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Espetáculo ‘Eros Impuro’ chega a Belém

terça-feira, 23/07/2013, 07:31 - Atualizado em 23/07/2013, 07:32 - Autor:


Sérgio Maggio havia acabado de sair de um longo período de pesquisa por conta do espetáculo “Cabaré das Donzelas Inocentes”, que tratava sobre a prostituição, quando começou a analisar e a discutir sobre a tela pintada pelo artista plástico Jones de Abreu, há 26 anos trabalhando também com o teatro. No quadro, Maggio descreve, um homem sem camisa está com a mão posicionada de uma forma que sugere estar saindo de dentro da bermuda. 


Depois de uma madrugada de conversas com Abreu, Maggio escreveu em 2008 aquele que seria o argumento da próxima peça da ‘Criaturas Alaranjadas Cia. de Teatro’, de Brasília. Intitulada “Eros impuro”, a montagem faz uma temporada gratuita em Belém de hoje até o dia 26 de julho, às 20h30, no Centro Cultural Sesc Boulevard. 


Dirigida e escrita por Sérgio Maggio e protagonizada por Jones de Abreu, a peça trata de forma poética e artística sobre o abuso sexual contra crianças e adolescentes. No palco, Jones dá vida a Andrei, um artista plástico com uma obsessão de infância em conseguir pintar a tela do homem sem camisa com a mão na bermuda. “O espectador é levado a juntar as peças que o personagem dá, vai criando o espetáculo junto com o Andrei. Não há uma linearidade, a peça é fragmentada”, detalha Maggio. 


Com classificação indicativa de 18 anos por mostrar, durante os 50 minutos de espetáculo, vídeos com casais mantendo relações sexuais, a questão do abuso não é exposta de forma realista. Está incluída nas entrelinhas dos monólogos, gestos, expressões e composições do cenário de “Eros Impuro”. De início, o espectador acredita que está dentro do atelier de artes de Andrei, “mas aos poucos vai percebendo que esse lugar vai virando um hospício”, conta o diretor. 


A temática que compõe o espetáculo foi baseada em várias pesquisas feitas tanto pelo diretor quanto pelo ator. De “Cabaré das Donzelas Inocentes”, Maggio extraiu as histórias de infância que as prostitutas contavam. “Uma das principais causas da prostituição é o abuso sexual na infância e na adolescência e essas histórias me afetavam muito”, conta o diretor. 


Maggio também fez pesquisas em reportagens sobre o tema, conversou com repórteres, com vítimas da violência, com médicos e psicólogos e tentou entender o máximo possível os dois lados das histórias. Enquanto isso, Jones visitou hospital psiquiátricos para conversar com vítimas de abuso sexual, que muitas vezes têm como sequela o transtorno psicológico. 


De tudo isso, tanto diretor quanto ator perceber que o adulto que abusa de uma criança ou um adolescente está, na maioria das vezes, em um ambiente de convívio com a vítima, o que facilita o uso de estratégias de sedução para o erotismo com palavras, gestos e atitudes. “O que mais marcou foi essa tentativa de entrar na cabeça do abusador, que veio por meio dos relatos que nós colhemos”. E essas estratégias são mostradas também na peça. 


DESAFIO


Depois de passar por Brasília, Vitória, Goiânia, Recife, Salvador, Curitiba e Belo Horizonte, “Eros impuro” chega a Belém por escolha da própria companhia. “Uma das grandes dificuldades do Brasil é você conseguir circular com o teatro. A gente está em estado de êxtase por ter conseguido chegar a Belém”, revela Maggio durante a entrevista concedida por telefone ao VOCÊ enquanto visitava o Complexo do Ver-o-Peso. 


Com a realização de bate-papos após cada apresentação da peça em Belém, a companhia de Brasília espera instigar o público em um local marcado, também, pela violência contra crianças e adolescentes. “A gente espera que o espetáculo afete o espectador na forma de pensar e que não banalize o tema. Nós queremos tornar o público um multiplicador, torná-lo consciente ao ponto de perceber e denunciar uma situação estranha. Tem pessoas que às vezes pensam ‘Ah! Eu não tenho nada a ver com o que acontece na casa do vizinho’. Tem sim! A estrutura de fiscalização ainda é ruim, mas se a gente cria um volume de denúncia, o Estado vai ser obrigado a fazer a parte dele”, desabafa Maggio. 


Mesmo que a prática do abuso sexual ainda seja forte no Brasil, o diretor de “Eros impuro” enxerga melhorias com relação às reflexões, denúncias e atuação social, como por exemplo o aumento de ligações para o Disque 100, que ajuda a denunciar crimes como esse. “Antes era algo que estava só dentro de casa, que não era denunciado. Hoje você acessa a internet e sempre encontra uma denúncia de abuso sexual”, analisa Maggio. 


Além de apresentar o espetáculo, a “Criaturas Alaranjadas Cia. de Teatro” realiza também a oficina “O exercício da crítica teatral”, ministrada por Sérgio Maggio, mestrando em Crítica Teatral pela Universidade de Brasília (UnB). O curso será oferecido de forma gratuita no Sesc Boulevard de amanhã a sexta, 26, das 15h às 18h, com inscrições pelo email [email protected] 


PRESTIGIE


Espetáculo “Eros Impuro”, da “Criaturas Alaranjadas Cia. de Teatro”, de Brasília. De hoje a sexta, 26, às 20h30, no Sesc Boulevard (av. Boulevard Castilho França, 522/523 – Campina). Classificação: 18 anos. Entrada franca. Informações: 3224-5654.


(Diário do Pará)

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