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O destino dos mestres de cultura popular

quarta-feira, 17/07/2013, 08:59 - Atualizado em 17/07/2013, 09:01 - Autor:


Como pescador, Mestre Pelé garantia o sustento. Mas era o carimbó que lhe dava fôlego e o fazia respirar sem ter medo. Na definição do próprio filho, o também cantor e compositor Raimundo Rodrigo dos Santos Silva, 30 anos, o pai era um homem persistente. Graças a esta característica, ele lutou durante um ano e meio contra problemas cardíacos e pulmonares, que o venceriam na noite do último sábado.


No RG, a alcunha de Domingos da Silva. Mas foi como Pelé que ele conquistou a cultura popular paraense e o título de mestre. Residente do município de Marapanim, um dos principais berços do carimbó, que abriga mais de 40 grupos, o mestre ganhou destaque pelas letras de suas composições e arranjo despojado.Na tarde da última segunda-feira, com a voz fraca e um choro contido, Rodrigo discorria sobre o pai com o peso do falecimento ainda muito forte sobre seus ombros. Por telefone, ele informou que Mestre Pelé morreu às 22h do sábado, 13 de julho, aos 54 anos, devido ao quadro de insuficiência respiratória. “Muito novo e cheio de planos”, recorda o filho.O mestre deixa um legado inédito de mais de 200 músicas e seis filhos que pretendem dar continuidade ao trabalho desenvolvido por ele em Marapanim. “Crescemos nesse meio, tocamos com ele e aprendemos muito sobre a cultura popular com ele. A ideia agora é dar continuidade ao grupo”, adianta Rodrigo, referindo-se ao “Flor da Cidade”, comandado pelo mestre há mais de 15 anos.

Além da continuidade, Rodrigo pretende transformar a casa do pai em um museu. “Vamos expor os instrumentos feitos por ele, os CDs, os figurinos, fotos ampliadas. Será o momento de reverenciá-lo. Quem chegar vai poder fazer uma seleção das músicas que mais gosta, gravar em CD para levar como lembrança. Nossos esforços serão para manter vivo o trabalho dele”, comenta entre pausas para conter a emoção.


No dia 28 de junho, Mestre Pelé completou 54 anos. Dois anos antes, perdera a esposa. Há cerca de seis meses, se dividia entre temporadas em hospitais e o retorno para a casa. “Foi acontecendo tanta coisa que ele queria desistir de se cuidar, de fazer os tratamentos. Quando fiquei sabendo, publiquei no Facebook um pedido para todos que o conheciam. Queria que eles mandassem mensagens pro celular dele para dar forças”, comenta Luizinho Lins, coordenador de eventos do espaço cultural “Coisas de Negro”, responsável por ajudar a divulgar o ritmo.


O apelido de Pelé veio da infância, quando praticava o futebol como hobby. Naquela época, ela já acompanhava Mestre Lucindo pelas rodas de carimbó em Marapanim, Lucindo foi o mestre do mestres. “Ele era uma referência forte no trabalho do meu pai com certeza. Aprendeu muito com ele. Aí fundou o grupo em 1992 e ninguém mais o parou. Gravou quatro CDs, o último com o título de Carimbó Gostoso”, diz Rodrigo. 


Dificuldades financeiras até o fim da vida


A enfermidade se agravou no início do ano passado. Mestre Pelé passou mal durante apresentação no Festival de Carimbó de Marapanim. Este ano, nem chegou a se apresentar com o Flor da Cidade. Na última semana, ficou quatro dias internado no pronto-socorro de Belém e chegou a ter alta, voltando para o município de origem, mas depois voltou a passar mal e retornou a Belém. No entanto, não resistiu aos problemas pulmonares que já vinha tendo. O corpo do mestre foi enterrado em Marapanim.


O filho conta que as dificuldades das escolhas do pai refletiam direto na família. “O trabalho artístico dele não dava pra sustentar a casa. Ele teve que continuar trabalhando e intercalando a pesca com a carreira. Talvez por isso ele tenha passado por tanta dificuldade, até de atendimento, já que foi tudo em hospital público”, reclama Raimundo Rodrigo. As canções inéditas estão arquivadas com ele e vai precisar de ajuda para conseguir transformá-las em álbum póstumo e coletâneas. 


No último domingo, a roda de carimbó Coisas de Negro, de Icoaraci, reverenciou o trabalho do mestre. “Ele tinha uma forma de compor diferente, nas letras do Mestre Pelé tudo podia virar tema, desde o futebol ao processo de globalização. As estrofes também eram mais longas, a forma de cantar também imprimia uma identidade muito forte”, lembra Luizinho Lins.Era reconhecido pelo público do carimbó como um dos grandes compositores de Marapanim, ao lado de figuras como os mestres Lucindo e Cantídio.Com dificuldades financeiras e sem o olhar do poder público, o Pará perdeu mais um mestre da cultura popular.


CICLO


O que liga grande parte dos mestres da cultura popular paraense que já partiram é o pouco reconhecimento em vida. A dificuldade de manter seus grupos, a necessidade de ter outra fonte de renda para continuar resistindo. Poucas são as exceções. A história se repete, modificaM-se apenas a geografia e o momento. No ano passado, o Pará perdeu Mestre Cardoso, 79, o amo do boi Ouro Fino, de Ourém. “Ele trabalhava no solo e se aposentou como lavrador, tinha essa relação com a natureza. Montava o cavalo como ninguém, parecia um moleque. Parecia que se entendia com os bichos”, lembraria o amigo Arlindo Matos em matéria publicado no Você, em setembro daquele ano. E deixaria um importante legado, mesmo que bem menos reconhecido do que merecia, como destacaria à época o músico Ronaldo Silva, fundador do Arraial do Pavulagem. 


“É mais um personagem histórico que se despede distante da dignidade que queremos para esses colaboradores da música brasileira, e, mesmo com essas dificuldades, ele não conseguia deixar de ser uma figura a favor da alegria”. 


Com Mestre Cupijó, outro que faleceu ano passado, o legado também ficou à mercê da memória. Parte de uma geração de músicos que ousaram transformar os ritmos populares do interior do Estado em sucessos radiofônicos, a partir da inserção de diversos elementos inovadores, Cupijó reinventou o siriá. Com a profissão de advogado, garantia tranquilidade na vida financeira. A herança cultural deixada por ele, no entanto, também acabou rendendo apenas homenagens póstumas, num ciclo que se repete. “Vamos perdendo esses mestres de nossa música sem conhecer profundamente a história deles, a trajetória. Muitos só têm gravações em LPs e isso vai sendo perdido. Agora, será apenas mais uma homenagem póstuma”, lamentou em entrevista para o Diário a jornalista Luciana Medeiros, diretora de um documentário sobre Mestre Vieira.


(Diário do Pará)

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