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Fotógrafo registra as belezas da cor de negritude

quinta-feira, 13/06/2013, 07:42 - Atualizado em 13/06/2013, 07:42 - Autor:


Em uma pequena casa no bairro do Marco, o salão improvisado é tomado por pessoas vestidas de branco, que em danças circulares saúdam suas divindades. Pelos ares, se esvai o cheiro das ervas e se expandem os rumores do tambor. A ritualística faz parte da programação do Instituto afro-religioso Nangetu, em comemoração ao Santo Onofre - festejado pelo terreiro entre os dias 31 de maio e 12 de junho. 


Os detalhes que fazem do “Banho de Cheiro” uma expressão tão singular são captados pelas lentes de um senhor negro, de cabelos grisalhos e corpo firme. A atuação do fotógrafo impressiona pelo equilíbrio: ele tem tanto a sagacidade de fazer sua presença quase imperceptível, como também demostra estar especialmente à vontade no espaço. 


A postura que aponta tal traquejo faz jus à fama do artista. Aos 76 anos, o carioca Walter Firmo é considerado um dos mais importantes fotógrafos do país. Em mais de meio século de carreira contabiliza premiações de peso, como o Esso de Reportagem, em 1964, com uma série realizada em viagem pela Amazônia – roteiro que ele pretende cumprir novamente, quase cinquenta anos depois. “Estou à procura de patrocínio, apoiadores para uma nova missão fotográfica, em que pretendo retratar a Amazônia tantas décadas depois da minha primeira viagem”, confidencia à reportagem do Caderno Você. No “mísero” intervalo de 12 anos, ganhou sete vezes o prêmio internacional de fotografia da Nikon. Haja talento para tanto reconhecimento (ou seria o contrário?). 


Nestes caminhos de cliques - que o fizeram passar por renomadas revistas, jornais e salões de arte – Walter descobriu a paixão pelas coisas da terra e por gente comum. “Gosto de fotografar as cores dos lugares. Retratar pessoas e como elas vivem”, devaneia o jornalista, que branda sem titubear: “sou mais artista do que qualquer outra coisa então minha relação meu trabalho é muito afetiva”. E foi na beleza da cor e das expressões culturais e religiosas da negritude que ele encontrou o tatame que mais lhe cai bem. 


Filho de Xangô e Iemanjá


Nascido e criado no Rio de Janeiro, Walter sempre se interessou pelos redutos culturais dos negros. Foi fotografando personalidades como Cartola, Garrincha, Pixinguinha e Clementina de Jesus que ele ganhou projeção nacional. “Sou filho e neto de negros, então minha relação com a raça começa dentro de casa, na minha criação e na minha própria pele. No caso dessa turma que fotografei, eu tinha uma relação de amizade com eles e isso fazia com que eu captasse momentos de descontração de forma muito natural”, lembra Walter. Porém, o insight aconteceu em uma viagem de trabalho, em meados da década de 60, quando o interesse pelo assunto extrapolou questões estéticas e ganhou força política e ideológica.


“Fui fazer um trabalho nos Estados Unidos e presenciei uma situação que jamais irei esquecer. Ouvi um colega questionar a contratação de outro por considerá-lo ‘analfabeto, mal profissional e negro’. Aquilo caiu em cima da minha cabeça, como uma realidade pela qual eu ainda não tinha me atentado. Resolvi deixar meu cabelo crescer, virei black power, e voltei para o Brasil exatamente para retratar meu povo. Foi assim que comecei a rodar por comunidades, que fotografei grandes artistas negros”, conta Walter, que apesar de ter formação autodidata já lecionou até para faculdades de Comunicação.


Da revolta, a chance de desbravar o mundo afro. Walter passou por fábricas, por comunidades e também dissecou festejos religiosos Brasil afora. “Eu me atentei que não havia no mercado e no universo fotográfico a representação do crioulo e do negro comum. Você até via bandidos e famosos negros, mas não a gente que vive pelas ruas do nosso país. Eu quis mostrar esse povo e o que sustenta a identidade deles. Sendo assim, não tinha como fugir da religiosidade e todos as suas diversas manifestações”.


RELIGIOSIDADE


Terreiros, igrejas, templos. Casas sagradas e celebrações religiosas sempre foram ótimos cenários para o trabalho de Walter. “Gosto de aproveitar a luz para fotografar, de pegar as tantas cores que marcam a maioria dessas festividades”, relata. Detalhes da vestimenta, dos adereços e dos rituais são prato cheio para o clique perfeito. “Eu já viajei o país inteiro. Fui a Festa de Nossa Senhora do Rosário, Congado, enfim, diversas manifestações de fé dos afrodescendentes. Em cada lugar, em cada festejo, há algo novo e especial, que merece ser eternizado em uma fotografia”, completa.


De tanto fotografar expressões religiosas, Walter escolheu seus protetores. Assim como não larga a câmera – durante a entrevista, não se separou do equipamento por nenhum instante, sempre pendurado em um dos ombros cansados -, ele também não tira o colar com a imagens que o guardam. “Sou filho de Ogum e de Iemanjá. Meu santo é forte!”, releva. Por que fotografar as pequenas coisas da imensidão das religiões afro? A reposta está na ponta da língua. “Gosto de mostrar a magia do bem-estar e da felicidade nutrido pelos rostos dos negros, principalmente quando estão entre os seus iguais, fazendo o que gostam. Me sinto como um escultor que coloca o negro em um pedestal, que moldura essa beleza”. E o Brasil agradece por tantos retratos esculpidos com amor. 


SOBRE A VINDA A BELÉM


Walter Firmo esteve em Belém à convite do projeto “A cor da cultura”, feito pelo Ministério da Educação em parceria com o canal Futura. A ideia é registrar ações e manifestações em terreiros e outros espaços afro-religiosos, material que resultará em uma exposição (prevista para o mês de agosto) e também deverá ser usado em material didático, a ser distribuído por uma rede de professores.


QUEM É WALTER FIRMO?


Fotógrafo, jornalista e professor. Autodidata, inicia sua carreira como repórter fotográfico no jornal Última Hora, no Rio de Janeiro, em 1957. Trabalhou também para o Jornal do Brasil e integrou a equipe que lançou a Revista Realidade. Conquista o Prêmio Esso de Reportagem, em 1963, com a matéria Cem Dias na Amazônia de Ninguém. Neste período, fica conhecido por fotografar celebridades em momentos raros. É premiado sete vezes pelo concurso internacional de fotografia da Nikon. No fim da década de 1990, torna-se editor de fotografia da revista Caros Amigos. Entre seus livros, destacam-se Walter Firmo - Antologia Fotográfica, 1989, Paris, Parada Sobre Imagens, 2001, Rio de Janeiro Cores e Sentimentos, 2002, e Firmo, 2005.


(Diáro do Pará)

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