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A vida real, inesgotável fonte de inspiração

terça-feira, 30/04/2013, 07:36 - Atualizado em 30/04/2013, 07:38 - Autor:


O escritor e jornalista Ignácio de Loyola Brandão não tem celular, mas se considera um homem contemporâneo. Não gosta de ser encontrado, ele mesmo vai ao encontro de quem deseja ver. Prefere o hoje ao ontem. Aos 77 anos, lúcido e vivaz como poucos da geração que revelou - de Araraquara, interior paulista, para o mundo - nomes como o teatrólogo José Celso Martinez, Ignácio garante ter visitado 47 cidades brasileiras só no ano passado para falar sobre literatura. “Quando retorno por lá (Araraquara) e vejo aquele bando de velhinhos curvados sentados conversando e sem perspectiva de realizar mais nada percebo que não me encaixo nesse perfil”, desabafou, durante o bate-papo na noite do último sábado, na abertura do Encontro Literário da Feira Pan-Amazônica do Livro. 


Na plateia do auditório Dalcídio Jurandir, além dos fiéis leitores, Ignácio foi observado da primeira fila pelo amigo Ziraldo. Quando o viu entrar no local, poucos minutos após o início do bate-papo, o escritor lembrou que certa vez, enquanto se preparavam para participar de uma jornada literária em Passo Fundo, com cerca de 600 espectadores, Ignácio olhou para Ziraldo e disparou: “Aqui a gente é Roberto Carlos”. A brincadeira, explicou o escritor, era uma referência à necessidade de os autores mostrarem a cara, se apresentarem e serem reconhecidos pelo povo. Com uma carreira pontuada por livros como “Bebel que a Cidade Comeu” (1968), “Zero” (1975), “Dentes ao Sol” (1976), “Não Verás País Nenhum” (1981) e “O Beijo Não Vem da Boca” (1985), Brandão diz carregar sempre consigo uma caderneta de anotações. Naquelas pequenas páginas descreve diálogos, situações e percepções do cotidiano. “Quando releio isso aqui, visualizo os materiais para produção literária. Não vem um raio do céu num belo dia de verão que clareia a imaginação e eu começo a escrever, isso é papo. É do cotidiano, da vida humana, que retiro o material para minhas obras”, disse enquanto empunhava um pequeno e gasto bloco de anotações. 


O título do livro “Zero”, por exemplo, surgiu quando viu em um outdoor o número “0” estampado em um fundo totalmente branco. Ao aproximar-se, curioso, para saber do que se tratava, Loyola leu em pequenas letras pretas a frase: “Zero de entrada e o resto em suaves prestações”, aquilo o incomodou. Guardou na memória e fez a relação com o romance que acabara de escrever. “Nossa vida começa no zero, no zero termina, o zero é uma prisão. Isso cabia muito bem naquele livro que conta a história de Rosa e José”, comentou.


“Tentar ser célebre a qualquer custo virou uma paranoia” 


Desta passagem por Belém, a sexta de sua carreira, já anotou na caderneta a palavra “osga” – vocábulo paraense sinônimo de lagartixa -, presenteada pela mediadora do encontro, a jornalista Renata Ferreira. “Conversávamos antes de entrar sobre os títulos das obras dele, que são muito criativos. Falávamos sobre o vocabulário paraense e comentei sobre essa palavra, na hora ele anotou”, contou Renata. “Agora quero comprar um dicionário de ‘paraensês’. Já tenho de várias cidades, quero ver o de vocês”, riu.


CRÍTICAS


O diálogo com a plateia transitou entre o humor e as críticas políticas e sociais, da infância pobre às experiências que colhe de suas andanças pelo Brasil. “Tenho uma cara dura e séria. Mas por dentro sou doce e terno. Estou aberto a verificações também”, brincou em meio a gargalhadas. Sem firulas, assumiu o lado metódico. “Refiz 30 vezes o final de ‘Não Verás País Nenhum’ (...). Assisti ao filme ‘Oito e Meio’ de Federico Fellini 119 vezes. Não publico nada até ter certeza que é exatamente aquilo que estou querendo transmitir”. 


Ele também não poupou comentários ácidos direcionados ao parlamento federal e à banalização e exposição da vida pessoal. “A história é louca... A solução do governo para o povo brasileiro é sempre ridícula e prosaica (...). Hoje temos a Câmara querendo questionar o STF, a Comissão de Justiça sendo composta por condenados, duas figuras desprezíveis”, argumentou indignado. “Por outro lado tem gente querendo ser célebre a qualquer custo. Virou uma paranoia, pior do que isso são as pessoas que alimentam essa cretinice, essa insensatez, enquanto ainda tem uma mídia que estimula e manipula essa estupidez”, vociferou.


Apaixonado por cinema - a única diversão na cidade natal, que tinha apenas 16 telefones na época, em tempos pré-televisão e internet, e uma população jovem sedenta por entretenimento -, ele afirmou que já recusou dois convites para liberar suas obras para reprodução cinematográfica. “Achei que não ficariam boas, simplesmente recusei por achar que não se encaixariam naquela linguagem”, comentou. Questionado por um expectador sobre qual livro gostaria de ver na telona, não hesitou e apontou “Dentes ao Sol”. “Conta a história de um amigo que não teve coragem de deixar a cidade em busca dos sonhos. Acabou morrendo”.


Para este ano, Ignácio está aguardando o lançamento do livro “Os olhos cegos dos cavalos loucos”. “Um acerto de contas com o passado. Uma dívida que tô pagando com meu avô”, conforme as próprias palavras do escritor. Segundo ele, foi a primeira vez que falou sobre a obra, que registra os momentos que viveu ao lado do avô paterno, o marceneiro Zé Maria. O título demorou mais de 40 anos para chegar ao papel. “Sei que de onde ele está vai saber o que eu fiz e vai encontrar alguma forma de ler”.


(Diário do Pará)

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