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Jurandyr Bezerra deixa órfãos os fãs da boa poesia

sexta-feira, 07/06/2013, 09:09 - Atualizado em 07/06/2013, 09:09 - Autor:


“Os pássaros entenderam tua mensagem/ Como pássaros/ E vieram dizer-me que eras sempre/ Abri os olhos como se houvesse noite e não destroços/ Já não estava mais/ Nem andorinha, nem relva, nem pedra (preciosa)/ Havias amanhecido”. Como na poesia “Encatamento”, o escritor e poeta Jurandyr Bezerra, no dia 28 de maio, alçou o último voo, rumo ao infinito. Aos 85 anos, o paraense radicado no Rio de Janeiro, foi internado em um hospital com a saúde fragilizada devido a uma complicação pulmonar, mas não resistiu. 


Conhecido pelo temperamento manso e sonhador, Jurandyr Bezerra ainda muito jovem iniciou um legado admirável. Com apenas 18 anos ingressou na Academia Paraense de Letras, fato inédito até hoje. No mesmo período, tornou-se professor e jornalista, atuando na Folha do Norte entre 1947 e 1961, além de fundar ao lado de Benedito Nunes e Max Martins a icônica Academia dos Novos. “Conheci Jurandyr e o resto da turma na época da Academia dos Novos. Andávamos juntos na nossa adolescência. Ele sempre foi muito reservado, e ainda muito jovem saiu de Belém para morar no Rio de Janeiro”, recorda João Mendes, amigo do poeta. 


Ao se radicar no Rio de Janeiro, Bezerra constituiu família e passou a se dedicar a criação dos filhos e ao emprego em uma instituição pública, o que em alguns períodos o afastou da poesia. “O seu jeito era simples e seu cotidiano era preocupar - se com minha mãe Lucidéa, e com seus filhos, netos e bisnetos e com os familiares e amigos, e se sobrasse alguma preocupação, ele se preocupa com ele. O Jurandyr poeta era mais forte na juventude e depois de sua aposentadoria, fato que ele muito lamentava. O sacrifício de se afastar da poesia durante um longo tempo foi para o bem de sua família”, avalia Walter Ivan, um dos cinco filhos do poeta. 


Ainda de acordo com Walter, apesar de ter se afastado compulsoriamente da produção literária, Jurandyr expirava poesia diariamente. “Ele era uma pessoa brilhante, que amava a sua família e a poesia, com a pureza que fazia diferenciar do resto do mundo. Ele dava atenção às nossas fantasias de menino, de achar que existia algo mágico no mundo. Lembro que um dia perguntei para ele se não era melhor ser realista, e ele me respondeu que a esperança é o motor da vida.”


VOLTANDO A VOAR


Após a aposentadoria, Jurandyr pôde se dedicar com mais calma à poesia, passando a produzir diariamente. “Eram dias, noites e madrugadas mergulhado no ofício de transformar palavras em arte, como se fossem pedras para um escultor”, conta Walter. As raízes com a cultura paraense, nunca esquecida por Jurandyr, se fizeram mais presentes na vida dele com a retomada da produção literária. O pássaro que tinha medo de avião pode aliviar as saudades da terra por meio de palavras. “Ele tinha um sentido de pertencimento ao cheiro, aos gostos, à música e à literatura paraense. Quando ele lembrava da sua terra, lembrava do seu tempo de menino, da época da Academia dos Novos, da sua vida como jornalista. As suas viagens ao Pará eram raras, talvez por seu medo de avião, mas ele se realizava quando os filhos visitavam a cidade de Belém. Em um dos seus livros inéditos existe uma poesia sobre a Amazônia que considero ser uma pérola da poesia paraense”, diz o filho. 


O resultado desta imersão no universo amazônico e na poesia está em parte registrada no livro “Os limites do pássaro”, lançado em 1993, pela Editora Cejup. A obra, que foi lançada na VI Bienal Internacional do Livro, no Rio de Janeiro e na II Feira Pan Amazônica do Livro (1993), foi o único livro publicado pelo autor e recebeu três prêmios nacionais: O “Prêmio Guararapes”, da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, como o melhor livro inédito de autor inédito em livro(1986); “Prêmio Carlos Drummond de Andrade; além de levar o 2º lugar no Concurso Nacional de Poesia Ruth Scott, do Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro(1993). 


Após a repercussão da primeira obra publicada, Bezerra deu continuidade à produção literária, concluindo oito livros de poesia, ainda inéditos, entre eles “As águas de Mara”, que recebeu menção honrosa no Concurso do Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro; e “A lâmina convexa”, com menção especial do Prêmio Ribeiro Couto, da União Brasileira de Escritores, Rio de Janeiro (1997). 

De acordo com Walter Ivan, estas e outras obras de Jurandyr serão publicadas pela família. “Já tem um livro que está em uma editora no Rio de Janeiro em fase de finalização, com o título de ‘Configurações’”, anuncia. Além de ser um presente aos leitores, o filho vê na publicação destas obras inéditas uma forma de homenagear o poeta que escrevia não por vaidade, mas por amor: “Se ele tivesse um símbolo, seria uma palavra muito usada na sua poesia; ele seria um pássaro cantante - mas que cantava e recitava não porque tinha ouvintes, mas porque a sua natureza era o canto”.


(Diário do Pará)

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