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Tudo pronto para o início da Quadra Junina

domingo, 26/05/2013, 11:15 - Atualizado em 26/05/2013, 11:15 - Autor:


A chuva não deu trégua na última quinta-feira. Ruas alagadas, lama, trânsito caótico. O tempo desvairado deve ter esquecido que maio já chegou e está prestes a se despedir. Ainda assim, a jovem Mônica Ferreira, 27 anos, saiu do trabalho às 19 horas e voltou a pé para casa, veloz sob a chuva. A preocupação maior era com o horário, não queria se atrasar. Banho tomado, prato feito, arrumou-se. De pé, em frente à entrada da estreita vila onde mora com a mãe, empunhando um guarda-chuva que não impedia os respingos de banhar suas pernas, esperou. O compromisso da noite, além daquele assumido desde janeiro com a quadrilha Santa Luzia, do bairro do Jurunas, era com a equipe do caderno Você.


A moça é uma daquelas pessoas aficionadas pela quadra junina. Apaixonada, “louca”, conforme conta repetidas vezes durante o encontro. Além dos ensaios noturnos diários, interrompidos apenas pelo período do Carnaval, em fevereiro, ela escuta todos os dias canções que enaltecem as festas de junho. “Não consigo trabalhar antes de ouvir alguma música de quadrilha”, conta, aos risos. O quarto, nos altos da casa, guarda uma imponente coleção. Ali reside uma realeza das quadrilhas do Pará. A parede azul, tomada por fotos e banners dos momentos mais importantes da trajetória de Mônica, revelam a força que a dança e a cultura junina têm na vida dela.

SEGREDOS DE MISS


Mônica acumula três títulos consecutivos de campeã do concurso de Miss Mulata realizado pela Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves, o Centur, além de dois títulos no mesmo tipo de concurso, só que realizado pelo município de Belém, por meio da Fumbel. “Tenho também outros títulos. Para ser miss tem que se preparar mesmo, esquecer o cansaço boa parte do ano e se dedicar, se alimentar bem, cuidar do peso, da beleza plástica. São vários fatores”, explica em meio a figurinos, faixas, medalhas e troféus espalhados em cima da cama.


No ano passado ela decidiu eternizar na pele a fascinação pela quadra junina. Tatuou no pulso esquerdo a frase: “eu amo São João”, grafada em cima de bandeirolas coloridas. “Já tentei parar, mas o amor é muito grande. Enfrento meus familiares e até o namorado para continuar dançando. Durante uns dois anos não pude sair, não consegui conciliar trabalho, estudo e ensaios, fiquei muito triste. Depois tive que aprender. Hoje fico mais cansada no trabalho do que nos ensaios”, confessa. Em 2009, ano em que garantiu o primeiro lugar no concurso do Centur, ela trabalhava em supermercado, não tinha muito tempo para ensaiar. Segundo Mônica, o coreógrafo, que morava em Abaetetuba, gravava as coreografias para ela em vídeo. “Eu ensaiava quando podia, pegava os passos olhando no vídeo. Quando ganhei foi realmente uma surpresa, imagina alguém ganhar assim, com ensaios à distância?”, disse.


Mônica olha o relógio, põe os braços para fora da janela, sente que a intensidade da chuva diminui e comemora: “Agora sim, acho que o povo vai em peso pro ensaio”. Retoca a maquiagem, ajeita a camisa – uma blusa oficial da quadrilha Santa Luzia – arruma o short jeans e procura os chinelos mais resistentes, para não ficar na mão, já que são horas e horas de ensaio. “Vou guardar tudo, tenho que ter cuidado, o figurino e acessórios são pagos por mim, não posso ser desleixada”, conta. Pega as anáguas dependuradas atrás da porta e segue rumo à Orla de Belém, local do ensaio. Normalmente Mônica aguarda uma turma de amigos, que seguem juntos a pé.


Dedicação até debaixo de chuva


Mônica integra uma quadrilha que conta com cerca de 28 pares, a maioria jovens que moram no bairro do Jurunas. Fundada há 35 anos, a quadrilha, coordenada por Edvaldo Magno, 51 anos, ensaia em uma das quadras esportivas da Orla de Belém sob o olhar atento de moradores do entorno, que já se tornaram admiradores dos movimentos embalados pelo compasso da sanfona. Eles ensaiam todos os dias desde o início do ano. “A garotada se diverte e fica longe de problemas. A maior alegria é quando vem uma mãe dizer que nós salvamos o filho dela, que antes de entrar na quadrilha era metido com gangues e outras coisas ruins”, destaca Vavá, como é conhecido Edvaldo.


Muitos pés descalços em um piso de concreto molhado. Os brincantes compareceram, mesmo diante da noite fria e chuvosa. No rosto, o sorriso de quem sabe o que está fazendo e o porquê de estar fazendo. A caixa de som, acoplada no porta-malas do carro de Vavá, emite as canções que dão vida aos movimentos do grupo. Um misto de ensaio e encontro familiar, enquanto uns tentam sincronizar os passos, outros conversam, sentados nas muretas da quadra. Na pauta, o cotidiano. “Como foi na escola?”, perguntam uns. “Brigaste com ele, foi?” indaga outra. Mas a necessidade de garantir um espetáculo profissional é visível em todos os olhares. Logo se reúnem e começam a fazer o que sabem de melhor - dançar.


Mas afinal, o que faz um grupo de jovens de bairros periféricos sair de suas casas tarde da noite, diariamente, para ensaiar exaustivamente repetidos passos? A resposta vem da boca do estudante Gabriel Luiz Costa, 28 anos. “Tô na quadrilha há 18 anos. Faz parte da minha vida, é onde me relaciono com meus amigos, tenho a oportunidade de ensinar aos novatos. Eu tenho um amor por isso aqui. Faço porque gosto. Não me canso, aliás, só quando acordo que fico exausto, mas no final da noite tô no pique pra ensaiar, é um ciclo”, garante.


Segundo Vavá, o movimento cultural de quadrilhas juninas vive uma fase de renovação este ano. “A gente viveu várias etapas desde a década de 80. Essa é uma das mais interessantes, semelhante a que vimos em 2002, quando ressurgiram várias quadrilhas bem profissionais. Aqui na Santa Luzia a maioria é gente que chegou por afinidade. Mora no bairro, conhece nosso trabalho e veio dançar. Fomos campeões no Centur ano passado e isso ajuda a agregar pessoas que estão realmente comprometidas. Acabamos nos tornando uma família, dividindo muita coisa”, afirma.


Portal da Amazônia é novo endereço


Este ano, os concursos oficiais do governo do Estado e da prefeitura municipal serão realizados no Portal da Amazônia. As misses campeãs de 2012, na disputa municipal, poderão concorrer pelo bi-campeonato e o número de campeãs de quadrilhas aumentou para 20 vagas na categoria adulta, e para 10 na categoria mirim. O “Arraiá da Capitá”, será realizado entre os dias 14 e 30 de junho. A programação, que está sendo definida, contará também com apresentações de bois-bumbás, pássaros juninos, grupos parafolclóricos, quadrilhas cômicas e artistas da terra.


De acordo com a Fumbel, 85 grupos disputarão o concurso de quadrilhas adultas e 30 mirins. Os certames vão ocorrer em arena montada especialmente para os quadrilheiros, enquanto no palco grupos juninos animarão as noites. Em reunião com os brincantes no início do mês, o prefeito Zenaldo Coutinho chegou a afirmar que a realização do arraial na orla vai garantir aos festejos o título de maior São João da Região Norte do país, com a estrutura necessária para garantir diversão e segurança ao público e brincantes.


No âmbito do Estado, a Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves divulgou que 166 quadrilhas juninas de 33 municípios paraenses se inscreveram na 10ª edição do Concurso Estadual de Quadrilhas Juninas. A disputa integra o projeto “São João do Pará”, do Governo do Estado, e o Arraial de Todos os Santos, promovido pela própria instituição. No Concurso Estadual de Quadrilhas Juninas, as dez melhores quadrilhas de cada categoria ganham uma premiação em dinheiro. Já as três melhores quadrilhas nas categorias Adulto e Mirim ganham troféus, assim como os primeiros colocados nas categorias Marcador, Coreógrafo, Estilista e Misses Mulata Cheirosa, Simpatia, Caipira e Mix.


As únicas inscrições que ainda estão abertas no Concurso Estadual são para a categoria Miss Caipira Mix (Gay), que podem ser realizadas até o dia do evento, 14 de junho. Para participar, as candidatas devem procurar a Gerência de Linguagem Corporal, da Fundação Tancredo Neves, de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h. Contato: 3202-4399.


(Diário do Pará)

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