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Mestre-sala e porta-bandeira são objetos de estudo

sexta-feira, 10/05/2013, 07:32 - Atualizado em 10/05/2013, 07:32 - Autor:


Dançando no carnaval paraense desde os treze anos, a porta-bandeira Ariane Pimentel sabe o que fazer para agradar os jurados do desfile. “O maior pecado é dar as costas para o júri. O que é característico da dança é o bailado, o minueto. Então, você deve manter a postura: os braços armados, a leveza”, explica a paraense de 26 anos.


Hoje, a posição se inverteu com a dançarina estudando o carnaval para o seu projeto de mestrado em arte pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Intitulado “A dança do mestre-sala e da porta-bandeira de Belém do Pará”, o trabalho integra as atividades do Tambor – Grupo de Pesquisa em Carnaval e Etnocenologia, responsável pela Academia Paraense de Mestre-Sala, Porta-Bandeira e Porta-Estandarte de Belém.
O tubo de ensaio da pesquisadora são as aulas semanais da Academia, que ocorrem toda terça-feira, na Escola de Teatro e Dança da UFPA (Etdufpa). Há dois anos os encontros vêm servindo como ponte de aproximação entre carnavalescos e acadêmicos. 


“Aqui é um local aprimoramento dessa modalidade de dança para o carnaval. Casais de todas as escolas do grupo especial, assim como algumas do grupo de acesso, vêm aqui para treinar com professores de educação física, coreógrafos, bailarinos. Ao mesmo tempo que nós pesquisadores estudamos a técnica deles, aprendemos com a prática desses veteranos. Uma mão lava a outra”, resume Ariane, que ainda atua como instrutora do projeto. Ela entrou como aluna, formando-se com a primeira turma do curso, em 2011.

CHEIA DE GRAÇA 


O coordenador da Academia Paraense de Mestre-Sala, Porta-Bandeira e Porta-Estandarte de Belém, Miguel Santa Brígida, revela o porquê do tratamento diferenciado a prática. Mesmo inserida no carnaval, a dança não segue a lógica do samba. 


Os gestos são contidos, cheios de graça. E olha que o esforço é grande, especialmente para a porta-bandeira: o estandarte de metal mede cerca de um metro e meio, sem contar a pesada bandeira bordada. Mesmo assim ela rodopia e sorri sem parar. 


Já o mestre-sala é um cavalheiro à moda antiga. Dança de mãos dadas, se agacha em reverência ao par. Além disso, marca terreno sempre ao lado da moça, afinal é sua missão guardá-la. 


“Antigamente, no carnaval do Rio de janeiro, quando as escolas desfilavam nas ruas, houve a necessidade de se proteger a figura da porta-bandeira, porque os integrantes das escolas rivais vinham justamente para cima dela. Então, o mestre-sala surgiu para tomar conta dela”, conta Miguel, professor da escola da Etdufpa. “Eles são a figura mais nobre, mais importante da escola de samba. Porque carregam com sua dança o símbolo máximo que é a bandeira. O mestre-sala e a porta-bandeira são os reis e a rainhas do desfile”, define.


A comparação é bem apropriada. Apesar de ser uma dança de matriz africana, muitos dos passos e, principalmente, o jeito de se vestir veio inspirado na nobreza europeia. “Surgiu como um deboche dos escravos africanos aos bailes da corte europeia. Depois de serem obrigados a servir nas festas pomposas dos nobres, eles iam para a senzala e reproduziam o que viam lá. Isso acabou se misturando com os passos de capoeira e os movimentos da umbanda, formando a dança que vemos hoje no carnaval. Daí as saias bufantes da porta-bandeira, as roupas cheias de babado”, ensina. 
Encontro reunirá dez casais ao som da bateria do Rancho


Pioneira no Pará, a academia foi inspirada em uma iniciativa semelhante criada no Rio de Janeiro há 23 anos pelo mestre-sala Manoel Dionísio. A aproximação aconteceu graças a Miguel Santa Brígida, durante sua pesquisa de pós-doutorado na capital carioca, em que estuda a relação do giro dos orixás com a dança do mestre-sala e da porta-bandeira.


"Minha pesquisa está inserida em um campo de trabalho novo, que é a etnocenologia, o estudo dessas práticas espetaculares para além das modalidades consagradas como a dança e teatro, como o carnaval, o folclore e os rituais religiosos. Nesse sentido, a criação doTambor foi essencial, já que proporcionou reunir um grupo de especialistas voltados para o estudo e difusão do carnaval paraense. O Rio de Janeiro influenciou e influencia muito o carnaval de Belém, mas acredito que o carnaval daqui tem uma identidade própria, que é menosprezada justamente por ser desconhecida”, conta. 


Criado em 2008, o Tambor hoje conta com sete pesquisadores, atuando em áreas como dança, cenografia e teatro. É o caso de Feliciano Marques, que estuda em sua tese de mestrado uma dessas particularidades do carnaval paraense, que é a figura do porta-estandarte.


“Assim como a porta-bandeira, o porta-estandarte carrega uma bandeira, mas apenas homens podem ocupar o cargo. Ele é o guardião do samba-enredo que a escola defende naquele ano e, diferente do mestre-sala, pode sambar”, descreve o acadêmico de 25 anos.


Feliciano migrou da dança contemporânea - ele é integrante do Grupo Moderno de Dança - para o carnaval, onde se apresenta no Auto do Círio, espetáculo que integra a quadra nazarena. “Encontrei na técnica um jeito único de me expressar. A modalidade do porta-estandarte só é encontrada aqui, em nenhum outro lugar. Uma pena que os grandes mestres estejam envelhecendo, sem as novas gerações para substituí-los. Com o estudo e as aulas na Academia, pretendemos aumentar o interesse”, conclui.

ENCONTRO 


Outra forma de propagação da técnica e das atividades da Academia é o V Encontro de Bandeiras, que ocorre hoje, na Etdufa. O evento irá reunir cerca de dez casais de mestres-sala e porta-bandeiras de Belém, além de alunos, para um grande baile carnavalesco, com direito à bateria do Rancho Não Posso Me Amofiná, escola do bairro do Jurunas, que integra o primeiro grupo do carnaval de Belém.


PARTICIPE


O V Encontro de Bandeiras na Academia, ocorre hoje, às 21h, no estacionamento da Escola de Teatro e Dança da UFPA (ETDUFPA), que fica na avenida Dom Romualdo de Seixas, próximo à Jerônimo Pimentel. A entrada é franca. Informações: 3212-5050.


(Diário do Pará)

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