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Filme Faroeste Caboclo é mais profundo que canção

sexta-feira, 07/06/2013, 07:51 - Atualizado em 07/06/2013, 07:58 - Autor:


É uma história lendária, com pingos de verdade. Quando Renato Russo morreu, a reunião de pauta do Jornal Nacional não poderia ter outro tema principal. Naquela noite, Renato conseguiria um feito até então só alcançado por Frank Sinatra. Ocupou mais da metade do principal noticiário televisivo do país. Para conseguir isso, William Bonner convenceu Lillian Wite Fibbe, que pouco ou quase nada conhecia da Legião Urbana, recitando os 159 versos de Faroeste Caboclo.


Essa versão, que não corresponde totalmente à realidade, é contada pelo jornalista Arthur Dapieve na pequena biografia de Russo, da série Perfis do Rio, lançada em 2000. Mesmo assim, ilustra à perfeição a força ainda hoje absurda que Renato e a Legião Urbana exercem no universo da música pop no Brasil.


A maciça presença de público nos filmes ‘Somos tão Jovens’, que conta os primeiros anos de Renato Russo na pré-formação da maior banda de rock do Brasil, e em ‘Faroeste Caboclo’, a transposição para as telas de cinema de uma das canções mais importantes do repertório do grupo de Brasília, pode ser um claro sinal de que há uma demanda ainda reprimida por tudo relacionado à Legião Urbana.


Fora isso, não há mais nada a ser comparado entre ‘Somos tão Jovens’ e ‘Faroeste Caboclo’. O primeiro resulta mais desigual, mas dialoga com a emoção do fã da Legião Urbana. O segundo atrai o admirador da banda, mas sobrevive por conta dos próprios méritos.Mas é fato que não se pode, em filmes como Faroeste Caboclo, esquecer a música de Renato Russo, o contexto em que ela foi composta e a repercussão obtida. Não é plausível analisar o filme, pensar o filme ou discuti-lo sem ter essa necessária percepção da música como guia. Da mesma forma que soa incompleto analisar filmes como ‘V de Vingança’, ‘Watchmen’, ‘Batman- Cavaleiro das Trevas’ sem conhecer as HQs que lhes deram origem.


Não é o caso de comparar uma coisa com a outra, mas sim de buscar na fonte original o que motivou e inspirou a versão cinematográfica. É nesse contexto que, destacando algumas ausências, como a de um personagem jornalista, por exemplo, necessário para a cena final, ‘Faroeste Caboclo’ consegue ‘dar conta do recado’.


O que torna mais interessante o filme é saber que é a estreia do diretor René Sampaio. Ou seja, parece que ele entra no mercado já sabendo o que quer. Extraiu dos atores desempenhos excelentes e não dá, nesse caso, para não destacar as performances de Fabrício Boliveira, um João de Santo Cristo com ‘sangue e ódio no olhar’, Ísis Valverde, luminosa no primeiro papel no cinema, e Antonio Calloni, como o policial corrupto.


Ao contar a saga de João do Santo Cristo, que deve ser conhecida por nove entre cada dez brasileiros, o filme, cujo roteiro teve um primeiro tratamento feito por Paulo Lins, autor do livro ‘Cidade de Deus’, acaba por dar nuances até mais profundas que a própria canção original. Isso porque pincela uma história brasileira de exclusão e violência. Da aridez nordestina, com secas, desmandos, pobrezas e réstias de sonhos a uma Brasília oitentista com ecos de ditadura militar, repressão, tortura e corrupção, ‘Faroeste Caboclo’ espelha um pouco da história de um país, mais até que de uma trajetória pessoal.


As constantes descidas ao inferno - com raras incursões pelo paraíso - do protagonista refletem muito de um Brasil que, como escreveu o antropólogo Roberto Damata, se move na base do ‘você sabe com quem está falando?’. É essa a barreira que João, como tantos, não consegue superar. É a cor, a origem, o sotaque. É a não aceitação, a não inclusão. E se o ódio viceja em cada expressão de dor de Santo Cristo, é uma espécie de contrário, o amor, que ele procura, numa busca incessante que vem da infância órfã, do ‘doce’ negado, que ele arranca como se lhe pertencesse de direito.


Embora talvez não querendo emular nenhuma das referências próprias, Sampaio deixa escapar, em uma cena ou outra, a admiração por Tarantino ou Sam Peckimpah, mesmo que sem as ousadias de ambos, mas, nesse caso, só a tentativa já merece um bom registro.


RENATO VINGADO


‘Faroeste Caboclo’ é um saudável mergulho em uma forma de fazer cinema que foge da rendição fácil das comédias da moda, mas também não tenta revolucionar linguagem ou ser tratado social, tão ao gosto da intelectualidade cinéfila. Conta uma boa história, de forma competente e eficiente. Estreia promissora.


E Renato Russo, se estivesse vivo, talvez mais uma vez se sentisse vingado. ‘Faroeste Caboclo’, a música, por diversas vezes foi alvo de chacotas e preconceitos, desde a época do ‘Trovador Solitário’. Em uma antiga entrevista para a revista Bizz, Russo revelou que intimamente esperaria dar o troco, já que ‘as músicas eram tão bonitinhas’, referindo-se a ‘Eduardo e Mônica’ e ‘Faroeste...’. No duelo contra o tempo, Renato levou a melhor. Mais uma vez.


(Diário do Pará)

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