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Ziraldo fará palestra na Feira do Livro

sexta-feira, 26/04/2013, 07:46 - Atualizado em 26/04/2013, 07:46 - Autor:


A idade se arrastando assusta muita gente. Os pelos perdem a cor, o rosto ganha novos contornos e orifícios, bem menos harmônicos do que os que marcam a juventude. A memória se esvai, as dores no corpo se intensificam. Com mais de oito décadas de vida, o mineiro Ziraldo não nega as marcas da velhice. Na verdade, as usa a seu favor.


Em seu site oficial, empresta palavras do compositor Luiz Gonzaga para proferir com orgulho: “Eu era assim, fiquei quase assim e hoje estou assim, de cabelos brancos de tanto andar por este país”. 


P: Ziraldo, como você mesmo diz em seu site oficial, ganhou muitos cabelos brancos de tanto andar por este país. E nessas suas andanças, algumas vezes o destino o trouxe a Belém. Qual é sua relação com a cidade?


R: Eu Já fui a Belém inúmeras vezes. Nossa, desde quando nem tinha edifício de dez andares na cidade (risos). Nos anos 50, eu trabalhava na revista Cruzeiro e fui organizar uma exposição de fotografia de Luciano Carneiro, artista que havia tinha morrido em um desastre de avião e que teve seu trabalho circulando por todo o país, inclusive na Região Norte. Também estive na cidade na campanha pelas Diretas Já e para conhecer o Círio. O que nem todo mundo sabe é o que eu mais gostava de fazer por aí era comer um pato no tucupi, de um restaurante de uma senhora que conheci. Que saudade! Enfim, eu acompanhei o crescimento da cidade, a estruturação da orla, lugar que adoro. Fiz muitos amigos, tenho muito carinho por esse lugar.


P: Você já se apropriou de personagens do imaginário popular como fonte de inspiração, como no caso da Turma do Pererê. E o imaginário amazônico?


R: Manjo essa turma lendária do Pará e da região, como o Boto, que é um personagem que infelizmente quase não é mais usado. Ele tinha muita importância antes, né, mas agora não pega mais ninguém. (risos) Na verdade, o Saci Pererê é o personagem do imaginário que eu realmente revisitei no meu trabalho, porém, cheguei a fazer outros que também tinham pelo menos uma leve inspiração nas lendas amazônicas.


P: O universo infantil claramente o atrai. Me fale um pouco das situações e referências que o inspiram.


R: Eu sempre fiz muita coisa: charge, cartum e peça de teatro. Porém, dos meus experimentos, o que teve mais resultado, que repercutiu mais, foi a produção infantil e isso acabou delimitando um caminho para mim. Mas lógico que sou muito feliz com isso. Assim como quase todo mundo, sempre pintei e desenhei, fiz diversas coisas, mas fiquei marcado por ser um autor infantil.Eu tenho uma memória muito louca. Sou capaz de desenhar a rua principal da minha cidade, consigo desenhar casa por casa do lugar que vivi na infância. Lembro bem das coisas. Mas se me pedirem para desenhar o cenário que me cerca hoje, não saberei. Lembro do meu olhar para a vida e para as pessoas, por isso sou tão parceiro das crianças. Essa memória eu não perco e é daí que mais vem minha inspiração.


P: O Menino Maluquinho ultrapassou a alçada de um simples personagem para ganhar vida própria a cada geração. Como você enxerga as mudanças de postura e comportamento das crianças a partir desse contato que elas têm com o seu trabalho?


R: O que muda é o que está acontecendo em torno do ser humano, mas nós mesmo somos imutáveis. Sempre sofremos pelas mesmas razões, pelas mesmas coisas. Antigamente brincávamos de fingir que estávamos ouvindo rádio, soltar papagaio, rodar peão. Agora temos aí os jogos eletrônicos. Os dilemas são os mesmos. Não me preocupo com isso, vou fazendo da maneira que me parece mais divertida. Meu único cuidado é que elas me entendam.


P: Em tempos de mídias digitais, apetrechos tecnológicos, como o seu trabalho se adequa à essa realidade?


R: Eu não posso mais fazer nada que eu não use os recursos do meu tempo. Continuo fazendo minhas pinturas a óleo e outras coisas, porém, me aproveito das tecnologias até mesmo para otimizar meu tempo. Claro que não sei lidar com esses “negócios”, mas tenho uma equipe ótima que me ajuda. (risos) Acho que as coisas são assim: o livro pode acabar, mas o homem vai continuar fazendo poesia e história. O suporte é novo, mas a essência não muda.


P: “Estudar é importante, mas ler é mais importante do que estudar”, esse é o tema da sua palestra que vai ser proferida aqui na Feira do Livro.


R: Não adianta querer cuidar da educação com pessoas que não sabem ler e escrever. Tem que dominar o código, tem que insistir para desenvolver na criança a curiosidade dela para que ela possa descobrir nos livros as histórias e sensações. O que você não lê, você não guarda. Tem que ler como quem respira e o autor infantil ajuda nesse trabalho, de formação.


P: Em tempos de IPad, livros digitais, na sua opinião qual a importância de feiras como essa que reúnem cerca de meio milhão de pessoas?


R: Essa feira é incrível exatamente por isso. Ela é a que mais proporciona ao público em geral o contato com o livro. Na verdade, em Porto Alegre também tem uma muito boa. Ambas mobilizam a cidade. A imprensa se interessa, as pessoas querem participar. Essa mobilização é importante para todos os lados: o escritor e o público ganham. Por isso eu sempre topo, independente de ter primeira classe ou não de avião. E eu preciso de conforto, né, já que sou um velhinho. (risos)


P: Podemos esperar algo em especial de Ziraldo em 2013?


R: Eu me divirto muito fazendo a série “Meninos do espaço”. Agora estou produzindo a do Menino de Vênus, que irei lançar na Bienal de São Paulo. Vou lançar os “haicais” do menino maluquinho. São diversos poeminhas, a maioria de três versinhos. Enfim, sou do tipo que trabalho o dia inteiro, sempre vai pintar algo meu por aí.


(Diário do Pará)

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