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Seminário discute as várias facetas de Ruy Barata

quinta-feira, 02/05/2013, 07:44 - Atualizado em 02/05/2013, 07:47 - Autor:


Mesmo depois da lei da Anistia ter sido promulgada em 1979, Ruy Barata (1920-1990) ainda era um dos alvos preferidos da censura na década de 1980. “Nem mesmo as letras de música, que muitas das vezes não tinham nada a ver com política ou protesto, estavam conseguindo passar pela malha fina da ditadura”, revela Alfredo Oliveira, autor de “Paranatinga”, misto de biografia e antologia poética de Ruy Barata.


Publicado em 1984, o livro foi responsável pelo resgate da obra do poeta paraense, que vinha sofrendo com a perseguição dos militares desde a instauração do golpe em 1964, quando foi preso por subversão. 


“O período de 59 até 64 é marcado pelo engajamento da literatura do Ruy. Eram poemas de cunho anti-imperialista e a favor da revolução democrática nacionalista. Que acabaram servindo de material de propaganda para o Partido Comunista Brasileiro, do qual era militante. Foram justamente esses versos cheios de idealismo que lhe colocaram na cadeia e, posteriormente, sob a vigilância dos militares. ‘Paranatinga’ foi a primeira publicação que reuniu esse material que estava disperso em panfletos e jornais, um momento decisivo na vida dele e um pedaço importante da nossa história”, conta Oliveira, que conheceu o poeta na militância do Partidão, nos anos 1950.


Ele lembra mais uma vez essa história amanhã, durante a mesa redonda “A poesia engajada de Ruy Barata”, que integra o seminário “Escritor homenageado: Ruy Guilherme Paranatinga Barata”. A programação que inicia hoje com a palestra “O Político e o Poeta - A trajetória de Ruy Barata”, ministrada pelo seu filho Ruy Antônio Barata, faz parte da XVII Feira Pan Amazônica do Livro, que este ano tem o poeta como homenageado.


De acordo com Tito Barata, filho de Ruy e organizador do seminário, a intenção do evento é justamente tentar apresentar as diversas facetas dessa figura complexa que foi seu pai: ativista, poeta, intelectual, político e músico. 


“O Ruy teve uma formação completa, apesar de não ter frequentado a escola quando criança: foi alfabetizado pelo meu avô. Era fluente em várias línguas e desde criança já tinha um hábito de leitura invejável por muitos adultos. Ele se formou advogado, atuou como professor de filosofia. Ao mesmo tempo que ele tinha essa visão ampla de mundo, ele era um cara do interior. Nasceu em Santarém, percorreu quase todo o Pará quando atuou como deputado. Essa vivência tão plural marcou sua poesia e canções. Escrevia uma música de cunho rural e urbano, falava de uma forma tão lírica e verdadeira dos rios, do jeito de ser e falar dos paraenses. Era regional, sem ser demagogo”, define o jornalista. 


Toda essa rica trajetória foi encapsulada no poema “O Nativo de Câncer”. O primeiro canto do texto foi publicado em fevereiro de 1960, no extinto jornal Folha do Norte. O trabalho consumiria os próximos dez anos de sua vida, mas mesmo assim permanece inacabado. 


“Acho que ele planejava desde o início que fosse um trabalho em progresso. ‘O Nativo de Câncer’ é o testamento poético de Ruy Barata. Fala sobre a relação dele com a cultura da região: a mitologia amazônica, o ribeirinho, o indígena, a natureza. Incluindo nesse inventário ele mesmo, um nativo do signo de câncer”, explica o publicitário Pedro Galvão de Lima. 


Programação continua amanhã


Durante o seminário, Galvão apresenta a mesa redonda “Ruy Barata: O Nativo de Câncer”, tema que lhe é bastante familiar. “Quando a primeira parte do poema foi publicado no jornal, eu encontrei com o Ruy no bar e fui logo rasgando seda. Dizendo o quanto gostava do poema, passamos a noite toda discutindo, esmiuçando o texto. Eu tinha 21 anos na época, era amigo de faculdade da filha dele, a Maria Diva. Imagina se eu achava que ele fosse levar a sério minha opinião. Quando vejo alguns dias depois no jornal, o novo canto do poema era ‘Dedicado a Paulo Galvão’. Eu nunca soube o porquê daquilo, essas coisas não se perguntam. Apenas aceitei como o belo presente que é”, diz.


RIO QUE É RUA


Natural de Santarém, oeste do estado, Ruy Barata veio para a capital aos 10 anos para completar os estudos. Se formou em direito como o pai e largou a profissão para seguir a carreira de jornalista. Fez parte do grupo de intelectuais que frequentava o Central Café nos anos 1940, dentre eles Benedito Nunes, Haroldo Maranhão e Waldemar Henrique.


Autor dos livros “Anjo dos Abismos”, “A Linha Imaginária” e “Antilogia” ficou mais conhecido por sua parceria com o filho Paulo André Barata, que deu origem a composições tornadas hinos como “Foi assim” e “Esse rio é minha rua”.


(Diário do Pará)

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