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Romance de Dalcídio Jurandir segue em cartaz

segunda-feira, 10/06/2013, 07:39 - Atualizado em 10/06/2013, 07:39 - Autor:


Uma Amazônia sem exotismos ou fantasias, onde o povo é o personagem principal. Dalcídio Jurandir, escritor paraense nascido em Ponta de Pedras, na Ilha do Marajó, levou aos leitores uma região política, social e humana nos romances que escreveu. Exemplo dessa narrativa é o livro “Marajó”, publicado em 1947. O romance, segundo escrito por Dalcídio, serviu de inspiração para a construção do espetáculo “Solo de Marajó”, com direção de Alberto Silva Neto, dramaturgia de Carlos Correia Santos e interpretação do ator Claudio Barros. A peça segue em cartaz até o dia 26 deste mês no Salão das Artes do Museu Histórico do Pará (MHEP), às terças e quartas, sempre às 20h com entrada franca. 


Do grupo Usina Contemporânea de Teatro e Tá Produções, a montagem conta oito histórias diferentes sobre a infância, a adolescência, a fase adulta, adultério, traição, amor impossível, além de questões políticas. “As histórias fazem um panorama geral dos personagens principais que estão envolvidos na trama”, conta Claudio. 


Em quase uma hora de espetáculo, o ator transforma-se em 22 personagens apresentados em um palco neutro, sem cenário e com uma luz branca que ilumina o único narrador. “A gente foi construindo uma história de cada vez. Não tivemos um olhar preocupado com a questão da quantidade. Quando nos demos conta, já estava pronto”, lembra Claudio Barros. 


“Solo de Marajó” estreou pela primeira vez em 2009 e de lá para cá já fez temporadas em Belém, Paragominas, São Paulo e, recentemente, em cinco cidades do Marajó: Muaná, Soure, Salvaterra, Cachoeira do Arari e Ponta de Pedras. “Mostrar um espetáculo que fala sobre o Marajó para as pessoas do Marajó causa uma identificação imediata. As pessoas choram, se divertem e após as apresentações as conversas com público são momentos riquíssimos. Além dos espectadores comuns, ainda há pesquisadores e professores que trocam muitas ideias com a gente”, comenta Claudio. 


Na peça, as histórias inspiradas no romance de Dalcídio narram as condições humanas e sociais do homem que nasceu e vive na floresta, de como são as relações políticas e com as pessoas que vivem ao redor. “O público fica espantado ao saber que a obra foi publicada em 1947. Geralmente as pessoas acham que o romance é recente. Ou seja, já são mais de 60 anos e nós continuamos a viver da mesma maneira. A realidade social e a relação política ainda é a mesma, ainda é dura, humilhante, desigual”, analisa o ator. 


PERCURSO


“Solo de Marajó” é o segundo espetáculo do Usina que fala sobre a Amazônia. O primeiro foi “Parésqui” em que as atrizes Valéria Andrade e Nani Tavares narravam a história de vida de uma família de ribeirinhos que mora na ilha do Combu. As duas montagens são frutos da pesquisa que o grupo desenvolve sobre a linguagem amazônica. “O grupo tem se voltado nos últimos anos para temas que estão ligados à vida do homem na Amazônia e também à pesquisa do ator como narrador de histórias”, explica Alberto Neto, diretor de “Solo do Marajó”. 


A montagem aborda temas como a violência contra a mulher, o tráfico de pessoas e a extorsão. Uma das oito histórias contadas no palco é sobre um homem que herdou terras da família e acaba sendo extorquido por poderosos do município onde mora. “É incrível perceber que as questões e os problemas levantados por Dalcídio na década de 1940 persistem até hoje, alguns inclusive em estado mais grave”, desabafa o diretor. 


Tratando de forma poética temas fortes e até dolorosos, a peça conseguiu uma grande receptividade do público. Em Cachoeira do Arari, conta Alberto, uma das espectadoras revelou ter se identificado com a história sobre a menina que é arrancada dos braços da família para viver na cidade. “Ela contou que algumas mulheres da família dela viveram essa mesma situação”, relembra Alberto. Para ele, a peça traz identificações imediatas com o público. “O espetáculo ativa a memória de lugares, pessoas, de uma época vivida pelos espectadores. O público relaciona a narrativa com a própria memória, o que acaba cumprindo o objetivo do teatro de ser o espelho da sociedade”, conclui o diretor. 


Para a montagem de “Solo de Marajó” foram necessários sete meses de trabalho divididos entre estudar por completo o romance de Dalcídio e construir as histórias no palco, tudo feito em conjunto com ator, diretor e dramaturgo. “Paramos para estudar ‘Marajó’ até para a gente ter condições e certeza de que seria possível realizar o espetáculo”, justifica o ator Claudio Barros. O grupo Usina Contemporânea de Teatro ainda planeja para o futuro uma terceira montagem cênica a partir de narrativas míticas dos povos indígenas, além de uma segunda temporada de “Solo de Marajó” por outros municípios marajoaras. O espetáculo conta com produção executiva de Sandra Condurú, assistência de direção de Fátima Nunes, iluminação de Iara Regina de Souza e apoio do Centro de Danças Ana Unger. 


CONFIRA


“Solo de Marajó”, com Claudio Barros, direção de Alberto Silva Neto e dramaturgia de Carlos Correia Santos. Até 26 de junho, sempre às terças e quartas às 20h, no Salão das Artes do Museu Histórico do Pará (Rua Tomázia Perdigão - Palácio Lauro Sodré, Cidade Velha). Entrada franca. Informações: 4009-8830.


(Diário do Pará)

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