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Pássaros juninos pedem apoio para manter tradição

sábado, 29/06/2013, 11:10 - Atualizado em 29/06/2013, 11:16 - Autor:


A voz de Keyla Gentil ecoa uma canção familiar para quem acompanha as manifestações da cultura popular paraense. Mas a letra não fala de charminho nem de uma turma na laje ou de festas de aparelhagem. O que entoa é a canção do pássaro junino ‘Tucano’ na batida do tecnobrega. E sem nada ‘tecno’. Só há tambores e instrumentos acústicos. É o símbolo de uma tentativa de revigorar toda a beleza desse teatro popular musicado. E compõe o disco do projeto ‘Pássaros’, do Instituto de Artes do Pará, para recuperar parte de um tesouro cultural forjado no século 19. 

No pacote, ainda há um livreto e o documentário “O Teatro dos Pássaros”, do jornalista e cineasta Vladimir Cunha, que mergulha no universo dos guardiões dos pássaros juninos de Belém, misturando depoimentos e imagens de arquivo para mostrar o surgimento, processo criativo, o cotidiano de impossibilidades e os dilemas para perpetuar esse teatro que vem do povo. A ideia é lançar o projeto em setembro em um espetáculo musical com os artistas que cantam no disco “Tributo aos Pássaros”.

“Escutei muitas canções de pássaros, mas não quis me prender à tradição, afinal, minha ideia era desconstruir para construir. A versão da Keila é um exemplo! O disco não tem apelo pop, então aproveitamos pra experimentar, desconstruir e misturar as canções dos pássaros de forma que aproveitássemos as coincidências musicais com outros gêneros!”, explica Luiz Félix Robatto, diretor musical do CD.

É um dos caminhos que a instituição vem percorrendo para conseguir dar fôlego e visibilidade aos grupos que resistem às transformações na cultura e na memória de Belém. Além do projeto de registro audiovisual e fonográfico, o IAP incentiva e financia bolsas de pesquisa e experimentação ligadas a estudos e projetos sobre os pássaros juninos. Há ainda publicações que documentam o cancioneiro e a história das manifestações. Músicas, por sinal, têm tido atenção especial. “Conseguimos recuperar mais de 30 canções, além das que já tínhamos publicado”, comenta Tito Barata, gerente de Artes Literárias e Expressão de Identidade do IAP. Nas pesquisas, também há o mapeamento de 22 grupos da Região Metropolitana.

Entre os trabalhos promovidos pelo instituto, oficinas também já entraram no circuito de atividades. Nelas, os integrantes dos grupos ganham aperfeiçoamento nas áreas de adereçagem, figurinos, direção com profissionais da área. Mas não apenas isso. No início do mês, o Instituto promoveu um grande cortejo pelas ruas do bairro de Nazaré, a Revoada dos Pássaros e Bichos Juninos. Mais de 15 grupos participaram da programação. Um novo momento para brilharem. 

Entraves: burocracia e baixo orçamento

Na esfera municipal, os desafios esbarram na burocracia e no baixo orçamento. A Fundação Cultural de Belém (Fumbel) inseriu na programação da quadra junina do município 17 grupos de pássaros da Região Metropolitana. “A ideia é também inseri-los na Semana do Folclore”, comenta Marcos Marques, diretor de Ações Culturais da Fumbel. São grupos que recebem apoio financeiro de R$ 1.500 para custear a produção. “Sabemos que ainda é pouco perto da grandiosidade do espetáculo, mas ainda estamos trabalhando com os recursos da gestão passada”, justifica Marques. E quando o dinheiro chega tarde, também se explica. 

“Existem duas formas de repasse: a primeira é feita direto por convênio [com associações e ONGs, por exemplo] que recebe o recursos não só dos pássaros como dos bois, toadas e parafolcóricos. Por isso o dinheiro desses associados sai logo. Outra forma de receber o recurso, é direto como pessoa física, que realmente demora mais, pois o repasse é feito como cachê artístico direto, sendo que o empenho demora mais que o da subvenção. Por isso que aconselhamos os demais grupos a se associarem às ONGs e associações folclóricas que existem em Belém”, complementa.

Sem um palco próprio sob o poder municipal, a Fumbel fez parceria com o Museu Emílio Goldi, onde os pássaros se apresentam em uma programação semelhante à realizada pelo Governo do Estado, o Arraial de Todos os Santos, no Centur. É outro gargalo a contornar. “Estamos pensando na construção de um teatro municipal”, diz Marcos. Enquanto o palco ideal não se materializa, outras alternativas são pensadas.

“Como o Palacete Pinho”, aponta. A proposta é dar utilidade ao espaço que, segundo Marcos, passa por reparos para receber ainda em 2013, atividades e programações dedicadas às artes. Há ainda propostas para o Memorial dos Povos e Palacete Bolonha. “Aos poucos, a gente tá tentando se adequar, até que nosso teatro seja construído. A vontade do prefeito é que seja na orla”, acrescenta. 

Recuperar o São Cristóvão é um caminho

Em meio às propostas de construir um teatro próprio do município, surge a questão: por que não recuperar o teatro São Cristóvão? Tombado desde 2010 pela Secretaria de Estado de Cultura, o local já teve seu período de glória entre os anos 50 e 70. Era ali o principal palco dos grupos de pássaros. Agora, só a memória parece resistir às ruínas. Na Fumbel, há pedido de tombamento, ainda homologado. O que só deve ocorrer com a reativação do Conselho Municipal de Cultura, responsável por analisar e encaminhar pedidos do gênero ao prefeito. De acordo com Jorge Pina, diretor de Patrimônio da Fumbel, as medidas para reativá-lo já foram tomadas. Há ainda propostas para recuperá-lo. “Estamos tentando [recursos] pelo PAC das Cidades Históricas. Já foi encaminhado ofício [para o Iphan] em março e está em análise”, adianta Jorge. O orçamento propõe R$ 1 milhão e meio para desapropriação do prédio, R$ 250 mil para elaboração de projetos e quase R$ 5 milhões para obras de resturação. 

Rosário Lima, diretora do departamento de Patrimônio da Secreatria de Estado de Cultura (Secult), também aponta ações para o teatro. “A Secult tem um projeto de restauração para a antiga sede da Associação dos Chauffeurs do Estado do Pará e de reconstrução do teatro São Cristóvão, que foi levado ao Ministério da Cultura, que mostrou interesse em uma parceria com o Governo do Estado em sua implantação, por meio do Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), desde que a desapropriação fosse feita pelo Governo do Estado. Até onde sei, o processo para desapropriação ainda não foi iniciado”.

(Diário do Pará)

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