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Guitarrista do Titãs fala do novo livro

domingo, 28/04/2013, 09:40 - Atualizado em 28/04/2013, 09:54 - Autor:


A imagem do negro que revolucionou a música na década de 60, com sua incontestável habilidade de tirar som das cordas da guitarra, encheu de sonhos a cabeça do pequeno Antônio Carlos, assim como de muitas outras crianças pelo mundo. Ao conhecer Jimi Hendrix, Tony Bellotto, ainda menino, teve certeza de que um dia seria rock star. Anos mais tarde, o desejo juvenil se concretizou: nos anos 80, o guitarrista paulista entraria para a banda Titãs, uma das mais influentes do cenário nacional.


Conhecido por criar riffs e letras marcantes, o que muitos não sabem é que Tony também nutria outra vontade, além de incendiar sua guitarra em cima dos palcos. Na infância, ele se dividia entre a paixão pela música e pela literatura, universos que se tocavam com frequência na mente criativa do artista. “Eu queria compor canções e melodias, assim como também queria escrever contos e romances. A música acabou tomando conta da minha vida, mas lá pelos 30 anos, quando já me sentia mais confiante, resolvi dar vazão ao meu tino literário. Escrevi meu primeiro livro”, relembra o artista, hoje aos 52 anos.


A força furiosa que atribuía às músicas do Titãs ganhou novos contornos em sua produção literária, percurso também marcado por uma atuação vibrante. Tony estreou no universo das letras com o pé direito: lançou em sequência a trilogia do investigador Bellini, personagem que o colocou entre os escritores promissores do estilo literário policial. Os livros “Bellini e a esfinge” (1995), “Bellini e o demônio” (1997) e “Bellini e os espíritos” (2005) fizeram tanto sucesso que os dois primeiros chegaram a ser adaptados para o cinema. Um pouco encucado com a presença do protagonista em todas as suas obras até então, o escritor decidiu experimentar outros caminhos, escrevendo romances como “O livro do guitarrista” (2001), “Os insones” (2007) e seu mais novo lançamento, “Machu Picchu” (2012).


Na entrevista exclusiva ao Caderno Você, Tony Bellotto fala de suas paixões, processos criativos e de sua participação nesta edição da Feira Pan-Amazônica do Livro:


P: Riffs e literatura - quando e como pintou o interesse por cada uma dessas expressões?


R: As duas paixões nasceram juntas, ainda na infância mesmo. Quando vi o Jimi Hendrix, o The Who, me apaixonei pelo rock and roll. Então tomei a decisão de tocar. Na adolescência, participei de bandas, até que um dia pintou a ideia de montar o Titãs, grupo ao qual até hoje me dedico. Ao mesmo tempo, desde novo eu lia muito, tinha curiosidade sobre os escritores e suas histórias. A dedicação pela música me fez deixar a literatura de lado por um tempo. Eu até rabiscava textos, mas nada que fosse publicável. Por volta dos 30 resolvi dar vazão a isso e me concentrei em fazer meu primeiro romance. Surgiu a figura do investigador Bellini. Desde então não parei mais. 


P: Sua estreia na literatura é com uma trilogia policial. Qual é o barato de desbravar essa linha de escrita? Quais os escritores e outras referências que o levaram a se interessar por esse universo?


R: Sempre li muito, e nesse período em que estava determinado a começar a escrever , me interessei bastante por literatura policial. Na verdade, eu percebi que livro policial era uma boa maneira de começar. Ele oferece um caminho inicial, uma fórmula: existe um enigma a ser desvendado, era preciso inventar um crime e ele precisa ser solucionado. Encarei isso como um jogo e fui experimentando. As referências são diversas, o Edgar Allan Poe e outras coisas que chegavam a mim. Eu nunca fui um aficionado por essa linha, mas ela acabou caindo como uma luva para o que eu estava querendo no momento.


P: A música está muito presente no seu trabalho como escritor. Nunca faltam trilhas sonoras para os seus romances e você chegou a lançar até o “Livro do Guitarrista”. Como a sonoridade influencia sua escrita?


R: São formas distintas de expressão. Por exemplo, eu não gosto de ouvir música para escrever, prefiro o silêncio para me concentrar. Porém, na prosa existe ritmo, cadência, assim como na música. Todos os meus livros fazem referência ao som, normalmente isso de alguma forma norteia meus personagens. O impulso criador é parecido. O que você busca em uma letra de música dá para usar de outra forma na prosa. No excesso de palavras, dá para buscar o ritmo.


P: Você já declarou que conseguiu realizar seus dois sonhos de infância: tocar guitarra em uma banda de rock e ser escritor. Algum outro sonho a ser alcançado?


R: Não, estou bem resolvido em relação aos meus sonhos (risos). Mas é claro que estou sempre instigado. Você ainda sonha em fazer um disco melhor do que os outros, que traga algo novo, uma surpresa. Já fiz coisa demais, inclusive apresentar um programa de TV. Agora vivo mesmo nessa eterna busca de me superar.


P: Você está trabalhando na divulgação do seu último livro, “Machu Picchu”. O romance conta a história de um casal e suas fugas emocionais: enquanto um tem um amante pela internet, o outro tem um caso com um colega de trabalho. De onde veio o insight e a vontade de tratar dessas “novas relações”?


R: Pra mim, pelo menos, as coisas nunca partem de algo estabelecido. Até nas canções não são os temas que me atraem mais, e sim a forma. Romance é uma coisa que exige muito, muita motivação, ficar quatro, cinco horas por dia escrevendo. No caso do “Machu Picchu” a obra surgiu depois que fui ao lançamento de um livro da escritora Martha Medeiros e fiquei refletindo sobre a forte presença de mulheres no evento. Fiquei pensando no que elas gostavam de ler e cheguei nessa ideia de um romance com um casal, com traições e outras estórias. Aí comecei a contar e assim fui descobrindo que trama era essa. A cada novo elemento que ia aparecendo fui buscando outras leituras, principalmente quando percebi que iria envolver esse “novo conceito de família”, que as vezes se desestrutura por causa de relações virtuais.


P: Qual é a importância de um evento como a Feira Pan-Amazônica do livro, que durante uma semana faz com que milhares de pessoas se voltem para a força da literatura?


R: Apesar de ter uma relação com Belém – visitei a cidade algumas vezes na adolescência, tinha uma amigo que era daí e íamos passar férias, visitávamos Mosqueiro – eu nunca tinha participado da Feira. Acho fundamental a iniciativa porque o Brasil é sabidamente um país em que não se lê muito. Livrarias são pouco frequentadas. Feiras assim são como acontecimentos, fazem famílias inteiras interagirem com literatura, consumirem livros.


P: Quais são os projetos que Tony Bellotto, o guitarrista e o escritor, estão envolvidos?


R: Comemoramos 30 anos do “Cabeça Dinossauro” ano passado e a ideia era culminar com lançamento do disco novo. Ainda estamos em estúdio ensaiando, compondo e trabalhando no que já temos. Devemos gravar no segundo semestre. Depois de uma breve crise por causa da presença do Bellini em meus livros, resolvi voltar ao personagem. Ano que vem devo lançar mais uma obra sobre o investigador. Ele também deve protagonizar uma história em quadrinhos ainda esse ano.

(Diário do Pará)

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