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Cacá Carvalho dispensa os parabéns

domingo, 21/04/2013, 09:44 - Atualizado em 21/04/2013, 11:38 - Autor:


Cacá Carvalho dispensa os parabéns. Ele, que completará 60 anos na próxima quarta-feira - 45 deles devotados ao teatro - tenta se desvencilhar da homenagem. “Velhice a gente sente no corpo, não contando velas em cima de um bolo”, justifica em entrevista por telefone de São Paulo, cidade em que reside desde a década de 1970.


Sua postura na vida longe dos holofotes reflete em muito a que leva nos palcos. Há duas décadas dedica-se à obra do dramaturgo italiano e prêmio Nobel de Literatura Luigi Pirandello (1867-1936), empreitada que deu origem à Trilogia de Pirandello, iniciada com o espetáculo “O Homem com a Flor na Boca”, de 1994, e que se encerra agora com “umnenhumcemmil”, concebido em 2011. “A obra de Pirandello é um mergulho na alma humana e nos questionamentos do homem contemporâneo”, define.
Este ano, o ator inicia as comemorações de seus 25 de pesquisa com o respeitado coletivo italiano Fondazione Pontedera Teatro, apresentando a trilogia na íntegra. Conversamos com Cacá sobre seu processo criativo, percurso e os planos para o futuro, agora que finalmente pretende deixar o escritor italiano de lado. “Agora chega de Luigi Pirandello”, desabafa. Confira:


P: Quando começou sua relação com Luigi Pirandello? Como o diretor italiano acabou tomando um papel tão central na sua carreira?
R: Minha relação com a obra do Pirandello já completa 20 anos. Eu havia acabado de voltar de uma temporada de três meses na Itália, obrigado a cortar minha viagem pela metade por causa do visto de turista. Resolvi aproveitar esse tempo no Brasil pra montar um espetáculo e juntar algum dinheiro para voltar a Europa. Foi ai que por sugestão do Roberto Bacci, diretor do grupo italiano Fondazione Pontedera Teatro, montamos “O homem com a flor na boca”, em 1994. Conheci a companhia na década de 80, quando fui me apresentar na Europa com “Meu Tio, o Iauraretê” (1986), versão do conto de Guimarães Rosa. No ano seguinte chegou um convite para trabalhar com eles em um grupo de pesquisa sobre teatro criativo. Dez anos depois, eu fazia uma apresentação da peça em Roma quando recebi uma visita de Alessandro D’Amico, herdeiro da obra de Pirandello. Ele veio dar bênção ao meu trabalho e da equipe, além de sugerir uma montagem a partir de novelas ‘pirandellianas’. Das 365 novelas, escolhemos 10, as que compõem o núcleo ‘noir’ do autor, caracterizadas por um humor particularmente caustico. Desse recorte, optei por três, que deram origem “A poltrona escura”, de 2003. Para esta peça, Alessandro abriu as portas da casa que Pirandello viveu e morreu em Roma para que nos apresentássemos. Encenei na mesma sala que o diretor usava, passei pela sua biblioteca, usei o mesmo camarim. Pouco antes da morte de D’Amico, ele sugeriu que eu e minha equipe estudássemos um livro que era o último escrito por Pirandello “umnenhumcemmil”, obra que consumiu 13 anos para concluir. Seu livro testamento. Enfim, a história dessa relação com a obra dele está recheada de coisas bonitas. Foram mais de 350 apresentações só com “A poltrona escura”. Fui nomeado cidadão honorário italiano pelo trabalho. Uma história que não é só minha diga-se de passagem, faz parte também da vida da minha equipe. Eu trabalho há 25 anos com o Roberto Bacci, por exemplo. Ele dirigiu todas as minhas peças até hoje.


“Sou uma mangueira plantada fora do meu canteiro”

Cacá Carvalho em cena de “umnenhumcemmil”, que encerra trilogia sobre a obra do italiano Luigi Pirandello

P: Sobre o que trata cada peça? Existe um tema central que permeia a obra de Pirandello?
R: Os três espetáculos na verdade são um só: trazem o homem questionando seu valor, sua identidade, sua essência. Como é o caso de “O homem com a flor na boca”, que conta a história desse homem que passa a encarar a vida de formar diferente após se descobrir portador de uma doença incurável, um câncer na boca. A tal flor tratada de forma metafórica no título. Ao perceber que está morrendo ele se sente livre, parando pra observar as coisas, dando valor aos pequenos momentos. “A poltrona escura” é composta de três novelas, com três protagonistas diferentes, todos interpretados por mim. Na primeira delas, mostra um idoso que tem que lidar com a solidão após a morte da mulher e o abandono do filho. Outra história é desse advogado bem sucedido, que um belo dia passa a questionar seu status. “Será que a minha mulher beija a mim de verdade ou o advogado?”, ele se pergunta, até entrar em um processo de aniquilação da sua identidade. Para finalizar, conhecemos este homem que odeia a todos e deseja que as pessoas morressem com um simples apontar de dedo. O que acaba acontecendo e ele se torna o único ser vivente do planeta. Já em “umnenhumcemmil”, mais uma vez um relacionamento entra em ruínas. Conta a história de Vitangelo Moscarda. Um dia sua mulher lhe diz que seu nariz parece pender para a direita e isso desencadeia uma crise existencial nele. Essa é a mensagem, o mote de Pirandello: deveríamos deixar de ser um para ser nenhum. É uma forma generosa e cruel de retratar a condição humana.

P: A sua pesquisa sobre Pirandello se esgota em “umnenhumcemmil”?
R: Agora chega de Luigi Pirandello. Após à estreia de “umnenhumcemmil”, em 2011, passei a apresentar os três espetáculos em uma só temporada, muitas vezes na mesma semana. Agora até mesmo o meu entendimento da obra muda. É um panorama, pode se comparar cada apresentação, cada diferente discurso. Antes cada montagem estava separada por quase uma década. Mas ao mesmo tempo em que estou empolgado com essa nova perspectiva, eu reconheço que não sou mais um jovenzinho. Troco a cada dia de cenário, mudando figurino, de personagem. São 127 páginas de texto de uma vez só. Faz 20 anos que esses textos não saem mais da minha memória. Saem de outro lugar, de outro corpo. Eu acabei sendo mudado pelo discurso de Pirandello também. Não quero me sagrar o melhor ator, a voz da minha geração, em busca do maior papel da minha carreira. Ele me fez cag... pro teatro. Ao mesmo tempo que me fez querer continuar. Deixo o Pirandello, mas continuo querendo expor a condição humana, discuti-la, questiona-la através do meu trabalho.

P: Quem sabe a volta à teledramaturgia poderia ser um desses novos desafios?
R: Com relação a meu trabalho na televisão, eu nunca fui procurar esse tipo de experiência. Foram trabalhos que acabaram me achando. Se fosse procurado agora, te confesso que não sei como reagiria. Teria que se adequar com a minha rotina, não abriria mão de tudo pra me dedicar a um projeto. As minhas experiências com as novelas sempre foram muito bem recebidas - até hoje, quase 10, 15 anos depois o público ainda se lembra de meus papéis. Mas não é algo que esteja nos meus planos, como disse. O teatro pode não dar tanta fama, mas vivo bem desse jeito.
P: E quanto a Belém? Quando pretende se apresentar aqui de novo?
R: A última vez que estive por ai faz mais ou menos cinco anos, para apresentar “A poltrona escura”. Belém é uma cidade que está em mim e eu estou nela. Mas é caro visitar a cidade. Não sou um ator que tem apoio institucional. Acho que minhas peças não são material de Lei Rouanet [legislação federal de fomento a cultura]. E não acredito muito nos critérios de julgamento dessas seleções.

P: Que lembranças guarda do início de sua carreira na cidade?
R: Me considero uma mangueira plantada fora do meu canteiro. Me mudei em 1974 para São Paulo, atraído pelas possibilidades que o teatro podia me ofertar, e que Belém, infelizmente, não podia. Havia começado na dramaturgia no colégio Alfredo Chaves. Depois ingressei no Grupo Experiência. Mas minha vocação para atuar veio desde quando era criança, sem amigos e conversava com as paredes. Esse negócio de falar com gente que não existe, talvez venha daí. Em suma, o início da minha carreira coincidiu com um período de muita repressão com a Ditadura Militar ao mesmo tempo que batia uma vontade de mudança, de lutar pra melhorar as coisas. As distâncias eram grandes e eu tinha uma gana para percorrê-las. Pirandello se tornou uma grande influência na minha carreira, mas quem me lançou mesmo como ator foi meu padrinho, o poeta Ruy Barata (1920 -1990). Ele criou minha mãe, se tornando meu padastro, meu avô. Na sua biblioteca eu descobri o meu livro favorito “As 20 mil léguas submarinas”, de Júlio Verne. Aquilo me transformou, não estava em lugar nenhum, ainda a procura de meu lugar, como Capitão Nemo.


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(Diário do Pará)

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