso com nenhuma doutrina, nenhuma ideologia”, argumenta. 


Com a voz forte, que destoa da fragilidade física, Tourinho é enfático: “Só tem um detalhe que eles esquecem, esses teóricos que produzem os ‘Paulos Chaves’ da vida: que não existe arte sem artista, e o artista é um ser humano antes de ser artista e todo ser humano tem que ter compromisso com o bem, com a vida, justiça, liberdade, fraternidade, racionalidade. Ninguém pode viver pra sua concepção de beleza. O artista tem compromisso para com os outros seres humanos, para com sua terra, seu povo, com a história, com a linguagem, com as crenças. Porque a cultura é um processo que envolve múltiplos fatores que não são só intelectuais, são também de memória, emocionais, sentimentais”, discorre. 


A cultura é um processo que dá característica a um povo. Logo, uma gestor público desta área precisa compreender a noção e a finalidade da cultura. É nisto que acredita o escritor. “Ninguém está querendo massacrar o secretário, ninguém quer execrá-lo, falar contra a dignidade do Paulo Chaves. A noção de cultura dele está errada, por isso deve deixar o cargo. O povo paraense merece um outro secretário de cultura e tem muita gente preparada para assumir essa posição. Outro motivo é que ele já está no cargo há muito tempo, ninguém deve se perpetuar, deve haver renovação, é salutar, a troca é saudável”, opina.


E continua: “Um secretário de cultura deve ter uma visão holística e universal da coisa, aí entra o fundamental, o que é essencial: a administração da cultura tem que ser democrática e não autocrática, ser transparente. Ele está se valendo do discurso da meritocracia nessa administração, ou seja, grupos que têm algum reconhecimento devem ser prestigiados. Mas a meritocracia privilegia pessoas conhecidas do seu grupo, os seus apaniguados, o problema do Paulo Chaves é que ele não tem um visão geral de política, e tem que haver uma política cultural. Falta a ele essa visão”, finaliza.


Personalismo que autoriza desmandos


Quem transitava pelos arredores da praça Frei Caetano Brandão, na noite de 27 de julho, encontrou um cenário intrigante. Na parede lateral da Casa das Onze Janelas, um imenso cartaz estampava o rosto do secretário de cultura do Pará, Paulo Chaves Fernandes, acompanhado da palavra ‘Desaparecido’, como nos filmes de bang bang. 


Na mesma noite, em outros pontos de Belém, se multiplicaram cenas curiosas esculpidas por luzes projetadas. Numa delas, Paulo Chaves aparece vestido como o personagem Esqueleto, vilão do desenho animado ‘He-Man’ – cuja principal característica é a obsessão pelo poder. A ação do coletivo artístico Pyranga Oby Obi também espalhou pela cidade frases como ‘Fora Paulo Chaves’ e ‘Jatene, troca a fechadura da cultura’, que transformaram momentaneamente a aparência de prédios como o Hangar e o Palacete Bolonha.


A imagem que você vê na capa deste caderno, no entanto, tem uma simbologia singular. Ali, Chaves empreendeu um de seus maiores desmandos. Durante a execução do projeto Feliz Lusitânia, Paulo decidiu derrubar o muro centenário que cercava o Forte do Castelo. E foi o que ele fez. “Sem o muro, privilegiou-se a visualização do castelo. Mas era um muro centenário, fazia parte da história, e Paulo derrubou. No momento em que as pessoas começaram a reagir, a não querer a derrubada do muro, o Ministério Público Federal foi acionado. Paulo derrubou o muro de madrugada. Estava ali um fato consumado, reforçando a velha máxima do Barata, de que “lei é potoca”, diz o jornalista e sociólogo Lúcio Flávio Pinto. “Aquele era sim um símbolo da dominação militar, mas faz parte da história, era um testemunho de época. Você não pode destruir isso. Uma sociedade que tem o conhecimento da história não permite esse tipo de decisão. Ele desnaturou aquele espaço”, considera, enumerando outros abusos que marcam a trajetória política de Paulo Chaves. 


“A igreja de Santo Alexandre, por exemplo, deixou de ser igreja, passou a ser um salão de casamento da elite endinheirada de Belém. Perdeu sua função. Eu frequentei muito quando era adolescente e hoje, quando entro ali, sinto essa descaracterização do espaço”, afirma Lúcio Flávio Pinto. 


O Hangar, Centro de Convenções e Feiras, também figura nessa lista. Erguido na década de 1950, o espaço foi remodelado e transformado por Paulo Chaves em local de feiras e eventos em maio de 2007. A reforma custou R$ 102 milhões. 


“Foi o mesmo valor empregado na construção da Alça Viária, uma das maiores pontes estaiadas do Brasil. Paulo Chaves não discute com ninguém. É uma pessoa inteligente, criativa, que conhece o que faz. Mas pelo fato de não discutir, parece que ele é o dono da cidade. É um absurdo gastar tanto dinheiro em obras que poderiam ser mais baratas. Porque ele tem que trazer o vidro da Bélgica pra colocar no Hangar?”, argumenta o jornalista.


CONTRASTE


“Quem disse isso pela primeira vez foi o Almir Gabriel, no primeiro mandato. Eu até achei que tinha ouvido errado. Na verdade, o Paulo é o novo dândi, não o novo Landi”. No trocadilho arguto, Lúcio Flávio Pinto acentua o gosto pela elegância material, o cuidado extremo às aparências que sempre circundou a figura de Paulo Chaves.


“O Landi fez época, criou um barroco tardio que surpreende os europeus. E qual o projeto que está por trás dos gastos e dessa linha maneirista que o Paulo Chaves adota? Não é um projeto de história, de poder. É um projeto pessoal”, ele diz. “Porque este projeto está em contraste com a realidade”. 


Orçamentos elásticos e desrespeito à história 


Concentrado nesse projeto e determinado a ocupar o posto no qual o colocam seus pares, Paulo Chaves não vê limites orçamentários. Todos os valores podem ser expandidos, ampliados, a seu próprio critério. “A personalização excessiva faz mal. É uma pessoa de extrema qualidade, mas não sabe trabalhar nos limites do serviço público. Paulo Chaves é uma pessoa polêmica, mas que trava essa polêmica de uma posição de poder, como secretário. Usando o poder institucional que tem, Paulo Chaves não vai a nenhum debate, não se expõe. Continua na posição do déspota. Tem coisas que ele fez que são maravilhosas. mas o critério que ele adotou, a hierarquia da obra, o custo... ele não vê limites para o próprio desejo”.


CULTURA DAS APARÊNCIAS


Lúcio Flávio lembra de um episódio ocorrido em 1972, quando produzia um suplemento na Província do Pará. “Era uma espécie de Pasquim local, e certa vez tivemos uma entrevista com o Paulo Chaves. Tivemos um bate-boca sério, uma das poucas vezes em que discutimos em público. E o Paulo nessa época não tinha nenhuma ligação com o poder. Foi uma discussão dura. Paulo tinha uma visão muito abrangente da cultura, ele é um sujeito muito articulado, inteligente. Mas acredito que a maior parte dos livros que ele cita, ele não leu. Então eu tocava muito nesse aspecto da cultura das aparências, do superficial. E o Paulo se mostrou um grande intelectual, abrangendo grandes temas”, lembra Lúcio Flávio Pinto.


“Note que ele ainda não estava no poder. Ele só entrou no poder treze anos depois. Em 1985, quando Almir foi nomeado prefeito biônico de Belém. Então, esta é uma visão de cultura diferente, uma cultura iluminista fora de época. Porque ela não se expõe, ela não está aberta ao debate, ao alcance das pessoas. Ela desce, com uma decisão às vezes certa, às vezes errada, mas inteiramente arbitrária, sem vinculação com a sociedade. O Paulo nessa época [1972] ainda estava ao alcance do debate. Hoje ele está fora de alcance”, afirma.


OLHAR ATENTO


“A grande política cultural seria a formação e apoio intelectual. Hoje ela é voltada aos espetáculos, São João, Carnaval, subsídios, eventos. Ninguém sabe quanto se gasta, nem quais os critérios”, avalia o jornalista, emendando que um olhar mais atento e preocupado por parte da própria sociedade também poderia alterar essa equação. “O que eu acho é que a sociedade tem pouco controle. A cidade é muito omissa, muito alienada. E, sobretudo, a nossa elite não está disposta a se expor a risco nenhum. Anda de carro blindado, peliculado, mora nessas torres altas, tem segurança, gasta dinheiro lá fora, não investe aqui. Então é uma cultura feita de exclusivismo, de isolamento”.


(Diário do Pará)

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