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Bragança é um lugar de memórias

segunda-feira, 08/07/2013, 08:58 - Atualizado em 08/07/2013, 09:50 - Autor:


Todos os espanhóis que chegaram a Bragança, no início do século 20, já faleceram. No entanto, dos lusitanos daquela época, Emília Antunes Castanho, 93 anos, é a mais viva herança portuguesa. Cidadã bragantina desde 2007, título honorífico recebido da Câmara Municipal de Bragança, órfã de pai, ela veio com mãe e a irmã mais nova, aos 9 anos de idade. Às vésperas de completar 94, Emília lembra perfeitamente do tempo em que chegou para morar com o tio Mário Antunes. O comerciante português deixou nome na história de Bragança, especialmente pelo incentivo à Marujada, ao Carnaval, às festas juninas e às pastorinhas de Natal daquela época. “Nós morávamos na travessa São João, que, atualmente, se chama Marcelino Castanho, nome do meu saudoso cunhado. Naquela época ali já era o centro comercial, no entanto, o movimento era completamente diferente de hoje em dia: não passava carros, as senhoras não iam fazer as compras no mercado e sim, os esposos; as moças e senhoras iam apenas a lojas de tecidos, de sapato”, conta a portuguesa que casou com Theodoro Castanho Gardunho, filho de espanhóis estabelecidos na colônia Benjamin Constant, com quem teve quatros filhos, nove netos e oito bisnetos.


“O principal movimento na travessa São João era o dos transportes de cargas que chegavam ao trapiche, quando estavam sendo levadas para a estação ferroviária, de onde seguiam para outros municípios e pra capital. Hoje, no centro de Bragança, mal se encontra um lugar para estacionar um automóvel, pelo menos, assim se queixam os meus filhos e netos”, relembra Emília, figurante imprescindível num dos cenários mais característicos de Bragança: o casario colonial do qual sua residência faz parte, na avenida Marechal Floriano Peixoto, entre as travessas Marcelino Castanho e a Senador José Pinheiro. É ali que todas as tardes, ela senta à porta para tecer lindos bordados, hábito tipicamente da Portugal de sua infância. Mas o coração segue pulsando por Bragança. “Aqui que fui feliz com minha família e meus amigos, portanto, aqui é o meu lugar”. 


A libanesa Leila Mikhael Sioufi, 68 anos, desembarcou por aqui em 1969, motivada pelo convite de um tio. Estabelecido como comerciante, ele estimulou a vinda de vários familiares. Quando Leila chegou, há quatro anos já não havia mais a Estrada de Ferro de Bragança, e o índice de carros, caminhões e outros automotivos estavam em voga e o principal acesso à capital era pela via Autoviária Bragantina. Na época, Leila já era missionária ortodoxa romana, em Miniara, Líbano, onde a religião de cunho católico tem grande força. E, ao aportar em terras bragantinas, encontrou ambiente ideal para dar continuidade ao trabalho que desenvolvia no Oriente Médio.


Hoje, Leila tem um espaço de evangelização no centro comercial e também pratica missão visitando residências. “Bragança é uma cidade catolissíssima, que logo me fez criar grande afinidade”, comenta a libanesa. Os sabores típicos também a fizeram se apegar ainda mais ao lugar. “Gosto muito de caranguejo, peixe, camarão e, principalmente, das frutas típicas daqui. E o que é mais curioso: essas coisas eu gosto de comer com farinha pura, inclusive as fritas e sucos, como os nativos, principalmente as pessoas das colônias, o que me leva a crer que Deus, como se sempre faz, me conduziu para o lugar certo, de onde só sairei por designação Dele, pois aqui me sinto muito feliz”.


Atualmente, Bragança figura entre os maiores produtores de pescado do Brasil, vocação que começou a ser explorada no final da década de 1980. Foi um divisor de água na economia do município a partir de então. Conquistado pela fartura de peixes, o japonês Takasuke Morinaka, 66 anos, adotou Bragança como pátria desde 1987, quando veio a passeio, pela primeira vez. Durante uma visita à praia de Ajuruteua, o massoterapeuta e empresário aposentado se deparou com um curral, em maré seca, no momento da despesca. “Eu fiquei impressionado com aquela fartura. Nunca tinha visto tanto peixe pulando enquanto o pescador recolhia num grande serão e então decidi me mudar pra cá naquela hora”, diz Morinaka, que por 12 anos atuou como exportador de pescado, até sofrer um acidente automobilístico, forçando a aposentadoria antecipada. Antes de Bragança, o japonês morou em Iguaracú (PR), São Paulo (SP) e Belém (PA). Mas acredita ter finalmente encontrado o local mais interessante para fincar raízes. “Não foi aqui que nasci, porque não isso é escolhido por nós. Mas quero viver em Bragança até meu último dia. Há tempos que aqui é o meu lugar, e assim será, até o meu fim”, conclui.


(Diário do Pará)

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