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No palco, a expressão da cultura popular

terça-feira, 25/06/2013, 07:46 - Atualizado em 25/06/2013, 07:46 - Autor:


O mês de junho é marcado por uma das mais fortes expressões culturais populares do Brasil. Quadrilhas, músicas que emergem do imaginário construído principalmente na região Nordeste, comidas típicas e muitas cores invadem as ruas do país, configurando uma bela homenagem a São João, São Pedro e Santo Antônio. Levando em consideração exatamente a pluralidade deste gigante de dimensões continentais, em cada canto em que a manifestação se desenvolveu, alguma peculiaridade é incluída nesta festividade ímpar. E a contribuição do Estado do Pará vem metaforicamente dos céus, por meio do Teatro dos Pássaros.


De acordo com o texto da pesquisadora e teatróloga paraense Olinda Charone, apresentado na publicação “Pássaros e Bichos Juninos – Históricos e Enredos” (da série Cadernos IAP), a ideia da manifestação popular é misturar signos da arte cênica, trazendo os enredos para uma realidade local, amazônica. “Na história do Pássaro, todos os espetáculos buscam colocar em cena elementos que oscilam entre o sério e o risível, entre o bem e o mal, entre o grotesco e o sublime, entre o heroísmo e a vilania. Tais recursos são utilizados na tentativa de manter a plateia atenta até o fim. Há, assim, uma divisão moral em duas partes claramente definidas [...] Há ainda, no desenvolvimento de sua trama, lances inesperados: golpes, revelações sucessivas, amores secretos, obsessões, equívocos, enfim, as características melodramáticas”.


O Teatro dos Pássaros é uma forma de teatro popular, organizado em quadros, contendo uma estrutura de base musical. Trata-se de uma manifestação que nasceu em meio aos artistas populares, por volta de 1877. A expressão é conhecida pela formação de grupos em nichos, que normalmente se desenvolvem em bairros da cidade, a exemplo de pássaros clássicos como o Pássaro Junino Rouxinol (Pedreira), Grupo Junino Tucano (Telégrafo), Pássaro Junino Tem-Tem (Guamá), entre outros. Sua origem popular é explicada por um contraponto social. Enquanto no século XIX as pessoas mais ricas frequentavam as grandes óperas que se apresentavam no Theatro da Paz, o povo mais simples criava sua própria arte, com elementos que estavam em mãos. 


A manifestação tornou-se tão plural que se fez necessário dividi-la a partir de características específicas. O “Teatro dos Pássaros” é subdivido – tendo como base a composição cênica - da seguinte forma: os cordões de pássaro têm como característica a permanência dos brincantes-atores na maioria das cenas do ato, em posição de semicírculo; já o pássaro junino é mais complexo, tem várias trocas de figurinos e cenários; e os cordões de pássaro, onde o enredo gira em torno de um pássaro que é ferido ou morto por um caçador. A relação da comunidade com a expressão é provavelmente a maior característica desta arte popular – o que justifica a existência de diversos grupos dentro de Belém, que conta com 17 grupos. “A confecção do espetáculo mobiliza grande parte dos elementos da comunidade. Estes dividem tarefas e assimilam posições de importância para o preciso encaixe dos pedaços da apresentação, formando um a um as calhas desta grande engrenagem [...] O Teatro Junino, nesse plano, atua como objetivo unificante e consegue transformar os hábitos da população”, considera Olinda, no texto que integra a série de publicações do IAP sobre a manifestação.

O teatro popular dos pássaros, além de envolver a comunidade em sua concepção, também tem como característica ser um espelho de grande poesia dos tipos comuns da Amazônia e do imaginário local. “Esta expressão tão genuinamente do povo é marcada pela presença em cena de vários tipos sociais: o nobre europeu, o índio, o caboclo, pessoas do povo paraense, o padre, o pajé, o matuto ribeirinho”, comenta o escritor e pesquisador João Paes Loureiro. 


E assim, por meio da oralidade entre gerações e na prática que culmina em grandes espetáculos de cor e densa dramaturgia, o povo paraense inclui na manifestação junina sua tão rica contribuição. 


O voo da ressurreição 


Para o espectador desatento, uma apresentação de Pássaro Junino pode parecer confusa. Um cenário genérico, com entradas e saídas de personagens díspares e enredo que une a tradição da nobreza ao cotidiano caboclo, ganha a plateia pela sagacidade. No palco, brincantes empenhados em garantir a continuidade da secular manifestação popular, cujos registros só existem no Pará, declamam falas como quem luta por um ideal.


O VOCÊ acompanhou o voo do Pássaro Tem-Tem, do Guamá, no teatro Margarida Schiwasappa, no Centur, durante a programação do Arraial de Todos os Santos, uma das poucas oportunidades que o grupo tem para se apresentar. “Como o Pássaro Junino é uma manifestação genuinamente nossa, entendemos que o mesmo poderá se apresentar o ano todo, mas infelizmente o turismo e os governos não nos veem como atração anual. Com isso nos apresentamos só em junho”, reclama Antônio Ferreira, 42 anos, um dos guardiões do Pássaro, ao lado da irmã.


Fundado em 30 de maio de 1930, na Praia do Cruzeiro, no Distrito de Icoaraci, por Manoel Silva, conhecido na região como Manoel Peixe Frito, a denominação Tem-Tem foi dada em homenagem a um pássaro da Amazônia conhecido pela predominância das cores azul e amarelo em sua penugem. Com o enredo “Meu Próprio Filho me Sentenciou”, dirigido por Antônio, responsável pela produção artística do espetáculo, o grupo levou aos palcos na quadra junina deste ano o drama, a comédia e o que o movimento intitula de“Melodrama Fantasia Folclórico”.


A história é ambientada no ano de 1836. Sob os holofotes, um garoto franzino surge no palco e convoca o público a prestigiar a apresentação. Luz baixa, a melodia de um trompete ecoa enquanto todos os personagens se apresentam ao público dançando.O enredo deste ano narra a existência na Amazônia de uma família comandada pelo Marquês Silvio D’ Monte Verde, que tinha três filhos: Felipe, Giovani e Vanessa. Cruel e ambicioso, o Marquês manda matar a esposa e o primo só para roubá-los. Mas os filhos sabiam da crueldade que imperava no coração do pai e todos os crimes que ele teria praticado. Felipe, o filho mais velho, sempre teve uma relação conturbada com o pai. Além de saber que foi ele o responsável pela morte da mãe, também sabia do caso mantido com Hortência -empregada da família. Da relação extraconjugal nasceu Ivan.


ESTRUTURA


As falas dos personagens durante a apresentação, que beiram a declamação, são construídas de forma a dar fluidez ao enredo, sem rimas ou apelos para a norma culta. 


Ainda criança, Ivan é abandonado nas matas pelo próprio pai, o Marquês. Ele se torna um forte caçador, criado pela tribo dos índios Ianaçás. Porém, Hortência não aguentava mais guardar esse segredo, principalmente por saber que o filho estava apaixonado pela própria irmã, Vanessa. Certo dia, ela reúne os filhos do Marquês e conta toda a verdade, gerando uma grande revolta.


O destino das personagens se cruza quando Silvio enlouquece, ameaça e persegue a todos da família. Felipe, o rebento mais odiado, acaba por ser expulso de casa pelo pai. Andando pelas matas, encontra Hortência e Solange. Triste e embriagado, ele pede para ser ouvido, pois estava com medo. Ao sentar-se para conversar surge Silvio. Empunhando um revolver ele atira no próprio filho. Hortência, ao ver a cena, sai à procura dos outros dois filhos para avisá-los da loucura do pai. Gioviani, o caçula, resolve ir atrás do pai, mesmo diante das súplicas para que permanecesse em casa. O Marquês Silvio encontra todo mundo e ameaça Vanessa apontando uma arma, mas não consegue atirar na filha. 


No ápice da apresentação, Ivan atira no pai e o mata. Neste momento, Silvio dispara: “Meu Próprio Filho me Sentenciou”. O espetáculo encerra quando, Ivan, o filho assassino, declara dramaticamente a dor da morte. “Ele era meu pai, quando cheguei deparei-me com um quadro trágico, um quadro de morte, ele estava decidido a matar Vanessa, e eu vendo a tudo isso, o matei, matei meu próprio pai. ele obrigou-me a matá-lo”. 


(Diário do Pará)

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