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Riqueza que vem do mangue

quarta-feira, 22/05/2013, 07:20 - Atualizado em 22/05/2013, 07:20 - Autor:


“Josué/ eu nunca vi/ tamanha desgraça/ quanto mais miséria tem/ mais urubu ameaça”, lamenta a música “Da Lama ao Caos”, de Chico Science e Nação Zumbi. Autor de “Homens e Caranguejos”, de 1966, o livro do pernambucano Josué de Castro (1908-1973) foi, ao lado do maracatu e da black music, uma das principais influências do manguebeat. O romance, que descreve o cotidiano de uma comunidade erguida num manguezal que circunda Recife, foi lido com avidez pelo conterrâneo Chico Science (1966-1997) enquanto formulava o conceito do movimento cultural que iria mudar a cara da capital pernambucana nos anos 1990.


Na peça homônima, escrita e dirigida por Luciana Lyra, a obra dos dois artistas se encontra mais uma vez. A montagem do Coletivo Cênico Joanas Incendeiam, apresentada hoje em Belém, é um emaranhado de referências, a exemplo do manguebeat. Além da música de Chico, carrega na trilha o rap de Sabotage (1973-2003), cenários inspirados nos “Penetráveis” de Hélio Oiticica (1937-1980) e figurinos que remetem aos sertanejos dos filmes de Glauber Rocha (1939-1981).


“A premissa básica para o projeto era estabelecer se o livro, que foi publicado na década de 60, ainda tinha ressonâncias com a realidade do Brasil de hoje. E o caso do Chico Science é uma das provas disso, de como as ideias e observações de Josué ainda são extremamente atuais. Na verdade, o espetáculo é inspirado por uma gama de artistas que buscaram a mudança através da sua vida e arte. Eles dialogam através do desejo em comum de melhorar as coisas”, define Luciana Lyra em entrevista por telefone de São Paulo (SP). 


Encontro da pesquisa com a obra


Desejo de melhorar que embalou a própria montagem do espetáculo. Apesar do enredo seguir basicamente a trama do livro - centrada na figura de um menino que foge da seca do Sertão para cair na miséria das favelas da capital pernambucana, onde sobrevive como pescador de caranguejo – é acrescida das histórias dos habitantes de duas comunidades pobres brasileiras: Ilha de Deus, em Pernambuco, e do Boqueirão, em São Paulo.


A dramaturga e atriz pernambucana conta que a peça nasceu do projeto de pesquisa de pós-doutorado em antropologia na Universidade de São Paulo (USP). “Em 2010, terminando o doutorado fui abordada por um grupo de ex-alunas. Eles haviam conhecido a obra de Josué de Castro e vieram com a proposta de adaptá-lo. Fiz uma contraproposta: eu dirigiria a montagem se elas me ajudassem com a minha pesquisa de campo. A missão era encontrar comunidades que dialogassem com o universo que Josué apresenta no livro”, lembra.


Foi ai que atrizes Beatriz Marsiglia, Camila Andrade, Juliana Mado e Letícia Leonardi formaram o Coletivo Cênico Joanas Incendeiam exclusivamente para o projeto. Durante os dois anos de estudo, o grupo conviveu com em meio às duas localidades, colhendo depoimentos, aprendendo com seu dia-a-dia.


Histórias como de Nana das Flores, moradora de Ilha de Deus. Desde criança, ela sofre com as enchentes do local, o que a fez construir as camas nas paredes do barraco, até vir um alagamento mais forte e levar tudo que tinha. “Josué relatava a mesma situação no seu livro, 50 anos antes. Na peça, a vida dos habitantes dessas comunidades que pesquisamos se mistura a dos personagens do romance, também vítimas das constantes enchentes, da fome. É uma recriação do romance, não a transposição literal. É o encontro de universos diferentes, o de Josué, antes, e dessas comunidades, hoje. Que, infelizmente, ainda carregam muito em comum”, explica a diretora.


"Homens e Caranguejos" estreou nacionalmente em 2011, realizado com apoio do Programa de Ação Cultural, do Governo do Estado de São Paulo. Agora, graças ao Prêmio Funarte Myriam Muniz de Teatro captado ano passado circula pela região Norte e Nordeste, estreando a turnê em Belém. 


Legado


O escritor pernambucano atuou em diversos campos, foi médico, geógrafo e cientista político. Escreveu dezenas de livros científicos e acadêmicos, marcados principalmente pelo engajamento social e denúncia contra a miséria. “Homens e Caranguejos” foi seu único romance, um livro escrito em um período conturbado para o autor, que estava no exílio na França, perseguido pela ditadura militar.“Josué morreu no exílio, sem poder voltar pro Brasil. Ele dizia que o livro era a ‘história da descoberta da fome’ durante sua infância. Uma lembrança que o assombrou durante toda a vida. Apesar desse retrato um tanto duro da realidade, me alegra ver que ele é lembrado com alegria. O seu homem-caranguejo, ‘meio-homem, meio-bicho’, como descreve os miseráveis que vivem no mangue, é sinônimo de toda uma geração de artistas. Ele foi o primeiro a reconhecer a riqueza do mangue”, diz. 


CONFIRA


O espetáculo “Homens e Caranguejos” tem sessões hoje e amanhã, sempre às 20 horas, no Teatro Waldemar Henrique (avenida Presidente Vargas, 645, Campina). Ingresso: R$20. Informações: 3222-4762.


A temporada ainda conta hoje com o workshop “Mitodologia em Artes Cênicas aplicada ao trabalho do ator”, das 9 às 13 horas, na Escola de Teatro e Dança da UFPA, na travessa Dom Romualdo de Seixas, 820, Umarizal. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas pessoalmente ou pelo telefone: 3212-5050.


(Diário do Pará)

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