Edição do dia

Edição do dia

Leia a edição completa grátis

Previsão do Tempo
24°
cotação atual R$

Notícias / Cultura

Cultura

Reginaldo Rossi sobe ao palco do Amazônia Hall

sexta-feira, 26/04/2013, 07:54 - Atualizado em 26/04/2013, 07:54 - Autor:


Reginaldo Rossi é um homem seguro de si. Ao ponto de não ligar nem para a mítica que o próprio ajudou a construir. Antes de começar a entrevista, pediu licença para terminar um copo de leite. “Tenho 69 anos, já não sou um garotão. Tenho que me cuidar. Quando tinha sua idade, trocava o dia pela noite”, revela o cantor em conversa por telefone de sua cidade natal, Recife (PE).


Às vésperas de completar 50 anos de carreira, o músico se apresenta hoje em Belém em um show sem surpresas, como faz questão de ressaltar. Apesar da pecha de brega, o autor de “Mon Amour, Meu Bem, Ma Femme” e “Garçom” garante que o seu repertório é tão marcante na vida dos brasileiros quanto o de seu ídolo, Roberto Carlos. “Os dois maiores cantores de brega do Brasil somos eu e o Roberto”, dispara.


O galã da jovem guarda - que se auto intitulava “O Pão”, nome do seu primeiro disco, lançado em 1965 – aproveita a maturidade como um cartão verde para dizer o que pensa. Sem crises ou pudores, aponta para todos os lados em nossa conversa: fala palavrão, chama os Beatles de cafonas e critica o elitismo da atual música brasileira. “Canto o que o povo gosta de cantar, faço show pro povo. Por que ter vergonha?”, questiona.


P: Você começou na música com o rock, hoje é conhecido como o Rei do Brega. Como se deu essa passagem? Vê muita diferença no que fazia antes e faz hoje?


R: Absolutamente. Quando você está com mais idade fica com menos medo de falar. As pessoas criam um estereótipo que não existe. Não tem brega, nem chique, nem rock, nem baião. Tudo é música. Quando se tem 17, 18 anos se dança treme-treme, o twist, o que for moda na época. Aí, depois, você vai ficando velho e vai se adaptando. Antes do rock, tínhamos na rádio músicos como Orlando Dias, Nelson Gonçalves. [canta, impostando a voz no estilo do ídolo gaúcho em a ‘A Volta do Boêmio’] “Boemia, aqui me tens de regresso...”. Era coisa de coroa, de fossa. O rock foi um estilo que, pela primeira vez, falou diretamente com os jovens. Não é que eu cantava pop ou rock antes, eu cantava o que era inerente à minha idade. E o que tocava era Elvis, The Beatles. A primeira leva de grupos brasileiros também veio nessa linha, como Renato e Seus Blue Caps, The Fevers, The Sunshines. Aí apareceu o Roberto Carlos e instaurou o romantismo no negócio, coisa que muito idiota não percebe que é igualzinho ao rock dos Beatles na época, super romântico e super brega.


P: Em Belém, o brega designa um estilo musical bem distinto. Acha que o resto do país um dia vai fazer as pazes com a música popular como nós fizemos?


R: Isso já acontece há muito tempo. E eu, em todos esses anos, sempre fui uma exceção à regra. Tem uma canção que eu adoro e que faz parte do meu repertório “Ne me quitte pas” - uma música classuda, em francês - que não passa de um drama da porra. Brasileiro, seja de classe média, seja o milionário, seja a empregada, gosta de amar, de sofrer, de se entregar. Mas temos uma parcela da classe artística e da mídia, dos formadores de opinião, que gosta de complicar. O cara pra conquistar aplauso, inventa história, enrola as palavras, divide o público. Meu amigo, mentiras não me consolam. Não quero sucesso desse jeito, não quero um iate de 30 metros porque a gasolina tá cara e manter a tripulação dá muito trabalho. Algum tempo atrás o Paulo Coelho, o maior escritor brasileiro vivo, estava dizendo em uma revista algo que sempre falei: existe uma ditadura da alta cultura. 


P: Você sempre teve um público cativo no Pará. Qual sua relação com o Estado?


R: Se você me permite ser sincero, mesmo porque não preciso fazer média com ninguém, o Pará é tão bom pra mim... Tão bom que já até pensei em morar aí, de tanto que fazia show na década de 70. Teve um dia que acho que bati meu recorde: seis shows em uma única noite. Me apresentei no Lapinha, no Grêmio, no Chapéu de Couro, no bloco do Rancho. Já fui em Castanhal, Marituba, Salinas, Itaituba. Ia tanto a Belém que fiz as contas e era mais vantajoso morar aí de vez. Foi uma época boa, de descoberta do Brasil. Veja bem, minha carreira começou em São Paulo, antes disso havia passado minha adolescência no Rio de Janeiro. Só voltei a morar na minha cidade natal Recife aos 40 anos. Antes Rio-São Paulo era o centro do mundo. Hoje a tecnologia facilitou muito as coisas. Dia desses fui gravar no Ratinho em São Paulo, sai de Recife às 4 horas da tarde, às 3 da manhã já estava de volta em casa. No começo da minha carreira o avião mais rápido demorava de seis a sete horas pra fazer só uma perna da viagem. 


P: Conhece o tecnobrega? Vê uma ligação com o novo ritmo e o brega que ajudou a criar no começo de sua carreira?


R: Agradeço a todas as aparelhagens porque tocam direto Reginaldo Rossi. Mas eu não vejo ligação com o que eles fazem e o que eu faço. Eu vejo a música que Mozart fazia, a que Pink Floyd fazia e a que Reginaldo Rossi faz. Não tem como classificar. Eu acho interessante o tecnobrega, uma música que tem tudo a ver com a juventude daí. Gosto da Gaby Amarantos, já cantei com a banda Calypso. Mas ao mesmo tempo eu me mantenho fiel ao meu estilo. Não é meu negócio. Vivo em um mercado que é muito sensível a modas. Hoje em dia é moda ter seis bailarinas no palco. Não vou fazer isso. Mas aceito a Lady Gaga do mesmo jeito que aceitei o Elvis. Às vezes a pessoa não canta nada e no meio do show, pra chamar a atenção, tira a calcinha. Assim é a vida.


P: Como sua música está sendo reinterpretada pelas novas gerações? E sua relação com o pessoal da vanguarda de Recife, como o mangue bit,? Tem contato com esse pessoal?


R: Conheço todo esse pessoal, Otto, Cumadi Fulozinha. Eles gostam da minha música. Assim é meu público também. Quem vai no meu show é jovem, coroa fica em casa. Eu lido melhor com a molecada. Por exemplo, o meu mais recente disco “Cabaret do Rossi” (2010) eu gravei uma música do Waldick Soriano, “A Dama de Vermelho”. É uma música de mais de 40 anos, mas faz um sucesso tremendo entre as adolescentes de 16, 17 anos que frequentam meus shows. Elas chegam: “Seu Rossi, vai tocar ‘A Dama de Vermelho’?” E eu já devo ter cantado a mesma música pra avó dela décadas atrás [risos].


P: O assédio continua grande?


R: Ainda acontece, mas já passou o tempo. Brinco que sou mais bonito que Brad Pitt e mais jovem que o Justin Bieber. Elas vão à loucura.


P: O bom-humor sempre foi uma marca nas suas canções. Porque outro ídolos da jovem guarda não adotam essa postura? Roberto Carlos ainda insiste em se levar a sério demais, proibindo livros e matérias a seu respeito...


R: Não tento controlar nada que sai. A posição do Roberto é dele, a da Joelma é dela. Eu sou um livro aberto. Se um cara disser alguma mentira, vou lá e aponto na cara do cabra e digo que é mentiroso. As pessoas falam, não adianta tentar controlar.


P: E o quão sério estava a respeito da campanha de incursão na política como candidato a deputado estadual em Pernambuco? Pretende mudar de carreira?


R: Eu não procurei a carreira política, foi ela que me procurou. Mas não penso mais nisso, chega. Só quero me dedicar a ver o povo cantando junto. Meu negócio mesmo é a música. Faço três a quatro shows por semana, mesmo ‘tando’ quase setentão. Não tenho planos de lançar material novo, de gravar música inédita. Quero me dedicar ao que eu sei fazer melhor. Ao que o público já conhece. Ou seja, o melhor espetáculo da terra.


(Diário do Pará)

Conteúdo Relacionado


0 Comentário(s)

MAISACESSADAS