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Artistas defendem suas próprias bandeiras

terça-feira, 25/06/2013, 07:34 - Atualizado em 08/08/2013, 22:16 - Autor:


Existe um clamor uníssono ecoando do cerne de uma massa amorfa nas ruas brasileiras. Com múltiplas pautas – melhorias no transporte público, educação, saúde -, o que prevalece nos recentes protestos que incendeiam as principais capitais do país é a insatisfação com o poder público. Inclui-se no pacote todas as esferas políticas, tanto do Executivo, Legislativo e até do Judiciário. Os artistas, a exemplo de outros períodos históricos de indignação, engrossam o caldo e reivindicam também melhorias na área da cultura.


Em Belém, quando o povo se mobilizou e foi às ruas na última semana, quando ocorreram as principais passeatas, muitos artistas das mais diferentes linguagens estiveram entre os manifestantes. A proposta ia além da participação ativa na manifestação. Alguns estavam lá para garantir material para uma possível produção artística sobre o movimento. Pelo menos é o que garante o jornalista cinematográfico Marcelo Rodrigues. Segundo ele, vários realizadores de audiovisual do Pará estiveram nos protestos e existe uma intenção de reunir esses materiais e produzir algo. “A gente chegou a conversar sobre isso, temos amigos fazendo imagens em outras localidades do Brasil onde estão acontecendo manifestos também, o Lucas Escócio, por exemplo, tá no Rio [de Janeiro]. Mas ainda não tá nada certo. Aqui em Belém tinha vários colegas com equipamentos, filmando, acredito que esse registro é importante, o material pode ser usado para produção de documentários, ou coisas do tipo”, conta Marcelo.


A cultura urbana deu o tom multicolorido às manifestações. Edpaulo Cardoso, 33 anos, grafiteiro militante, integrante do coletivo Cosp Tinta, afirma que os grafiteiros aderiram massivamente ao protesto. A luta pela melhoria na qualidade de vida nas cidades e pela cultura periférica está arraigada na arte por eles produzidas. “Sem cultura, o que vai ser? Fazemos parte de um movimento de cultura de rua que ainda é discriminado, integramos a onda de insatisfação e vamos continuar participando das atividades com nossos sprays e a nossa arte”, destaca.


Durante o segundo protesto, no dia 20, ao lado de outros dois amigos, Ed grafitou nos tapumes do prédio do INSS, localizado na avenida Nazaré, próximo à travessa Dr Moraes, grafites de protesto. “Geralmente nossos painéis são produzidos, mas nesse momento era para expressar o sentimento das ruas. Começamos por volta das duas horas da tarde, terminamos antes que a multidão passasse, para que pudessem visualizar”, explicou Edpaulo.


No último sábado, o mesmo local e tapume se tornaram palco do encontro “Cores em Movimento”, que juntou dez figuras ligadas às artes e ao grafite para dar o seu recado sobre o atual momento político vivido no Brasil. Das 9h às 17h, o muro do antigo prédio do INSS se transformou em espaço para que cada um deixasse sua mensagem. A ideia é que nas próximas semanas novos eventos sejam agendados.Das intervenções nos muros da cidade para o manifesto com o próprio corpo. Das caras pintadas às fantasias, uma figura conhecida das noites de Belém roubou a cena no dia 20. Vestido de Super-Homem, Jardel Dias, conhecido como ‘Michael Jackson da Amazônia’, fazia sua intervenção artística em frente ao Batalhão de Choque da PM. O momento foi eternizado pelas lentes do fotógrafo do DIÁRIO, Thiago Araújo. Mais representativo, impossível.


O diretor, roteirista e ator paraense Adriano Barroso saiu de casa e participou do movimento. “Fui às ruas por insatisfação. A mesma insatisfação que motivou a todos estarem lá. Estamos vivendo um momento da história em que os desmandos e gastos públicos desnecessários chegaram ao limite. Há tempos estou esperando um levante popular. Eu, que tenho 44 anos e já participei de dezenas de manifestações, desde as Diretas Já, passeata da meia passagem, etc. O que me move e me comove nas manifestações é o cidadão gritando que chegou ao seu limite e que precisa que se restaure um pouco de ética na política do Estado, um pouco de vergonha na cara dos que veem a política como um simples cabide de emprego. Temos pressa, urgência em ver um país, tão rico, um pouco mais justo”, conta.


E entre as áreas da vida social que para ele precisam ser revistas está justamente a cultura. Adriano acredita se trata de uma bandeira a ser levantada sempre, uma pauta permanente nos planos de qualquer governo que anseie pelo crescimento do povo. “Não há política séria sem investimentos em saúde, educação e cultura, esses itens estão intimamente ligados. No Pará, vivemos uma letargia nas questões culturais”, argumenta.


A reclamação principal de Adriano é o privilégio dado pelos governos, municipal e estadual, à música. “Não há nenhum projeto focado nas outras linguagens. Os teatros (prédios) estão parados, a produção teatral paraense tão reconhecida lá fora não é conhecida aqui dentro. Nosso cinema, que está crescendo com força através de realizadores e técnicos competentes, não tem espaço na pasta da cultural local. O que conseguimos andar até agora foi por conta de editais federais. É triste e irritante. Não há sequer uma política pública ou edital voltado às outras artes (com uma pequena exceção ao trabalho do IAP). Trabalhamos simplesmente porque temos a arte como motivador de vida”, diz.


Integrante do projeto Versivox, o multi-instrumentista e cantor Júnior Cabrali acredita que a questão da cultura passa pelo debate da educação. “A educação está fragilizada, a estrutura da escola está comprometida pela corrupção. Ir às ruas é o primeiro passo, vamos dar um de cada vez”, diz. Ele esteve nos protesto e prevê um futuro diferente para o Brasil. “As manifestações são legítimas e têm apoio do povo. Os governantes devem, e vão, ouvir a voz do povo”, completa. 


Artistas endossam protestos pela internet 


Gaby Amarantos já emprestou sua imagem e voz para campanhas que se dedicavam a garantir direitos humanos às minorias, inclusive foi às ruas protestar em causas que considera justas. A cantora participou da manifestação pelas ruas da cidade e usou a rede social Instagram para postar fotografia em que posava com a bandeira do Brasil. Na descrição da imagem, ela esclareceu: “Orgulho do meu povo, que caminhou pacificamente no Pará, gritando SOU BRASILEIRO COM MUITO ORGULHO!”.


Além da musa do tecnobrega, as cantoras Lia Sophia e Luê também utilizaram as redes sociais para apoiar a causa. Na conta do Facebook, Lia, além de compartilhar convites para as manifestações, postou a seguinte frase: “Bom dia, Brasil! O gigante acordou! Depois uma longa noite, um longo e profundo sono, o povo brasileiro começa a abrir os olhos... Vamos fazer valer o nosso suor, meu povo lindo!”.Luê publicou, também no Facebook, uma foto do protesto do dia 17: “Manifestação pacífica e respeitosa em Belém! Cerca de 10 mil pessoas gritando seus direitos na rua. Orgulho danado da gente desse meu país!”, destacou a cantora.


Adriano considera o momento oportuno para ir às ruas. “Devemos encher as plenárias das câmaras desse país inteiro, vigiar de perto os gastos públicos e exigir que sejam votadas leis pertinentes ao cidadão. Há muitos projetos importantes parados simplesmente porque a política é do ‘toma lá, da cá’. Se o movimento partir para as sessões da câmara e pressionar, os nossos parlamentares trabalharão, enfim, para questões comuns a todos e não somente a si”. 


Para ousar viver o agora


Era a cena de uma grande manifestação de jovens como jamais vista antes, quando Theo decide entrar em confronto com a polícia. O amigo, Matthew, tenta impedi-lo. Diz que com gestos de amor virá a mudança. Ele também tenta convencer a namorada Isabelle, e irmã de Theo, a segui-lo. Mas ela decide se unir ao irmão e parte para violência contra toda a caretice e opressão do Estado, ali é representado pela polícia, que irrompe diante dele junto à multidão juvenil. É uma das últimas tomadas do filme “Sonhadores” (2004), do diretor Bernardo Bertolucci. O longa conta a história de três jovens que partilham intensamente descobertas sexuais, artísticas e políticas em uma Paris que fervilha em maio de 1968. No mesmo ano que, segundo o escritor Zuenir Ventura, nunca terminou, em várias partes do mundo, inclusive no Brasil, houve levante juvenil. Uma geração que até então só servia para comprar CDs de rock, calças jeans e ir ao cinema. 


Já estávamos no século 21, ano de 2011, quando eventos juvenis no mundo árabe, em alusão à “Primavera de Praga” desencadearam um movimento chamado “Primavera Árabe”. Ao contrário da original, ele conseguiu destituir do poder antigos regimes totalitários. Indignados em boa parte da Europa e no Occupy Wall Street acompanharam a onda, que também encontrou eco no Chile, menos no Brasil.


Por razões que gente demais já acha poder explicar, foi no outono de parte do nosso país que esse ano vivemos uma avalanche de manifestações protagonizadas especialmente por jovens em várias cidades que nunca ou quase nunca haviam ido a um protesto. Porém, numa sociedade “adultocêntrica”, é comum discursos derivados de “antigamente era melhor”. A esquerda socialista seiscentista brasileira reprovava as guitarras elétricas da Tropicália, ao ponto de vaiar Caetano Veloso na execução de “Proibido Proibir” em pleno 68. E nos anos 80, o rock aparentemente sem elementos de música brasileira foi alvo de críticas. Hoje, simbolizam “as canções que prestavam”.Nas ruas, há mãos novas com cartazes contra quase tudo. Curiosamente contra o PSTU e PSOL, e ao mesmo tempo contra a Rede Globo. É gente que chama a polícia de violenta e grita “sem vandalismo” para os colegas das fileiras sobre o asfalto. 


Num tempo onde já se declaravam mortas as utopias e as ideologias, corações e mentes dessa gente são disputados. Governos, mídias adotaram a estratégia de chamar de vandalismo queima de carros e pedradas, mesmo que muitos deles - hoje atrás de microfones e gabinetes - tenham sequestrado e atirado coquetéis molotov em prol da “revolução” há alguns anos. A disputa é contra militantes das oposições de esquerda, agora vaiados por carregarem bandeiras partidárias por quem antes chamavam às ruas. 


O fato é que estamos no meio de um momento que talvez só a arte que esses tempos inspira nos “explicarão”. Estamos vivendo, quem sabe, um refrão ainda a se cantado por multidões, ou um filme que será visto por alguma criança numa sala escura. 


Afinal, se a partir de maio de 68 alguma geração tivesse sido a melhor, e se já havia tantas respostas para tudo, por que haveria razão de ir às ruas em junho de 2013? Se a revolução nunca chegou, por que não chamar isso que vivemos - seja lá o que for - também de mudança?


(Diário do Pará)

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