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Artistas realizam ato público em Belém

terça-feira, 16/07/2013, 07:33 - Atualizado em 08/08/2013, 22:19 - Autor:


Sem apoio para fazer brilhar suas histórias de princesas, caçadores, pajés, fadas e encantarias, quatro grupos de pássaros juninos não foram às ruas este ano. Tiveram de adiar a emoção do cortejo. Não se sabe por quanto tempo. “É assim que a brincadeira vai morrendo, se perdendo. A tradição vai se acabando”. O lamento é de Laurene Ataíde, 56, guardiã do grupo Colibri de Outeiro, fundado em 1971. Há 15 anos, ela recebeu da mãe a missão de ajudar a manter vivo esse que é um dos mais importantes símbolos da cultura popular no Estado. Tem sido cada vez mais difícil.


“A gente precisa de incentivo. Não basta cachê. As indumentárias e adereços são muito caros, a gente fica todo endividado. Tem o lanche dos brincantes, o transporte. Também é necessário pagar os músicos que nos acompanham, afinal, são profissionais. A gente faz esse esforço todo porque ama, porque é apaixonado”, diz. “Eu queria que os governos olhassem para os Pássaros Juninos como olham para o Carnaval”. 


Laurene estava entre as pessoas que lotavam as poltronas vermelhas do Teatro Cuíra na tarde da última quinta-feira, 11, durante a reunião que envolveu cerca de 150 artistas, técnicos e produtores em um debate sobre política cultural no Pará. Dentre as reivindicações do grupo, intitulado Movimento ‘Chega!’, a exigência de que haja mais transparência na gestão de recursos públicos, a abertura de linhas de financiamento e crédito pelos bancos do estado, voltadas à área cultural; a revisão do Plano Plurianual (PPA), aprovado no último dia 2, na Câmara Municipal de Belém; e, principalmente, a renúncia do secretário Paulo Chaves. “É ele o símbolo maior desse descaso. Só negociamos depois que Chaves deixar a Secult”, reforça o ator e diretor teatral Adriano Barroso. 


REUNIÃO


Integrantes do Movimento ‘Chega!’ voltam a se reunir hoje em um ato público, marcado para as 8h, com concentração no Teatro Cuíra. Somente lá será divulgado o local da manifestação. 


“A saída do secretário é simbólica, é chave. Mas isso é insuficiente. Temos que mudar essa lógica, instituir de fato outra política cultural no Estado. Isso passa pela lei Valmir Bispo Santos [aprovada e sancionada em julho de 2012, e que implementa o Sistema Municipal de Cultura], que precisa ser consolidada”, diz Valcir Santos, membro da coordenação do Fórum de Cultura de Belém (FCB), que inclui mais de cem entidades relacionadas à cultura.


“O que nós temos hoje é uma política de eventos. O trabalho da Fumbel [Fundação Cultural do Município de Belém], se resume à realização do Carnaval e do arraial junino. O Sistema Nacional de Cultura propõe uma política abrangente, envolvendo vários setores. Deve ser implementado este ano. Foi o que ficou acertado em uma reunião no dia 28 de janeiro com a atual gestora da Fumbel, Heliana Jatene”, explica. 


O próximo passo é a formação do Conselho Municipal de Política Cultural, com a eleição dos representantes de cada segmento. O edital já deveria ter sido lançado pela Fumbel, convocando a sociedade civil a eleger os seus representantes. Não foi.Valcir também defende a importância das Conferências de Cultura. A Conferência Municipal deveria ter sido realizada em junho, antes da eleição do conselho. Como isso não aconteceu, foi transferida para os dias 9, 10 e 11 de agosto. “Neste momento, serão discutidos quatro eixos fundamentais, que serão levados à conferência nacional, no final de novembro, em Brasília”, ele diz. São eles: implantação dos sistemas de cultura estaduais e municipais, diversidade cultural, cidadania cultural e economia da cultura. 


“Se tivéssemos um Sistema Municipal de Cultura, todos os eventos e resoluções passariam pela aprovação de um conselho. Evitaríamos situações como o deslocamento do arraial junino da praça Waldemar Henrique para a Orla de Belém. Mais valia revitalizar a praça, o que custaria cerca de R$ 600 mil aos cofres públicos, do que apostar em uma solução meramente paliativa. O arraial deste ano custou cerca de R$ 1, 7 milhão”, aponta. A Conferência Estadual de Cultura está agendada para os dias 11 e 12 de setembro. 


PLURALIDADE


“Acho que é o momento de reivindicar a ampliação de verbas e não divisão. Precisamos discutir e criar um programa que atenda a todos, levando por base o que se investe na música - ópera, Terruá, etc. Quem sabe formar um grupo de trabalho para construir um programa. Além disso, é preciso discutir investimentos e principalmente o que fica das riquezas da nossa terra. Participar mais da vida pública da cidade. Nos reinventar. Democratizar acesso à produção cultural. O Pará carece de um gestor à altura de seus sonhos e riquezas”, diz o ator, diretor e dramaturgo paraense Paulo Faria, que hoje reside em São Paulo. Suas palavras vêm sob a forma de uma carta de apoio endereçada ao Movimento ‘Chega!’. 


O descaso para com os mestres de cultura popular também foi lembrado por diversos artistas durante a reunião do dia 12. “Eles estão vivendo na linha da miséria. Os incentivos, parcos, são concentrados na capital. Nossa secretaria de cultura olha as manifestações populares de maneira preconceituosa, isso precisa mudar”, diz Pedrinho Callado.


Esta semana, o carimbó paraense perdeu mais um de seus mestres. Domingos da Silva, o Mestre Pelé, faleceu na noite de sábado (13), em Belém, deixando mais de 200 músicas inéditas. Relíquias que permanecem sem registro. Um legado ameaçado pelo esquecimento. 


Democratizar os investimentos é chave


Os discursos dos representantes das diversas linguagens artísticas tendem a convergir em uniformidade na tentativa de consolidar o movimento que ainda ganha forma. Garantir uma pauta de reivindicações única, para alguns, é a saída. Existem muitas concordâncias entre as categorias, o que aponta para um futuro breve em que será possível pontuar as insatisfações e torná-las documento de debate junto ao poder público.


“Precisamos começar do zero, primeiramente, democratizar os investimentos para a cultura no Estado. Verbas igualitárias para cada setor: cinema, teatro, música, dança, artes visuais, artesanato, etc. Em seguida, necessita-se pensar o Estado como Estado, e não como capital somente. Investir culturalmente nos interiores, não somente com eventos de arte, e sim na capacitação das pessoas, gerando emprego no setor cultural”, destaca a cantora Aíla Magalhães.


A valorização das artes populares também é um ponto que Aíla acredita ser primordial. “Nada justifica o alto investimento nos eventos de ópera da capital. Esse dinheiro poderia ser também aplicado em eventos populares, como os dos Pássaros Juninos, por exemplo”, reclama.


Experiente, o diretor e roteirista de cinema Januário Guedes conta que as demandas para a cultura no estado estão postas já há algum tempo. “Falta apoio realmente eficaz e permanente às diversas expressões e áreas, desde o audiovisual, que é a minha atividade artística, até aquelas ligadas ao fazer cultural popular, passando pelo teatro, dança, música, artes plásticas, circo, culinária, novas mídias, patrimônio, etc. Mas acredito que só com uma política de Estado que contemple as várias dimensões da cultura, desde sua dimensão simbólica até sua dimensão econômica, será possível avançar”, diz.


Para Januário, isso significa abandonar o que ele intitula de “política pires na mão”. “Abandonar o ‘balcão’, do paternalismo, do favorecimento político-eleitoral de grupos, e adotar uma outra política, que, através de instrumentos como fundos de investimento e editais, formação de mão de obra qualificada, entre outras ações, possa desenvolver a cadeia produtiva dos vários segmentos, a exemplo do que vem acontecendo com determinadas áreas da música, como o tecnobrega, que movimenta um volume apreciável de recursos mensais, segundo pesquisa da FGV em Belém”, argumenta.


O que está em jogo, neste momento, segundo a opinião de Januário, não se esgota simplesmente na substituição de nomes nos cargos ligados à gestão da cultura. “Este mote funciona um pouco como os ‘0,20 centavos’ das primeiras manifestações de junho. Então, espero que avancemos na direção de propostas que rompam o círculo vicioso desses procedimentos que estão aí e cheguem à definição de uma verdadeira política cultural, só possível com a participação da sociedade civil organizada”, completa.


A cantora Iva Rothe afirma que há tempos os artistas tentam emplacar algumas das reivindicações junto ao poder público e considera que o momento seja bastante propício para fortalecer esse diálogo. Como saída para o impasse, ela acredita em propostas específicas. “A implementação dos Fundos de Cultura, o repasse e uso da verba destinada à cultura nas três esferas são algumas de muitas delas”, comenta.


Iva também considera pertinentes as propostas de democratização dos bens culturais e dos meios de comunicação, de promoção e fomento da cadeia produtiva da cultura no Estado para além da realização de eventos pontuais, a transparência e inclusão dos artistas nos órgãos que deliberam verbas para o setor, e a reformulação das leis de incentivo à cultura. “Enfim, propostas de que sejam pensadas e implementadas, políticas culturais que abranjam o Pará em toda a sua dimensão”, finaliza. 


PARTICIPE


Ato público organizado por artistas e produtores culturais. Hoje, às 8h, com concentração no Teatro Cuíra (Riachuelo, esquina com 1º de março).


(Diário do Pará)

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