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‘Brasil Heavy Metal’ será lançado este ano

quarta-feira, 08/05/2013, 07:37 - Atualizado em 08/05/2013, 07:38 - Autor:


Durante a adolescência nos anos 1980, Ricardo “Micka” Michaelis queria distância do tal rock brasileiro. O adolescente gostava mesmo era de bater cabeça ao som do heavy metal de grupos britânicos como Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple. Quase uma década antes de ganhar projeção com a primeira edição do Rock in Rio, o gênero musical afeito aos riffs rápidos e cabelos compridos já tomava o país.


“As gravadoras nem atentavam para o mercado que existia até 85, com o sucesso do Rock in Rio. Nesse período, o underground brasileiro já vivia a segunda geração de bandas de heavy metal, como Viper, Sepultura. Rádio Táxi, Kid Abelha, aquilo que era vendido como rock brasileiro era uma m..., nem se comparava ao som brutal que esses caras estavam fazendo”, conta o guitarrista do extinto Santuário, grupo de Santos, litoral paulista.


Filme deve ser lançado no final deste ano 


Quando formou a banda em 1982, com apenas 14 anos, a vontade era transgredir. O heavy metal, assim como o punk que surgia no mesmo período, fazia questão de chocar a ditadura da época. “Estávamos assistindo a ditadura ruir com a assinatura da Anistia, as greves no ABC. O metal veio na tentativa de acelerar o processo de implosão. Foi uma reação a toda repressão e censura que os jovens experimentavam. Era agressivo, com músicas recheadas de crítica social, que falavam dos horrores da guerra, da eminência de um desastre nuclear. Éramos vistos como o capeta em pessoa, com aquela jaqueta de couro, camisa preta”, revela em entrevista por telefone de São Paulo.


Apesar do impacto que o estilo teve na cultura, política e comportamento, Micka se surpreendeu ao tentar procurar alguma referência do período. “Não havia nada de consistente, apenas pedaços aqui e ali na internet, desconectados”, afirma.


Desde então ele vem se dedicando a passar a limpo os anos de formação do gênero no país com o documentário “Brasil Heavy Metal”. Previsto para ser lançado no final deste ano, o filme irá focar no período compreendido entre os anos de 1978 a 1989, a ‘era ingênua do metal’, como define o diretor. “Estávamos adaptando o estilo para as nossas necessidades. Uma sonoridade que não era brasileira, que não tínhamos familiaridade, não se ouvia em rádio, não se achava em loja de disco. Depois da década de 90, já existia estrutura, informação, o metal brasileiro se tornou um fenômeno mundial. Com o Sepultura fazendo turnê na Europa. Mas nada foi tão ingênuo quanto aquele comecinho, lá nos anos 80”, explica.


A produção iniciou em 2008, e desde então já entrevistou aproximadamente 80 pessoas ligadas à cena, incluindo bandas como Witchhammer, Overdose, Centúrias, Korzus, Harpia, Salário Mínimo e Vírus. Tudo alcançado de forma independente, realizado nos horários vagos da agenda de Micka, que hoje é dono de uma produtora de vídeo em São Paulo, a Ideia House. 


“Por eu ter feito parte dessa com o assunto me ajudou muito. Foi meu cartão de visitas pra me aproximar desses músicos, descobrir o paradeiro desses caras. Tinha gente que havia virado professor, outro que trabalhava com material reciclável. Também viajamos por várias cidades, tudo por conta própria”, garante. Com Stress, o Pará marcou história 


Segundo ele, o metal no Brasil surge em uma espécie de ressaca do rock psicodélico que estava sendo feito em solo tupiniquim na década de 1970, coincidindo internacionalmente com os primeiros ecos da New Wave of British Heavy Metal (do inglês, nova onda do metal britânico), do qual o Iron Maiden fazia parte. Apesar da falta de informação e comunicação, várias cenas regionais começaram a se formar. 


Dentre elas, um dos destaques fica para a paraense Stress, considerada pioneira do heavy metal do Brasil com o lançamento do disco homônimo em 1982. O álbum foi gravado no Rio de Janeiro (RJ), bancado pelos próprios músicos, lhes custando todas as econômicas. Ao ponto que, sem dinheiro pra mixagem, resolveram fugir com a fita máster sem pagar. Um ano depois a banda retornava para a capital carioca ovacionada em um show no Circo Voador, fechando pouco tempo depois um contrato com a multinacional Polydor.


“É algo inusitado de fato, mas é inegável importância histórica do Stress. Aquilo acabou instigando as outras bandas da época: se os caras são do Pará, vieram até aqui por conta própria gravar, a gente também consegue”, revela.


Inclusive, a música tema do documentário é assinada por Roosevelt Bala, vocalista e baixista do Stress. Batizada de “Brasil Heavy Metal”, a faixa tem participações de outros 16 vocalistas de bandas veteranas como Korzus, Taurus, Viper e Metalmorphose. 


“Meu irmão, Paulo, ex-vocalista da Santuário, participa da música. Me emocionei, cara. A banda durou até 87, de disco, fizemos apenas parte de uma coletânea, mas foi um momento muito intenso da minha vida, Tem sido muito bom reviver aquele período Não sou o narrador do documentário, o filme não é baseado no meu ponto de vista. Mas sinto que é a nossa história. Quem viveu aquilo, vai ter esse sentimento de nostalgia. Para quem está chegando agora, o fã mais novo, vou mostrar: ‘tá aqui o que existia antes de você começar a gostar de metal’. É uma declaração de amor, bicho. Tá vendo, quem disse que metaleiro não tem coração?”, questiona Ricardo “Micka” Michaelis. 


(Diário do Pará)

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