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Mostra ‘Catarse’ expõe o olhar de jovens

sábado, 13/07/2013, 09:46 - Atualizado em 13/07/2013, 10:18 - Autor:


Fazia calor e o trânsito era lento no trecho da BR-316 que dá acesso à estrada do conjunto Júlia Seffer na tarde da última quarta-feira. Após algumas curvas, a via transporta o condutor direto para um cenário de extrema pobreza, onde os conceitos de cidadania e direitos humanos são vencidos pelo de sobrevivência. No final da estrada de terra batida surgem imponentes caminhões de lixo ansiosos para depositar ali, no Lixão do Aurá, os rejeitos de uma sociedade urbana e consumista.


Não é lugar de criança. Placas espalhadas recentemente por todo o complexo, administrado pela Central de Tratamento de Resíduos Guajará graças a um contrato de parceria público-privada com a Prefeitura de Belém, proíbem a presença de menores. Ainda assim alguns ainda são encontrados trabalhando no local. “Não temos poder de polícia, para fiscalizar e tomar atitudes mais enérgicas quanto a presença deles aqui, mas realizamos um intenso trabalho de conscientização das famílias de que esse ambiente não é lugar para eles”, conta Ruth Guichard, assistente de projetos sociais da Central, enquanto se dirige para a casa de João de Jesus (nome fictício), 16 anos. O garoto trabalhou desde os 12 catando material reciclável e tudo que encontrasse de vendável nas pilhas de lixo. Mas ao longo da semana, ele viveu uma experiência nova. Deu entrevistas para jornalistas de vários veículos, tanto para jornal impresso, rádio, como para programas de televisão. Em pauta, as imagens feitas por ele durante uma atividade do curso de Agente de Comunicação e Mobilização Social realizado pela CTR. O garoto é autor de pelo menos 13 fotografias que compõem a exposição “Catarse”, aberta para visitação no Hangar - Centro de Convenções e Feiras da Amazônia desde terça-feira.


O curso, além de contribuir com a capacitação e sensibilização das crianças e adolescentes que já atuaram como catadores, também se propõe a encontrar agentes para contar as histórias do lixão. O espaço logo será desativado. Segundo Ruth, cerca de 20 jovens participaram das atividades e encaminharam imagens para a curadoria da exposição, assinada pelo fotógrafo Everaldo Nascimento. Dar voz a essas pessoas é uma maneira de mostrar como pequenas iniciativas podem trazer grandes resultados e ajudar a realizar sonhos. “A exposição está com o projeto que o Hangar realiza visando a preservação ambiental: o Hangar Recicla”, lembra Ruth. Com o Hangar Recicla, ao final de grandes eventos, uma equipe de catadores é chamada para dar um novo destino ao material que seria destinado ao Aurá.


A equipe do Você foi recebida por João em frente à casa dele, uma pequena residência de madeira, fechada na ocasião. “Meus pais estão viajando, eles acham melhor não abrir a casa”, explica o garoto com um sorriso tímido. Ali mesmo, sentados na mureta da construção da casa vizinha, João balbucia as experiências com a câmera. “Égua, não pensei que era assim, que pra bater foto tinha que saber aquelas paradas. Depois que o fotógrafo ensinou, tentei fazer seguindo a regra. Acho que deu certo, gostei do resultado”, comenta eufórico.


João evita falar do período de trabalho no lixão. Já no passado. Parece evitar o assunto por causa dos pais. “Eu ia lá e fazia o que tinha que ser feito. Pegava o dinheiro e gastava comigo”, argumenta o rapaz exibindo um aparelho nos dentes e luzes no cabelo. “Chegava no lixão três da tarde, de manhã eu estudo, saía de lá sete, oito horas [da noite]. Entrar pro curso e participar disso foi ótimo, aquilo não é vida, não tá valendo ficar lá”, afirma. Cursando a 3ª etapa do supletivo, que compreende a 8ª série do fundamental e o primeiro ano do ensino médio, João está indeciso na profissão que pretende seguir. Quer ser dentista ou virar fotógrafo. “Um dia vou ter uma câmera igual a dele [professor do curso] para fazer fotos minhas e colocar no Facebook”, deseja. 


Sobrevivência e exercício de cidadania


Com apenas 15 anos, o adolescente José Silva [nome fictício] ajuda em casa como pode. Atualmente, os R$200 - valor da bolsa por participar do curso promovido pela CTR - ajudam a compor a renda familiar. A quantia soma-se ao dinheiro da venda de pipas que confecciona e vende na própria casa. Casado com uma moça de 22 anos, ele explica que entende a situação dos pais, que ainda trabalham no lixão, e por isso aos 10 anos também foi parar ali, onde trabalhou até o início do ano.


Com uma postura madura e sorriso escancarado no rosto, sofreu muito preconceito por ser catador. Mas não se envergonha. “Eu mesmo não tinha, mas é ruim quando os outros te xingam, caçoam de ti e da tua família. Sempre entendi que era uma forma de sobreviver digna”, comenta. As imagens que encaminhou para a curadoria refletem a necessidade de autoafirmação. “Queria mostrar que eles têm dignidade, por isso encaminhei fotos que mostram, sobretudo, gente, pessoas, seres humanos”, explica José.A vida no lixão ainda é realidade para o pai de José, que pretende mudar essa história ao entrar nas forças armadas. “Vou me esforçar, quero me alistar e seguir carreira militar. Também quero cursar direito. Com a educação acho que é possível ajudar minha família mais ainda”, opina.


PROJETO


Aos jovens foi pedido que registrassem a própria realidade. Fragmentos de um passado recente guardado para sempre na memória. Na opinião de Everaldo Nascimento, o exercício da fotografia desempenhou um papel libertador na vida do grupo. “Eles puderem registrar e contar através dessas imagens um pouco do que já passaram. Acho que isso ajuda na percepção que eles têm de si próprios e como podem trabalhar isso como cidadãos”, comenta.


CONFERE!


Exposição “Catarse”, curadoria de Everaldo Nascimento, segue em cartaz até 15 de agosto, no hall das escadas rolantes do Hangar – Centro de Convenções e Feiras da Amazônia, localizado na avenida Doutor Freitas, s/n, no bairro do Marco, em Belém. Contatos: (91) 3344-0127 / 8134-7740. Entrada franca.


(Diário do Pará)

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