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Os figurinos de um cordão de pássaro junino

quarta-feira, 26/06/2013, 08:15 - Atualizado em 26/06/2013, 08:15 - Autor:


Um trabalho minucioso, cheio de detalhes concebidos por prazer e por amor à tradição paraense. Com paetês, miçangas, penas e tecidos dos mais diferentes tipos, os figurinos utilizados nas apresentações do pássaro junino Uirapuru são criados e confeccionados durante 12 meses que antecedem as apresentações do mês de junho do ano seguinte. “Cada roupa é feita sob medida. É difícil nós utilizarmos o figurino por mais de um ano”, diz Catarina Barbosa, 57 anos, que ao lado do marido Carlos Alberto Barbosa, guardião do grupo, cuida do Uirapuru desde 1997, pouco antes do fundador, Jorge dos Santos, falecer. 


Policiais aposentados e casados há 31 anos, Carlos e Catarina são os responsáveis por conceber as ideias dos figurinos e pôr em prática os projetos desenhados no papel. Os dedos, seu Carlos mostra, já machucados por tantas agulhadas que levou ao longo dos anos. “Tivemos que aprender a construir o figurino para ter mais garantia de que ficariam prontos a tempo e bem feitos. A Catarina já é costureira profissional, muito talentosa. Eu tive que aprender na marra, por necessidade”, conta Carlos, que pediu de São Paulo um curso completo de corte e costura para aperfeiçoar a técnica e valorizar mais o trabalho desenvolvido pelo grupo. 


Para o Uirapuru, o figurino é parte essencial - e às vezes a principal - da apresentação. “Dá vontade de ver o Uirapuru pelo figurino”, conta o guardião. E não seria para menos. Cada roupa, feita especialmente para o brincante que irá vesti-la, possui uma riqueza de detalhes capaz de impressionar até mesmo os que nunca assistirão a uma apresentação do grupo. O arranjo de cabeça utilizado pelo porta-pássaro, por exemplo, é talhado por dezenas de penas e pedrarias coloridas costuradas com cuidado para caber em quem vai vestir e, por isso, é a peça mais trabalhosa. O grupo tem guardado os adereços de cabeça para construir um acervo que será exposto em comemoração aos 50 anos do Uirapuru, em 2017. 


Trabalho coletivo para garantir a permanência da arte


Tanto esforço para levar ao palco beleza e qualidade nos figurinos e adereços não sai barato. Todos os anos, Carlos e Catarina chegam a tirar do próprio bolso cerca de R$ 10 mil em materiais e estrutura para concretizar o projeto - muitas vezes são eles que pagam o lanche dos brincantes que participam dos ensaios. O apoio dado pela Prefeitura não é o suficiente e costuma chegar tarde, quando tudo já está comprado e pronto. 


Além das dificuldades financeiras, o grupo Uirapuru, assim como tantos outros, ainda precisa transpor barreiras para se manter vivo na cultura do Estado. “Acho que o que mais falta é a divulgação do nosso trabalho por parte dos órgãos e instituições públicas”, opina Carlos Barbosa. 


Para atrair o público, os grupos de Pássaros Juninos têm passado por adaptações constantes para não perder espaço e poder concorrer de igual para igual com outros atrativos e manifestações culturais que têm crescido no Pará, como a televisão e o tecnobrega. Assim, uma das missões do Uirapuru é a de sempre inovar nas apresentações. Em 2013, o grupo incorporou o tango como parte do espetáculo. Ao lado dele, outros ritmos como a dança do ventre e o samba também foram incluídos. 


No total, são produzidos entre 10 e 15 figurinos por ano. Hoje, Catarina também costura e vende roupas mostradas nas apresentações para clientes de fora. A indumentária utilizada na dança do ventre, por exemplo, é uma das mais procuradas pelos clientes. As vendas complementam a renda do casal e ajudam na manutenção do grupo Uirapuru, que também conta com o auxílio de amigos da comunidade onde ensaiam, no bairro da Pedreira. “A gente tem uma comunidade fantástica que ajuda muito a gente”, orgulha-se o policial aposentado. 


No fim das contas, todos acabam se envolvendo de alguma forma com o projeto. No Uirapuru, os filhos e netos do casal participam todos os anos dos espetáculos. A pequena Elisa, de 5 anos, já decorou a música sobre a lenda do pássaro Uirapuru que vai cantar no próximo ano. “Não tem como não englobar toda a família, está no nosso sangue”, afirma Carlos. E, para não ter que fazer tudo em cima da hora e de qualquer jeito, o casal realiza pesquisas de preços e materiais durante o ano inteiro e já começou a comprar tecidos, a pensar em figurinos e adereços para 2014. “Quando chega o mês de janeiro, fica faltando só os retoques”, ressalta Catarina. 


Mesmo diante de tantas dificuldades e trabalho, o casal explica o porquê de ainda lutarem para manter viva essa tradição. “Dizer o que nos motiva a continuar é a coisa mais difícil e também a mais fácil de fazer. Ver o sorriso e o aplauso das pessoas por algo que você criou, que você escreveu, é a minha maior felicidade. A da Catarina é a de ver no palco as roupas prontas e sendo usadas com beleza e qualidade. Enfim, o prazer de ver o grupo formado é a nossa maior motivação”, diz Carlos.


(Diário do Pará)

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