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Um personagem de múltiplas faces

domingo, 21/07/2013, 09:16 - Atualizado em 21/07/2013, 09:16 - Autor:


Feche os olhos e tente imaginar o rosto de Jesus Cristo. Você consegue visualizar o messias de cabelo encaracolado ou negro? “Provavelmente, não. De onde vem essa ideia de um Jesus branco, loiro e de olhos azuis? O cinema é um dos principais divulgadores desse estereótipo”, vaticina o historiador carioca André Chevitarese, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 


O autor do livro “Jesus no Cinema – Um Balanço Histórico e Cinematográfico entre 1905 e 1927” (Editora Kliné), diz que é no cinema que o filho de Maria ganha uma aura pop e universal, pela própria capacidade do meio de disseminar entretenimento e informação em escala global.


“Nem mesmos os evangelhos descrevem Sua fisionomia. A imagem tradicional de Cristo não deixa de ser uma construção artística, definida principalmente pelo trabalho de pintores renascentistas como Leonardo da Vinci, Michelangelo”, explica.Como é o caso do filme “The Horitz Passion Play” (EUA, 1987), do diretor Walter Freeman, considerado o primeiro filme a narrar a história de Jesus. O filme é baseado nas representações da Paixão de Cristo, os esquetes que narram a Sua crucificação, morte e ressurreição, comumente encontrados nos vitrais e murais das igrejas católicas desde o final da Idade Média. 


ENTREVISTA


O que chama a atenção é que as primeiras produções surgiram de forma espontânea, sem relação formal com a igreja. Os grandes estúdios só seriam formados no começo dos anos 1930, deixando terreno aberto para produtores independentes que enxergaram nos cristãos um público em potencial.


“De onde vinham as histórias que os cineastas estavam contando sobre Jesus? Eles estavam fazendo pesquisas? Não, pelo contrário. Trabalharam com modelos já disponíveis pelas instituições religiosas. Tanto que a leitura de Jesus feita no cinema carrega alguns ranços fundamentalistas, como o discurso anti-judaico. Nas tramas, os antagonistas sempre são os judeus”, conta.


Entretanto, a igreja não vê com bons olhos a “homenagem” e se sente ameaçada com a perda do monopólio sobre o sagrado. O surgimento de produções religiosas também marca o da censura. A pressão das “Ligas pela Moral” culminou com o estabelecimento do British Board, o primeiro órgão de censura britânico, fundado em 1913. Nos anos 1920, foi a vez dos Estados Unidos ceder ao lobby da Igreja com a criação do Código Hays. 


Especialista nas áreas de História e Arqueologia Antiga Grega e Romana, André Chevitarese se voltou aos anos 2000 para o estudo das experiências religiosas, o que rendeu livros como “Jesus Histórico. Uma Brevíssima Introdução” e “Cristianismos, Questões e Debates Metodológicos”. O cinema foi acrescentado na equação quando trabalhou na preparação de elenco de “Maria, Mãe do Filho de Deus” (2003) e foi consultor de “Irmãos de Fé” (2004), ambos dirigidos por Moacyr Góes. “Os filmes funcionaram como um laboratório para a minha pesquisa. É. Acabei virando objeto de estudo”, avalia. Às vésperas da Jornada Mundial da Juventude, que reunirá jovens de todo o globo em terras cariocas, o historiador revela ao VOCÊ os planos de desdobrar ‘Jesus no Cinema’ em uma trilogia. E também sobre como é ser colega de trabalho do Padre Marcelo Rossi. 


P: Como você chegou nesse tema? Existia alguma convicção religiosa permeando a escolha?


R: Sou pesquisador do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nos últimos 15 anos, me voltei a examinar as experiências religiosas sob uma perspectiva histórica. Enquanto intelectual, quero qualificar a formação dos historiadores, dos estudantes, evitando o fundamentalismo religioso, em busca do respeito para com o diferente. Jesus salva para quem acredita nele, mas o menino que crê na Umbanda também está salvo. Foi em busca de disseminar a tolerância religiosa que eu me voltei para objetos que são do campo de trabalho do padre, do pastor.


Muito se critica a postura do fundamentalismo islâmico em como eles protegem com violência a imagem do profeta. Entretanto a própria ideia de fundamentalismo migra dos EUA no início do século XX e vai ser usada como sinônimo dos excessos cometidos pelos radicais mulçumanos. A censura ao cinema é o que serve de estopim para o fenômeno.


P: Como foi a reação da Igreja Católica às produções religiosas? É de se imaginar que eles ficariam felizes com a propaganda.


R: A reação inicial da Igreja foi até positiva, pois viram no cinema mais um canal de catequese. Mas lhes incomodava não ter o controle de quem falava sobre sua fé. ‘Rei dos Reis’, de Cecil B. de Mille (EUA, 1927), retrata um Jesus muito liberal para os padrões da época: bebe vinho, senta de perna aberta, fala com as mulheres. Outro caso que chocou na época foi o filme “The Birth, the Life and the Death of Christ” (1906), da diretora francesa Alice Guy. Imagine o escândalo que foi na época uma mulher contar a história sobre o nascimento e a morte de Jesus. Sem contar que ela era uma ativista do movimento sufragista, que lutava pelos direitos de voto entre as mulheres.Eles sabiam o impacto desses filmes. Os fiéis não estavam vendo uma representação de Jesus. Eles estão vendo Jesus na tela. No começo do cinema o sentimento de deslumbramento era maior ainda: era como ser testemunha ocular da história. Caminhar por Jerusalém, se tornar uma testemunha dos sermões.


P: Você prepara mais dois livros sobre o assunto. Do que cada um vai tratar?


R: O segundo volume vai de 1932 até 1961, incluindo filmes como o francês Golgota (Golgotha), de Julien Duvivier, de 1935 e “O Rei dos Reis”(King of Kings), do americano Nicholas Ray, de 1961.Nesse período, as produções são impedidas de falar diretamente de Jesus por causa da censura. Existia uma lei inglesa de 1911 que impedia filmes com imagens frontais do rosto de Jesus. Então começaram a surgir produções que contavam essa história a partir do ponto de vista apóstolos como Pedro, Paulo, garantindo a conotação religiosa desses filmes, mas nada de forma explícita.Essa construção é logo subvertida pelos cineastas, como é o caso do dinamarquês Carl Th.


Dreyer, que em “Ordet” (1955) - filme que gira em torno de um jovem que se diz a encarnação do Nazareno - transporta o drama do século 1 para o 20. Essa mudança de perspectiva é o que marca o uso dos evangelhos no cinema, não é a respeito de religião, é sobre como essas narrativas nos afetam hoje.


Já o terceiro volume começa em 1964 e abrangem a retomada do tema pelo cinema europeu, até “A Paixão de Cristo” (2004), de Mel Gibson. O interessante é notar que essa produção, ao mesmo tempo que fica mais livre com a queda das leis de censura, ela retorna a tradição do Jesus sofredor, anti-judaica do início do cinema.Mesmo sem a censura, filmes foram proibidos como “Eu vos saúdo Maria”, de Jean Luc Godard. O longa de 1985, que reconta a história da gravidez de Maria através da figura de uma estudante parisiense, apesar de ter sido lançado em um Brasil pós ditadura militar, não passou pela malha fina da opinião pública e da Igreja.


P: Apesar da sua visão crítica, o senhor trabalhou em dois filmes de temática católica ao lado do Padre Marcelo Rossi. Como pintou o convite?


R: Eu participei desses filmes a convite do Moacyr Góes, que inclusive assina a introdução do livro. Eu topei fazer o trabalho porque ele demonstrou um interesse de fazer uma leitura das escrituras um pouco mais abrangente. Em “Irmãos de Fé”, eu extrapolei essa linha e trouxe um pouco mais de tensão ao colocar Paulo dentro de uma sinagoga, remetendo aos primórdios do cristianismo, de um Jesus judeu. Em “Maria...”, eu queria que os atores entendessem as tensões daqueles personagens sob a luz da nossa época. Que fosse uma parábola para os nossos problemas. Continuam sendo filmes religiosos, não há nada de subversivo ou polêmico neles, mas existem todas essas camadas de subtexto ao drama. Se eu tivesse que filmar a minha versão de Jesus, nem meia dúzia de gatos pingados ia aparecer no cinema.


P: O que acha que o Padre Marcelo acharia do seu livro se o lesse?


R: Acho que o padre Marcelo diria que é algo produzido por alguém que não tem dimensão do sagrado. Que acredita só no que a ciência pode explicar. Mas no dia em que eu ficar de joelhos e orar, vou perceber que Deus é muito maior do as minhas conjecturas a respeito Dele.


P: E o que você responderia a ele?


R: O mundo é plural é diverso. Apesar dele provavelmente não estar a par do meu trabalho, eu tenho lido o que ele publica, justamente para entender o que ele pensa. Eu posso até não concordar, mas preciso conhecer. Eu me permito conhecer a retórica dos religiosos, até para poder refutá-la com qualidade. Infelizmente, a recíproca não é verdadeira. Os teólogos não costumam ler o que os historiadores escrevem. Acho que seria bem mais cristão da parte deles se o fizessem. 

(Diário do Pará)

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