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Projeto mobiliza moradores do ‘Beco do Carmo’

terça-feira, 30/07/2013, 07:40 - Atualizado em 30/07/2013, 07:43 - Autor:


“As pessoas costumam julgar o Beco sem conhecer. Aqui é violento como é em todo lugar. Tem problemas como qualquer parte da cidade. Não é esse inferno que todo mundo diz, não”, afirma João Bosco, 17 anos, morador do Beco do Carmo, no bairro da Cidade Velha, em Belém.


Localizada entre a Igreja do Carmo e o Mercado do Porto do Sal, a rua estreita segue o muro do prédio histórico até desembocar nas águas do rio Guamá. Foi ocupada na década de 1970, erguida no terreno de uma empresa de navegação. Atualmente, a precariedade das palafitas e pontes de madeira contrasta com a elegância dos casarões centenários vizinhos que circundam a Praça do Carmo.


Há dez anos o adolescente vive ali com os pais e os dois irmãos. Desde menino sofreu com a discriminação dos moradores mais antigos. “Pra eles, nós somos invasores. Eu cresci aqui, poxa”, lamenta o estudante do 3º ano do ensino médio.


Entretanto, João Bosco se prepara para reescrever sua história. Ele participa de um grupo de seis jovens moradores do Beco do Carmo selecionados para o programa “Ação educativa das obras de restauro da Igreja do Carmo”. A iniciativa patrocinada pela Vale visa a capacitação de monitores para visitas guiadas durante as obras de restauração do edifício. “Só acabamos com o preconceito se integrar essas pessoas. E qual a melhor forma de fazê-lo do que dando visibilidade para elas? Do que as transformando em protagonistas?”, defende o artista plástico Armando Sobral, coordenador e idealizador do projeto.


Conhecer para aprender a valorizar


“O Beco do Carmo existe há quase 40 anos. Já faz parte da realidade do bairro. São eles que vão cuidar desse patrimônio. Do que vale mais uma ação de revitalização material sem inclusão social?”, defende o artista plástico Armando Sobral, coordenador e idealizador do projeto.


A estreia do programa está prevista apenas para o final de agosto. Mas desde maio eles vêm recebendo treinamento ministrado por arte educadores, historiadores e arquitetos. As aulas ocorrem de manhã e de tarde, no próprio canteiro de obras. Cada aluno que participa do projeto é contemplado com uma bolsa mensal de R$ 300.


O trabalho de monitoria ainda é composto por dez estudantes de arquitetura da Universidade Federal do Pará (UFPA). O público será recebido por essa equipe, composta por um acadêmico e um morador.


“Na visita, o público poderá aprender além da história do prédio em si, um pouco da história das ordens religiosas, da fundação de Belém, do período Pombalino. Arquitetura, história da arte. Quando você entra na Igreja do Carmo, ela se transforma em um livro de história. Basta saber ler e interpretar as suas paredes”, define Sobral. 


HISTÓRICO


Construída em 1626, dez anos após a fundação de Belém, a Igreja Nossa Senhora do Carmo foi obra ordem dos carmelitas calçados. A única característica que conserva desse período é o altar mor: em 1760 passou por uma reconstrução encabeçada pelo arquiteto italiano Antônio Landi (1713-1791).


“Alguns anos antes, em 1756, o prédio ainda recebeu uma nova fachada, que veio de navio, diretamente de Lisboa. Por isso a Igreja do Carmo é tão única, ela junta característica do barroco português e do rococó, além de antecipar o estilo neoclássico de influência italiana”, define Virginia Diniz, especialista em Patrimônio Cultural e integrante da Associação Fórum Landi, vinculada a UFPA.


Entretanto, as décadas de negligência com o imóvel obrigou uma intervenção de emergência. No dia 18 de fevereiro foi iniciado restauro para sanar o problema de infiltração que começou como um acúmulo de detritos na abóboda da Igreja e se alastrou por todo o prédio. Os serviços de restauração envolvem a recuperação do átrio, nave, capela mor, coro, capela de adoração, capela da ordem terceira e toda a área externa. Ele ainda prevê a substituição do sistema elétrico e de iluminação; e a implantação de sistema de segurança e de combate a incêndio.


Orçado em R$ 3.881 milhões, o projeto arquitetônico de restauro e conservação foi estabelecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), pelo qual é tombado, sob gestão da arquidiocese de Belém. Ao todo, as obras levarão 14 meses para serem concluídas.


BLOG


Mesmo em meio a pilhas de material de construção e andaimes cobrindo boa parte do interior do templo, é difícil não se encantar com a beleza do local. É João Paulo, 19 anos, quem nos apresenta a construção histórica.“Repare no formato de cruz da nave central. Ela representa a cruz latina, uma característica da arquitetura barroca. Mas além disso, Landi resolveu fazer a construção desse jeito por uma razão prática: o eixo termina no altar mor da antiga igreja, que ele resolveu manter no novo projeto”, explica.


Ele e sua irmã Isabella Correia, 16, participam do projeto. “Já conhecia a igreja, de vir à missa, essas coisas. É um lugar especial, mas eu não tinha noção do quanto”.


O maior esforço nesse sentido tem sido o blog Beco do Carmo. Mantido pelos próprios estudantes, a página surgiu dentro de uma das oficinas de inclusão digital do projeto. O espaço vem se transformando em um interessante recorte da realidade do Beco e seus moradores, como por exemplo a entrevista com uma das primeiras habitantes do local, Alcídia Correa. “Faz 40 anos que moro aqui. Era só um caminho. Não tinha taberna, não tinha nada. Não tinha esse negócio de tiro. Essa barbaridade que tem agora”, diz.


Com a pesquisa de campo e levantamento de dados executados pelos participantes do projeto, se estuda posteriormente criar um memorial. “Projetos como esse são necessários, justamente porque revitalizar um lugar significa integrá-lo à nossa realidade, não aliená-lo. A existência do Beco do Carmo não ameaça o bairro do Carmo, nem a igreja. O que não podemos é manter uma visão comercial e excludente na manutenção do patrimônio histórico, como tem sido feito em Belém. Com esses jovens tomando a iniciativa, participando ativamente, quem sabe eles façam com que as suas histórias e de sua comunidade finalmente sejam ouvidas”, avalia Armando Sobral.


(Diário do Pará)

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