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Jovens participam de projeto educativo

terça-feira, 18/06/2013, 07:35 - Atualizado em 18/06/2013, 07:56 - Autor:


Imagine um lugar onde a própria comunidade é responsável pela preservação e manutenção do patrimônio histórico-cultural do entorno em que vive, auxiliando em visitas, levantamento de dados e relatórios sobre as obras? Este lugar utópico está mais próximo do que se pode imaginar; mais precisamente no bairro da Cidade Velha, em Belém, onde o artista plástico Armando Sobral coordena um projeto educativo paralelo ao processo de restauro da Igreja do Carmo.


Inspirado em iniciativas como o Museu da Maré, no Rio de Janeiro, onde a população é convidada a fazer uma leitura museográfica do próprio espaço, a ação, patrocinada pela Vale e coordenada por Sobral, visa inserir a comunidade do “Beco do Carmo”, além de universitários das áreas de engenharia e arquitetura, ao processo de restauro e preservação de Igreja de Nossa Senhora do Carmo. 


“Basicamente o projeto pretende qualificar monitores para as visitas às obras de restauro da Igreja do Carmo. Porém, uma ação dessa natureza abarca um horizonte bem mais amplo: conscientizar a população sobre o sentido e a importância em conhecer e conservar nosso patrimônio material e imaterial, bem como motivar os jovens a compreender melhor a sua realidade e reforçar seus laços de pertencimento com a sua própria memória e cultura”, explica Armando Sobral.


Segundo o coordenador, que desenvolve projetos de educação patrimonial com o foco na arquitetura histórica há cerca de dez anos, o principal desafio do projeto é a transmutação de um prédio histórico em processo de restauro em um espaço de conhecimento. “O restauro do Carmo é um livro que se abre, empreendimento que propiciará o acesso ao rico campo de pesquisa histórica, técnica e artística. Conhecimento necessário tanto àqueles que terão a cidade de Belém como seu campo de atuação profissional, quanto ao cidadão comum que vê o futuro ancorado no gesto determinado em preservar a memória”, avalia. 


Mediadores do patrimônio


Para tornar a obra de restauração, assim como o próprio prédio histórico, acessível à comunidade, foi elaborado um amplo programa educativo composto de oficinas, palestra e produção de periódico sobre Educação Patrimonial. A partir da qualificação, dez estudantes universitários e seis jovens moradores do Beco do Carmo foram selecionados para compor o grupo de mediadores. O programa foi dividido em duas frentes: um ciclo de palestras destinado aos estudantes universitários e um plano mais extenso de atividades para os jovens moradores do entorno. Um dos requisitos de seleção dos universitários era que eles cursassem as faculdades de Engenharia ou Arquitetura. A justifica é a natureza do trabalho de campo. “Eles vão atuar em um canteiro de obras, que vai proporcionar novas experiências e conteúdos que possam contribuir para a formação destes acadêmicos que terão à frente a cidade de Belém e sua história como desafio futuro em suas profissões”, argumenta o coordenador, que vê nesse projeto a possibilidade de complementação da formação acadêmica. 


Entre as fases de seleção, destacam-se os seminários sobre patrimônio histórico e arquitetônico ministrados no final do mês me maio, a exemplo de “O Barroco no Brasil e no Pará”, “A Igreja do Carmo”, e “Conservação e restauro: teoria e tecnologia”. Além disso, realizaram uma prova de avaliação ocorrida no dia 3 deste mês.


A estudante de Arquitetura e Urbanismo Ana Paula Gonçalves, 23, primeira colocada na avaliação, não vê a hora de iniciar os trabalhos no canteiro de obras da igreja. “Sempre tive interesse nesta área e quando fiquei sabendo do projeto me inscrevi imediatamente. Participei das palestras, da prova e agora estou aguardando o dia da apresentação e distribuição de atividades, no dia 21”, explica. 


Para tecer uma teia de relações com a arte


Já o processo de seleção dos jovens moradores do Carmo foi concluído no último sábado, 15. Desenvolvida pelo próprio Armando Sobral em parceria com o arte-educador Paulo Souza e a agente comunitária Adriana Passos, a qualificação dos jovens moradores foi composta de um programa de palestras, visitas e oficinas relacionadas à memória, cidadania, patrimônio histórico, meio ambiente, inclusão e desenvolvimento humano, desenvolvidas em espaços como o Atelier do Porto, Museu de Arte Sacra e a própria Igreja do Carmo. 


“Foi um processo um pouco mais demorado, pois precisamos familiarizar estes jovens com as disciplinas relacionadas a patrimônio histórico e arquitetônico, por meio dos cursos de capacitação”, afirma Sobral. Agora, já inseridos neste universo, os moradores do Beco do Carmo passarão a atuar juntamente com os universitários como mediadores das visitas às obras da Igreja do Carmo, além de ganharem certificados e bolsa-auxílio durante seis meses. “Serão oito mediadores no turno da manhã, divididos em cinco estudantes universitários e três jovens moradores do Carmo, e mais oito à tarde, trabalhando na mediação de visitas, levantamento de dados técnicos das obras para a criação do memorial de restauro da igreja e produção de relatórios técnicos sobre estas obras”, informa. 


João Bosco da Silva, 17, um dos seis jovens selecionados pelo projeto, encontrou a vocação que pretende desenvolver na carreira profissional. “Eles abordaram os temas de forma bem didática e isso me despertou o desejo de passar para outras pessoas a importância do patrimônio, da preservação e da história”, diz. Ainda de acordo com o estudante, o projeto é uma forma de mostrar a sociedade um pouco da história e cotidiano do Beco do Carmo. “Muita gente não sabe, mas o Beco do Carmo é uma extensão da rua Siqueira Mendes, que foi a primeira rua construída em Belém, mas quando as pessoas falam daqui é só sobre vulnerabilidades. Este foi o primeiro projeto que assistiu a nossa comunidade, e eu espero que seja só o ponta pé inicial e que outros venham para cá”, resume. 


Embora o projeto seja finalizado em dezembro, o coordenador garante que a experiência será fundamental na relação dos jovens com a arte, cultura e patrimônio histórico. “A meta inclui a consolidação de um espaço de caráter museal no ambiente da igreja após as obras de restauro e uma mudança de cultura na maneira como a comunidade estabelecida ao lado da igreja se relaciona com o Centro Histórico da cidade, estimular o apoderamento e protagonizá-lo como agente efetivo no processo de conservação do patrimônio histórico da cidade”, resume. 


SOBRE AS OBRAS


A Igreja do Carmo data do século XVIII e é um marco da arquitetura religiosa barroca no Pará. Desde o início do ano, ela está passando por um extenso processo de restauro, que inclui desde suas maciças estruturas de sustentação ao fino acabamento dos elementos artísticos que aderem e modelam sua forma e lhe conferem o estilo. A restauração e conservação do templo e a sua restituição à comunidade constituem importante resgate do patrimônio arquitetônico do estado. Sua importância ultrapassa a fronteira estadual adquirindo valorização nacional, uma vez que se trata de monumento tombado pelo Iphan e uma das igrejas mais frequentadas de Belém.


(Diário do Pará)

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