Edição do dia

Edição do dia

Leia a edição completa grátis

Previsão do Tempo
27°
cotação atual R$

Notícias / Cultura

Cultura

Jornalista fala sobre 'Roberto Carlos em Detalhes'

sexta-feira, 19/04/2013, 08:37 - Atualizado em 19/04/2013, 08:37 - Autor:


Provavelmente, se dependesse de Roberto Carlos, Paulo Cesar de Araújo não seria escolhido para participar de qualquer homenagem ao Rei. O historiador e jornalista se tornou persona no grata do músico ao publicar, em 2006, a biografia não autorizada “Roberto Carlos em Detalhes”.


A obra chegou a vender 22 mil exemplares e figurar na lista dos mais vendidos, até ser banida das livrarias por decisão judicial. Na queixa-crime, o cantor sustentava ser vítima de invasão de privacidade, ofensa à honra e uso indevido de imagem. Mesmo em meio a uma batalha nos tribunais que dura sete anos, o biógrafo continua um dos maiores defensores da obra de Roberto. 


“Ele é um dos mais importantes personagens da história da música brasileira. Muitos artistas fizeram belas canções, como Cartola, Nelson do Cavaquinho. Mas não tiveram uma intervenção direta nos rumos dos acontecimentos como teve Roberto Carlos”, afirma o baiano radicado no Rio de Janeiro (RJ), em conversa por telefone.


Conversamos com o autor sob o impacto da aprovação da lei que libera a divulgação de biografias não autorizadas. Ele faz planos de relançar “Roberto Carlos em Detalhes”. O texto, de autoria do deputado Newton Lima (PT-SP), foi aprovado em caráter conclusivo no último dia 2 e agora segue para votação no Senado. Acompanhe o bate-papo:


P: Qual a importância de Roberto Carlos para a música brasileira?


R: Antes dele, a música brasileira estava identificada, em maior ou menor grau, a um gênero genuinamente brasileiro, como o samba, o baião, as marchinhas. Quem não seguia essa linha era considerado marginal como o bolero, a Celi Campelo com seus roquinhos. Roberto abre uma nova frente a partir da qual todos os artistas depois dele vão ter que se posicionar: seguir com a tradição ou abraçar as influências internacionais, como foi o rock da Jovem Guarda. Ele foi o tradutor dessa tendência importada dos Estados Unidos. E a fez ficar palatável ao gosto brasileiro. Para além disso, ele é um cantor que atinge todas as classes sociais. Odair José é limitado às faixas mais populares. O discurso de Chico Buarque agrada as elites e os intelectuais. Roberto foi trilha sonora do casamento do empresário Abílio Diniz, assim como do porteiro do meu prédio. 


P: Seu legado musical continua relevante?


R: A relevância de Paul McCartney hoje é a mesma que teve durante os Beatles? Claro que não. Assim como ele, Roberto é dono de um acervo, de um capital cultural acumulado ao longo dos anos. Um cara que não experimentou decadência. Frank Sinatra desceu no inferno. Elvis teve uma fase difícil. Roberto sempre teve show lotado, vendeu no mínimo um milhão de disco a cada lançamento. Não é a toa que no ano passado, aos 71 anos, foi autor da música de maior sucesso do país, “Esse Cara Sou Eu”


P: Como Roberto Carlos se tornou seu objeto de estudo?


R: Como a maioria dos brasileiros, tenho uma relação afetiva com Roberto Carlos. Durante a infância na minha cidade natal de Vitória da Conquista, no interior da Bahia, o rádio era meu principal contato com o resto do mundo. A Jovem Guarda foi algo que me tocou em cheio crescendo na década de 70. Roberto Carlos era um símbolo de rebeldia, de uma vida diferente da que eu levava no interior, cheia de carros velozes e garotas. 


P: E o que envolveu sua pesquisa?


R: O formato surgiu após 15 anos de pesquisa. Ao todo foram 200 entrevistas, como nomes como Tom Jobim, João Gilberto, Carlos Lyra, a turma do Clube da Esquina. Mas me deixe abrir um parêntese nessa história: a pesquisa levou muito tempo, pois trabalhei em dois livros simultaneamente. Além do “Roberto Carlos em detalhes”, o meu estudo também deu origem a “Eu Não Sou Cachorro, Não: Música Popular Cafona e Ditadura Militar” (2002). Outro motivo da demora foi que eu não conseguia falar com meu objeto de pesquisa. Durante todos esses anos não tive o privilégio de uma entrevista exclusiva com Roberto Carlos. Falei com todos os compositores, todos os músicos. Exceto o personagem principal dessa história. 


P: Qual foi o argumento do cantor pra retirar o livro de circulação? 


R: O que o ofendeu não foi nenhuma história do livro. Ele nem ao menos leu o livro. O que ele não queria era uma biografia não autorizada. Ele acredita que só pode existir uma biografia, a com o aval oficial dele.


P: Você imaginava que ia terminar em processo?


R: Era uma possibilidade. Mesmo porque ele já havia processado na década de 80 o Ruy Castro por um perfil publicado em uma revista, alegando que sua vida pessoal fora exposta. Mas não me pautei por essa preocupação, sou um historiador. Não é minha preocupação se ele vai gostar. Sem contar que é difícil agradar uma figura obsessiva compulsiva. Quando escrevi o livro, agi de forma legal. O argumento dos advogados dele é que estava expondo sua intimidade, sendo que o Roberto Carlos é um dos artistas com a vida mais devassada pela mídia no Brasil.


P: Isso soa até estranho já que se tem essa imagem de que Roberto Carlos é uma pessoa reservada...


R: Esse é mais um dos mitos acerca da figura de Roberto Carlos. Na época da internação de Maria Rita, em 1999, os médicos vinham dar boletins diários na televisão. No meu livro apenas mapeio, compilo o que foi amplamente divulgado pela imprensa. Outra episódio é o acidente que fez com que perdesse a perna quando criança. Isso aconteceu em praça pública, já foi esmiuçado em uma entrevista com o Ronaldo Bôscoli. Após ficar viúvo, Roberto não está mais tão escancarado como antes. Mas ele sempre se expôs, a vida dele está marcada em suas composições. É como um ‘diário cantado’.


P: Em entrevista você reclamou que “fizeram o que quiseram com a biografia mesmo após a proibição”... 


R: Dias desses me deparei com uma edição pirata brasileira, feita em gráfica e tudo mais, vendia a R$150. Só não constava meu nome e da editora. Desde 2007 o livro é publicado em Portugal, sem meu consentimento. Sem contar as cópias em PDF para download, que mudam a edição original, retiram trechos, rearranjam capítulos. Também existe uma versão em audiobook, feita por algum fã. É um absurdo ver um trabalho de 15 anos ser apropriado desse jeito pelos outros. E o pior, estou de mãos atadas, sem poder fazer nada.


P: O que espera que mude com a nova lei que libera a divulgação de biografias não autorizadas?


R: O texto foi aprovado na Câmara em caráter conclusivo e agora segue para votação no Senado. Estou tranquilo, otimista pela aprovação da lei, isso vem apenas confirmar uma garantia constitucional, o direito à informação e à liberdade de expressão. Se alguém for caluniado em uma biografia, vai ter seus direitos preservados. No meu caso, só quero olhar pra frente. Não quero que Roberto devolva os 11 mil exemplares que reteu do meu livro. Não quero indenização pelos gastos que tive nos tribunais. Como diz a canção: “Daqui pra frente, tudo vai ser diferente...”.


P: Continua fã do rei? O que aconteceu mudou de alguma forma sua admiração?


R: Não acho que “Detalhes” ficou feia porque ele me processou. O que aconteceu é história, não fico magoado. Apenas lamento. Na verdade, Roberto Carlos ainda continua sendo meu objeto de estudo. Mantenho um arquivo atualizado sobre sua carreira. Quando a biografia for liberada pela justiça, essas novas informações serão incorporadas na versão atualizada. Roberto segue sendo um livro em aberto, mesmo que ele não queira ou goste disso.


(Diário do Pará)

Conteúdo Relacionado


0 Comentário(s)

MAISACESSADAS