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Dominguinhos ‘sofisticou’ a sanfona

domingo, 28/07/2013, 10:09 - Atualizado em 28/07/2013, 10:09 - Autor:


Luiz Gonzaga, o Gonzagão, sempre o considerou como o maior discípulo, aquele que continuaria a trilha iniciada pelo ‘Rei do Baião’ anos e anos atrás. Estava certo e errado. Certo porque desde que viu o pequeno José Domingos de Morais tocando uma promissora sanfona na porta de casa, quando o menino tinha entre oito e nove anos e o acolheu como futuro músico, Luiz Gonzaga sabia que Dominguinhos tinha um dom especial. Havia talento de sobra ali, e o ‘velho Lua’ sabia disso. Mas Luiz Gonzaga erraria um tantinho na previsão. Mesmo tendo o forró e o baião como berço, Dominguinhos ousou passos diferentes, voos maiores e mais complexos, fugindo em determinados momentos da influência certeira, mas um tanto aprisionadora do grande mestre.


Dominguinhos flertou com o jazz, imiscuiu-se na música de câmara e nas grandes orquestras e espalhou seu legado e contribuição em outros estilos da MPB, sendo parceiro de nomes tão diversos como Gilberto Gil e Lenine. Acabou dando à sanfona um status até maior que Luiz Gonzaga. Com ele, o instrumento ganhou ares de sofisticação. Tanto que no extremo sul do país, Renato Borghetti acabaria, influenciado, fazendo o mesmo com a gaita sulista, parente direta da sanfona nordestina. 


O pai de Dominguinhos consertava e afinava sanfonas. Aparentemente se poderia dizer que aí se teria a influência romântica dos sons ouvidos. Mas o apelo vem de emoções mais brutas. A pobreza. Nascido em Garanhuns, que também pariu um presidente da República, Dominguinhos foi desde cedo apresentado à fome. Para escapar dela, dedicou-se com afinco a aprender a tocar o instrumento e ir catar uns trocados na frente de igrejas, hotéis e onde mais fosse possível, junto a mais dois irmãos.


É aí que entra Luiz Gonzaga. Dominguinhos tocava em frente ao hotel onde Gonzagão estava hospedado e esse caiu de amores pelo som que ouviu. Convidou o garoto a ir para o Rio de Janeiro com ele. Quatro anos depois, Dominguinhos resolve encarar o convite. Se torna músico de Gonzaga. Viaja pelo Brasil com o mestre e com ele aprende.


Queria mais, no entanto. Aprimora-se como arranjador, mistura-se ao povo da Bossa Nova, faz trabalhos musicais diversos. Em meio aos ventos fortes do Tropicalismo, em 1967, conhece a cantora Anastácia, casa com ela e mais tarde comporiam os dois a canção que mudou a vida de Dominguinhos. “Eu só quero um xodó”. Gravada por Gilberto Gil se torna um clássico instantâneo. Depois ganha o mundo com dezenas de regravações.


Apelidado de sanfoneiro pop, Dominguinhos entendia que não eram necessárias amarras sonoras. Tudo era música, tudo era possível. Foi assim que acabou por ganhar prêmios como o Grammy Latino em 2002. 


Nos anos 70, já querido por gente como Maria Bethânia, Toquinho e a iniciante Elba Ramalho, ajuda a revalorizar as músicas de Luiz Gonzaga, o velho mestre. Nas imensas voltas que o mundo dá, Dominguinhos acabaria por retribuir a Gonzagão o impulso dos primeiros tempos. Sem Dominguinhos, um pouco do saudável ecletismo musical que pode ser trabalhado na música regional se perde. Com tantos forrós plastificados atualmente, isso irá fazer falta. 


Inventivo, Dominguinhos transitou entre o jazz, o choro e a bossa nova 


José Domingos de Moraes, Dominguinhos, morreu no final da tarde da última terça-feira, 23, no Hospital Sírio Libanês, onde estava internado desde janeiro para tratar das complicações de um câncer no pulmão. O sanfoneiro, herdeiro de Luiz Gonzaga, estava com 72 anos. A cantora Guadalupe, casada com o músico, disse que passou a tarde com ele, ao lado de seu leito, dizendo o quanto era especial, o quanto ela queria que ele ficasse com a família.


Juntos, ouviram ainda a música Casa Tudo Azul, do próprio Dominguinhos, a que seria a de sua despedida. “Casa tudo azul, eu me lembro de você / Mas hoje foi difícil lhe deixar / todo amor que havia em meu retrato podes ver / e tudo que eu vivi nesta janela vai passar.” “Ele partiu assim, lentamente, foi embora com os anjos”, disse Guadalupe.


Era sanfona mesmo. Com ele não tinha esse negócio de acordeão. Acordeão, acordeona, gaita - tudo coisa do pessoal do Sul, acostumado a inventar moda pra deixar chique o que era do povo. Zezinho queria era saber de tocar, e tocar igualzinho ao pernambucano cara de lua cheia de Exu e de voz potente que um dia o viu comendo uma sanfona com farinha na rua, ao lado dos irmãos com quem formava o grupo Os Pinguins, e o convidou para ir morar no Rio de Janeiro. José Domingos de Morais foi e ganhou de Luiz Gonzaga um belo fole de 120 baixos. A partir daí, seria Dominguinhos para sempre.


O cetro de uma nação nordestina inteira foi passada para ele antes mesmo que o Rei do Baião morresse. Luiz Gonzaga dizia a quem quisesse ouvir que seu maior seguidor, muitas vezes maior do que ele mesmo, era aquele moleque danado de Garanhuns, com voz menos potente mas dedos muito mais ligeiros.


Dominguinhos ainda não era um mito, mas seria para ele que o mundo olharia quando quisesse saber de baião, xote, xaxado, forró. “Não é tudo a mesma coisa não. Cada nome é um ritmo muito diferente do outro”, ensinava. Mais: o jovem de sorriso grande e fácil estudou um pouco mais do que Gonzaga e pulou a cerca para a fazenda do vizinho. Aprendeu assim a fazer jazz, choro, bossa nova. O que lhe caía nas mãos ele tocava. E com uma entrega que fazia a testa de Gonzaga suar nas vezes em que os dois se apresentavam juntos.


(Diário do Pará)

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