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Teatro com bonecos terá o espetáculo ‘Sirênios’

terça-feira, 09/07/2013, 07:52 - Atualizado em 09/07/2013, 07:55 - Autor:


Na geografia sinuosa das águas, eles encontraram a matéria para criar outros sonhos e a estrada para compartilhá-los. Na bagagem, não levam apenas roupas e equipamentos. Carregam arte concebida a partir dos momentos de afeto, espanto, admiração e cuidado com o rio. Esse mesmo rio que evoca tantos significados. Para o grupo In Bust de Teatro com Bonecos, ele se tornou inspiração e ponto de partida para uma nova jornada. Em julho, a trupe desbrava as águas da região amazônica para alcançar municípios e comunidades no Pará e Amapá com o projeto “Sirênios de Bubuia no Rio Amazonas”. A primeira parada é hoje em Alter do Chão, no oeste paraense.


Com o prêmio Myriam Muniz de Teatro, da Funarte, o projeto dá ao grupo a chance de reconfigurar o mapa de trabalho desenhado para toda uma vida. Ser conhecido no Brasil pela arte escolhida para se dedicar. “Mas principalmente no nosso Estado”, lembra a atriz Adriana Cruz, 41 anos. Tudo indica estar dando certo. “A gente acredita que sim. Há lugares aonde a gente chega que as pessoas vão para as oficinas porque já ouviram falar, já viram apresentações no espaço do Casarão [do Boneco, sede em Belém do grupo], que conhecem de alguma maneira”, completa. Com 16 anos de atividades e itinerâncias pelo Pará, faltam apenas 87 municípios para a meta ser conquistada. “Devagar e sempre”, brinca Paulo Ricardo Nascimento, 44 anos, ator e, ao lado de Adriana e Aníbal Pacha, um dos fundadores do grupo. 


Partir para o oeste do estado e chegar ao Amapá acabou por se transformar numa decisão nada aleatória. E também diz muito sobre a forma como o grupo concebe o processo artístico. São lugares onde a circulação de ações culturais custa caro. Pela distância, pela dificuldade de comunicação, pelo próprio acesso. Pela inviabilidade de atingi-los por outros caminhos. “É uma motivação”, justifica Paulo. 


Projeto passa por comunidade quilombola


O roteiro da primeira etapa da viagem inclui Santarém, Alenquer, Monte Alegre, Prainha e Almeirim no Pará, além do município de Macapá e a comunidade quilombola de Maruanum, no Amapá - em setembro, nova fase da circulação. Santarém e Macapá recebem ainda a oficina ‘Teatro com Bonecos’ para compartilhar com artistas e educadores dos locais a experiência de 16 anos do grupo com a linguagem. Em cada um desses lugares, o In Bust apresenta o espetáculo ‘Sirênios’, rebento das águas. Filho de Juruti, no Pará. Quando o barco em que o grupo navegava encostou no trapiche da cidade para receber novas cargas. Cestas e mais cestas. Paneiros e mais paneiros. Caixas e mais caixas. 


Comida, frutas. Toda espécie de variedade. Foi descer e parar para ver. As imagens ficaram na memória. Em 2006, o grupo montava ‘Sirênios’ e trazia como símbolo o peixe-boi para falar da relação do homem com os rios da região. A metáfora da sustentabilidade materializada em três narrativas que ressignificam objetos do cotidiano ribeirinho. Do navegador português, há dias no mar, que começa a ter alucinações e avista uma espécie de longe, em alto mar, acreditando ser uma sereia, mas na verdade é o ameaçado peixe-boi; para o amor proibido entre jovens índios de tribos inimigas, transformados no primeiro casal da espécie. O enredo emociona e silencia a plateia, que hipnotizada se encanta pela beleza e magia do espetáculo. A terceira história apresenta o peixe à mesa dos ribeirinhos depois de uma exaustiva caçada.


Velas de embarcações, cestarias, cuias e paneiros viram bonecos que atuam com os atores na cena mítica de Sirênios, espetáculo impregnado de referências dessa vida ribeira distante e muito próxima de todos nós. “Minha família é de origem ribeirinha, boa parte da minha infância foi morando numa casa na beira do rio no interior de Ponta de Pedras, na ilha do Marajó, então daí tu podes fazer uma ideia do quanto é significativo estar fazendo essa circulação. Fico imaginando qual vai ser a reação dessas pessoas que virem o espetáculo. Como vão olhar para aquela história e para aqueles materiais, que normalmente estão no cotidiano delas e que não imaginariam tal uso. Mas acho mesmo que nós seremos surpreendidos muitas vezes também”, acredita o ator Milton Aires, 30 anos.


Dessas surpresas, o In Bust se alimenta. A circulação acaba por ser muito mais do que a apresentação de espetáculos. É um mergulho cada vez mais interior na investigação de uma arte. Do teatro feito com bonecos. Do ator e boneco na mesma intensidade no palco. Em cada partida e chegada, a oportunidade de novas trocas e aprendizados. “O espetáculo é uma relação com o público. A gente tá sempre antenado para o que aquele lugar tem a dizer. E cada comunidade tem um olhar diferente. Já teve uma que organizou uma roda de conversa para contar a história de como eles foram parar ali. Para ter uma troca com a gente. A gente sempre dá um jeito de se aproximar, de trocar conversa”, diz Adriana Cruz. 


(Diário do Pará)

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